Relato: Caminho dos antepassados

Salve, salve!

Neste mês de julho o grande parceiro de pedaladas Rodrigo Herd fez uma viagem bem bacana pelo interior de SC. A meu pedido, ele escreveu um relato para publicação aqui no Pedal Nativo. Espero que gostem!

 

Há 100 anos, em 1918, João Hoffmann (meu bisavô materno) com sua família (entre eles meu avô Waldemar, então com 12 anos) chegaram à Rio do Sul – SC. Era o fim de uma saga tão comum aos imigrantes alemães e seus descendentes estabelecidos em Santa Catarina desde metade do séc. XIX. A busca por terras melhores para sustentar a família havia começado alguns anos antes quando deixaram a região das colônias próximas à Capital. Primeiro subindo o caminho das tropas (como era conhecida a estrada que levava à Lages) até a localidade de Barracão (hoje Alfredo Wagner). Depois, usando a estrada aberta em 1912, seguiram pela margem do Rio Itajaí do Sul até a localidade de Ilha Grande, para anos depois, finalmente se fixarem em Rio do Sul. Para comemorar o centenário desta história, decidi fazer uma cicloviagem pelos caminhos percorridos pela minha família materna.

Saí de Rancho Queimado numa sexta-feira de sol e calor atípico para mês de julho. Os primeiros 15km incluem um divertido zigue-zague no trecho asfaltado, uma bela descida em estrada de chão e trechos com calçamento em Rio Bonito e ao chegar em Taquaras. Destino turístico de final de semana, a localidade mantém preservada muitas de suas construções históricas, como a casa de campo do ex-governador Hercílio Luz e as igrejas católica e luterana. Esperava almoçar num restaurante local, mas este só funciona aos sábados, domingos e feriados, e acabei dando com a “cara na porta”. Teria que me contentar então com a pouca comida seca que trazia comigo. De Taquaras, uma subida de 4km, suave e constante, me levou até à BR282, na altura do mirante da Boa Vista. Desci pelo acostamento da BR por alguns poucos quilômetros até sair à esquerda rumo aos distritos de São Leonardo e Picadas. A partir dali eu percorreria a margem esquerda do Rio Itajaí do Sul, cujo leito eu acompanharia até chegar à Rio do Sul. Nesse trecho prevalecem as paisagens típicas rurais, pequenas plantações e pastagens na beira do rio. Fiquei sem água logo após terminar a descida, mas apesar de não haver pontos de apoio nesse trecho, logo encontrei uma casa onde pude pedir um pouco. Reabastecido de água gelada, segui no sobe e desce característico dos vales até reencontrar a BR282 poucos quilômetros antes do trevo de Alfredo Wagner e meu destino final do dia: Hotel, Lanchonete e Churrascaria Kretzer.

A antiga estrada que possibilitou a chegada dos meus antepassados ao Alto Vale do Itajaí seguia pela margem direita do rio, onde hoje é a rodovia SC350. Como pedalar na rodovia não é muito agradável, o caminho que tracei até Ituporanga margeava o outro lado do Itajaí do Sul por estradas vicinais e rurais sempre que possível. Logo após a saída de Alfredo Wagner, há um pequeno trecho em que não há alternativa até Catuíra, onde uma estreita ponte pênsil me levou de volta à tranquilidade da margem esquerda. A partir daí, as paisagens rurais se intercalam com trechos de mata e o caminho vai ficando mais duro. Uma montanha-russa com pequenas subidas íngremes e estradas com muito cascalho e pedras soltas esgotaram rapidamente minhas energias. Na altura da localidade de Jararaca, pra evitar um trecho em aclive e sem acostamento pela SC, desviei morro acima sentido Chapadão do Lageado, aumentando a distância, a subida acumulada e o cansaço das minhas pernas. Nesse momento, ficou claro que eu havia cometido um vacilo grave. Sabendo da falta de pontos de apoio, levei comida seca comigo, mas claramente era insuficiente para repor minhas energias. Fica a dica: Mandolate, pipoca Bilu, amendoim doce e banana passa não tem a “sustança” necessária pra um dia inteiro de pedal. Como resultado passei a me arrastar morro acima e, ao invés de curtir o caminho, só conseguia pensar no quanto de sofrimento ainda me faltava pela frente. Apesar de tudo, viajar de bike sempre revela boas e novas experiências. Ao passar em frente a uma propriedade, um agricultor me pediu pra “tocar” umas vacas e bezerros, que haviam se perdido, pra direção certa. Descobri mais uma utilidade da bicicleta: o pastoreio. Dado o meu estado de esgotamento físico, ao cruzar com a estrada asfaltada de acesso à Chapadão do Lageado, retornei por ela até a rodovia pra encurtar o caminho e chegar logo à Ituporanga.

 

O terceiro dia foi tranquilo, cerca de 30 km até Rio do Sul. Me mantendo à esquerda do rio pra fugir da SC, o sobe e desce é bem mais sossegado que o dia anterior, e de Aurora em diante é basicamente plano. A paisagem também muda, com mais áreas urbanizadas intercaladas com pequenas propriedades rurais. Havia combinado de almoçar na casa da minha madrinha e cheguei bem na hora que serviram à mesa. O almoço de domingo reuniu alguns dos descendentes (meus tios, tias e primos) do João Hoffmann que ainda moram em Rio do Sul 100 anos depois. Não poderia haver forma melhor de celebrar minha chegada.

Agora era só voltar.

Com a previsão de chuva para o início da semana, cheguei a cogitar voltar de ônibus, mas as empresas (a Reunidas no caso) fazem tantas exigências para o transporte da bicicleta, que preferi apostar na imprecisão da meteorologia.

Saí de Rio do Sul na segunda antes das 9h. Com 65km pela frente até Vidal Ramos, além da bela serra de Presidente Nereu, não iria cometer o mesmo erro de sábado. Iniciei a pedalada com duas bananas e um café no estômago, mas 15 planos quilômetros depois parei numa padaria em Lontras pra reforçar o estoque calórico. O dono do estabelecimento puxou papo ao ver minha bicicleta e disse que também era ciclista. Contou que organizam todo ano uma prova na estrada que percorreria até Presidente Nereu. São 28 km totalmente asfaltados, quase sem movimento, os 8 primeiros planos, 10 subindo (com os 4 últimos mais inclinados) e os últimos 10 numa deliciosa descida. Cheguei no centro de Nereu 12h30 e tratei logo de parar para almoçar e descansar. O dia que havia amanhecido nublado e encoberto as vistas da serra, agora se mostrava ensolarado e razoavelmente quente.

Se a estrada até Pres. Nereu é uma atração em si, o caminho dali até Vidal Ramos é cheio de paisagens belas, pitorescas e bucólicas, em especial quando se avista o rio Itajaí-Mirim. Já quase chegando em Vidal Ramos, duas construções chamam a atenção. Primeiro a charmosa casa comercial Irmãos Stoltenberg, em estilo enxaimel. E alguns quilômetros à frente, destoando da natureza ao redor, ergue-se uma enorme fábrica de cimento da Votorantim. Dali até a entrada da cidade, onde fica o Acacius Hotel, meu destino do dia, pedalei pelo acostamento da rodovia usada pra escoar a produção da fábrica.

Os menos de 30 km de distância entre Vidal Ramos e Leoberto Leal podiam indicar um dia fácil de pedal, mas como percebi ao longo da pedalada, a sequência de subidas que acumulam mais de 1000m elevação, tornam o caminho bem desgastante. Em compensação, pedalei em meio à tranquilidade da natureza. A impressão é de que não pára de subir nunca, e realmente só pára quando se chega à divisa dos municípios, já na asfaltada rodovia SC281. Uma forte descida leva ao centro de Leoberto Leal. Cheguei a tempo de almoçar no Hotel e Churrascaria JK, onde me hospedei e fui muito bem recebido. Consegui lavar e secar todas as minhas roupas de ciclismo, o que seria primordial pro dia seguinte, quando a previsão de chuva e frio finalmente se concretizaria.

Deixei Leoberto Leal pouco antes das 9h, sob uma fina garoa, para encarar os últimos 57km da minha jornada. Durante os primeiros 16 km, que me levaram ao sopé da Serra dos Tropeiros, a garoa fina apertou, me obrigando a colocar em ação a capa de chuva comprada na Cravil de Vidal Ramos no dia anterior. A estrada de chão, inaugurada em 2012, tem apenas 1750m, mas uma inclinação absurda. Os primeiros 500, 600 metros eu nem tentei pedalar, simplesmente desci e empurrei a bici morro acima. Depois que suaviza um pouco a subida eu voltei pra cima do selim. Ao chegar no “fim” da serra encontrei o caminho que liga à BR282 e à localidade de Mato Francês, já em Rancho Queimado. Mas as subidas continuam por pelo menos uns 6km, mas bem mais leves. Nesse ponto, já acima dos 1000m de altitude, junto com a garoa, o vento gelado se tornou um grande inimigo. Parei para trocar de roupas, e colocar a calça plástica que veio com a capa de chuva, antes de encarar a descida. Isso me ajudou a manter o corpo seco e aquecido apesar do intenso frio. Após a descida, em frente à igreja luterana de Mato Francês, entrei num rancho aberto e aparentemente desocupado para me abrigar, descansar e me alimentar. Desta vez sem vacilação: pão de centeio, linguiça defumada e uma lata de atum ralado. Coloquei a última muda de roupa seca de pedal que ainda me restava para percorrer os 20km finais. Uma pequena subida antes de descer novamente à Taquaras, e de lá segui pelo caminho inverso ao percorrido logo no início da viagem. O último desafio, subir o Morro Chato, fez jus ao nome do local, especialmente com o vento contra, e ajudou a somar os quase 1.800m de subida acumulada no dia. Avistar meu carro estacionado no centro de Rancho Queimado significava o fim dessa incrível viagem por alguns dos caminhos que levaram meus antepassados e tantos outros imigrantes ao interior de Santa Catarina.

Números da viagem: 9 cidades, 6 dias, 297km e 7.325m de subida acumulada.

Registros do Strava:
Dia 1
Dia 2
Dia 3
Dia 4
Dia 5
Dia 6

2 opiniões sobre “Relato: Caminho dos antepassados

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