Filosofia de viagem – pensamentos ordinários

Filosofia de viagem – pensamentos ordinários
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Números e mais números. (foto: Waldson Gutierres)

As horas passadas sobre o selim da bicicleta nos trazem grande revelações sobre nós mesmos e o mundo em que vivemos. Mas nem sempre é assim. Por vezes, nos distraímos com cada bobagem que falta até coragem para admitir depois. Pra mim, muitas vezes, o que faz o tempo passar é a criação de equações com os números que vejo pela estrada. Vale qualquer operação com os números que ví, contanto que o resultado seja o último avistado. E você, qual o pensamento banal que te distrai nas horas menos inspiradas? Para ver que não estamos sós, seguem aí duas passagens, digamos, menos nobres de grande viajantes.

“Nesse primeiro dia de pedal, criei um jogo para me distrair: eu brincava de avaliar as sensações e as particularidades do dia dividindo-as entre “boas” e “ruins” conforme minha perspectiva egocêntrica. Nada muito sofisticado. Eu simplesmente resumia o mundo ao dualismo básico de “bom” e “ruim”, luz e escuridão, Deus e o diabo, como se a realidade respeitasse esse maniqueísmo rudimentar. […] Nessa brincadeira pseudofilosófica de enxergar tudo como reflexos simétricos de um espelho ilusório, o tempo passou e depois de horas entretido comigo mesmo, cheguei ao topo do paso Garibaldi e parei no mirante para o Lago Escondido.”

Guilherme Cavallari – Transpatagônia – pag 253.

“Muitas vezes me perguntam no que eu pensava enquanto pedalava. […] Sempre fico pensativo com esta pergunta. Lembro-me das vezes que olhava para baixo e via duas pernas, duas rodas e quatro alforges. O que exatamente penso quando estou pedalando? Não faço ideia.”

Charles Zimmermann – Travessia – pag 27.