RELATO: Circuito das Araucárias – final

Esta é a terceira e última parte do relato de minha viagem pelo Circuito das Araucárias. Chegou agora? Leia a primeira e a segunda partes e também o post complementar.

Ao contrário da receptividade da família da Hariet, a noite da pousada Ponte de Pedra não foi das melhores. Não me adaptei bem ao colchão e tive um bom período de insônia no meio da madrugada. Sorte que o dia seria de apenas 40 quilômetros e pude dormir até um pouco mais tarde para compensar. Após o café, e ainda antes de partir, dei uma nova ajustada na fixação dos alforges. Recuei o da esquerda em uns dois centímetros e mudei a posição do gancho inferior dos dois. Era o ajuste que faltava. Ficaram firmes e meu calcanhar não encostava mais durante o pedal.

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Partir por volta das 10:30h, com um clima mais agradável. A chuva que caiu durante a noite serviu para assentar a poeira da estrada e aumentar a umidade do ar. Até o sol apareceu mais vezes para iluminar um trecho que já apresenta paisagens um pouco diferentes. Neste dia pedalei mais por cristas de morros e ao longo de plantações diversas. Os cenários eram mais amplos. Mas as subidas continuaram. De tempos em tempos a estrada começava a descer até passar por um rio, depois subia tudo de novo.

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Neste dia também eu peguei o primeiro trecho mais fechado do roteiro. Pouco depois de cruzar a BR-280, aparece uma subida de 2 Km em linha reta, onde a estrada vai se tornando uma trilha cercada de eucaliptos. Apesar da lama escorregadia, foi um trecho muito bacana de passar. Logo depois, comecei a descer por outra estradinha abandonada, esta pavimentada com pequenas pedras já arredondadas pelo desgaste. Muito bacana também.

Você está lendo a parte três, confira as partes um e dois, além do post complementar.

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Pouco depois cheguei ao centro relativamente agitado de Rio Negrinho. Era a tarde uma segunda-feira e, pra quem saiu do mato, as coisas estavam meio estressantes por lá. Carimbei o sétimo trecho na loja de conveniência de um posto de gasolina e tratei de ligar logo para a Fazenda Evaristo, onde pretendia acampar neste dia.

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Segui para lá, de acordo com o roteiro traçado ainda em Florianópolis. Porém, quando foi conversar com o proprietário, ele me ofereceu um chalé por um preço muito convidativo e acabei deixando a barraca guardada. Ainda bem, por que choveu forte durante a noite o dia seguinte foi o mais duro de toda a viagem. No chalé, tive tranquilidade para fazer uma janta reforçada, com arroz, feijão e frango, e relaxar assistindo qualquer coisa na TV. Fui dormir cedo.

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Acordei também cedo e o meu café da manhã foi a continuação da janta, junto com um indispensável café. Comecei a pedalar e reparei que a estrada estava bem mais úmida, chegando a acumular lama em algumas partes planas. O primeiro trecho, de 7 Km, foi apenas uma conexão, para encontrar a rota oficial e seguir rumo a São Bento do Sul. Estradinha bonita e tranquila, que poderia tranquilamente pertencer ao circuito.

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A tranquilidade de encontrar o trajeto oficial durou pouco. Após virar a esquerda em um cruzamento, uma subida forte me fez descer e começar a empurrar a bicicleta. A estrada, no entanto, tinha uma lama grudenta que cobria toda a sua extensão. Ela se acumulou instantaneamente na suspensão e no quadro, impedindo as rodas de girarem. Peguei um graveto no chão e tirei o excesso pra continuar empurrando morro acima. Mas não adiantava. Em três passos as rodas já travavam novamente.  Após brigar com a lama por uns 500 metros, percebi que seria impossível seguir por ali virei a bike para voltar. Até para descer foi difícil, com várias paradas para liberar as rodas. De volta à estrada pedalável, procurei no GPS alguma opção paralela ao morro da lama e havia uma um pouco mais à frente. Confirmei com uns moradores locais e lá fui eu. Mal sabia no que eu estava me metendo.

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Apesar de não ter nenhuma marca recente de uso, o caminho começava bem, passando por um bosque de eucaliptos. A estradinha, no entanto, foi se fechando e se transformando em uma trilha. Subidas e descidas se alternavam sem que eu conseguisse pedalar. Era muita lama, buracos e pedras. A estrada desenhada no GPS batia com o trajeto que eu estava fazendo, mas estava ficando preocupado com a situação da trilha, que ameaçava fechar de vez e impedir que eu seguisse. Ao menos que eu seguisse empurrando uma bicicleta que, com a bagagem, passava dos 40 kg. Após mais de uma hora nesta função, o GPS indicou que a minha “estrada” estava perto de cruzar outra estrada. Foi uma esperança em vão, já que a outra “estrada” estava em situação ainda pior, com grandes árvores caídas que impediam a passagem da bike. Já oficialmente preocupado, deixei a bike e segui a pé, passando por sobre as árvores caídas para ver onde esta trilha daria.

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Sua situação, no entanto, era ainda pior. Muito mato fechando o caminho e grandes valetas de lama. Até pra caminhar estava difícil. Voltei, peguei a bicicleta e segui pela trilha em que eu estava. Para minha alegria, a trilha foi, aos poucos, se transformando novamente em estrada. Ao longo de uma grande subida, claro, com mais de 100 metros de desnível. Após chegar novamente perto dos 1.000 metros de altitude, alcancei uma estrada de verdade, que me levou de volta ao roteiro oficial. Cheguei no km 30, exatamente metade do previsto para o dia, cheio de lama, cansado e de mau humor.

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Pedalei mais uns quilômetros  e resolvi parar para comer e respirar um pouco. Foi muito bom. Matei o restante da janta e tomei bastante água. Montei na bike e, conforme fui avançando, o ato de pedalar tranquilamente e curtir as descidas foi me colocando no espírito da viagem novamente. Apenas a corrente da bicicleta ainda estava com problemas. Toda a lama da trilha estava secando e ela começava a estralar. Desviei um pouco o trajeto novamente para encontrar um vilarejo e poder lavar toda a relação. Com apenas água e umas gotas de óleo depois ela voltou a funcionar silenciosamente.

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Voltei ao roteiro oficial e não demorou muito para que eu parasse novamente. Cansado e com fome de novo, comi tranquilamente em uma mercearia no bairro Lençol, já em São Bento. Segundo um morador local, o bairro tem este nome pelas geadas que historicamente cobrem a região no inverno. De lanche feito, parti para a “reta final” do trajeto, que, como sempre, tinha várias subidas. Mas a aproximação do Centro da cidade é feita por um caminho muito interessante de estradas de terra e ruas tranquilas, que nos deixam muito perto da praça Getúlio Vargas, onde tudo começou. Sem maiores dificuldades, nem emoções por parte da atendente, peguei o meu diploma de conclusão do Circuito das Araucárias. Mas tudo bem, tudo muito bem. Fiz o roteiro vencendo uma gripe e um grande problema mecânico na bicicleta pelo prazer em pedalar pelas montanhas em estradas tranquila e próximo à natureza. E isso eu tive de sobra. É o que me importa, a minha recompensa.

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Algumas conclusões e dicas:

  • É possível sim fazer o circuito acampando. Anotei locais para montagem da barraca ao final de cada trecho e posso passar aos interessados. Agora, se eu recomendo? Acho que não. Pela natureza dura dos trechos, com infinitas subidas e estradas com buracos e pedras, quanto mais leve for a bicicleta, mais prazeiroso será o passeio.
  • Leve sempre comida para um dia todo de pedaladas. Os locais para lanche são escassos e podem estar fechados.
  • Sempre ligue antes para reservar locais de pouso e refeição.
  • Os trechos seis, sete e oito têm vários locais sem sinalização do trajeto a seguir. Não me perdi porque tinha o track de GPS me orientando o tempo todo. Recomendo a quem for fazer o roteiro o uso de um aparelho de GPS (não precisa ser um caríssimo, destes de atleta. Um Dakota 20, como o meu, já resolve). Sem GPS, a dica é aprender um pouco de navegação (não é complicado) e utilizar o guia oficial do circuito em conjunto com um ciclocomputador. O guia é entregue gratuitamente na saída e é capaz de levar o cicloturista com tranquilidade por todo o percurso.
  • Informei à atendente da Secretaria de Turismo de São Bento do Sul sobre a inviabilidade do trecho de lama da última parte do trajeto. Recomendo que o ciclista verifique se algo foi feito ou busque uma opção mais segura.
  • Não foi tranquilo para levar a bicicleta no ônibus da Reunidas de São Bento do Sul para Florianópolis. A primeira exigência era de que estivesse encaixotada. Após bastante insistência minha, consegui que aceitassem ela semi-desmontada (pedais sacados e quidão paralelo à roda) e com a relação coberta com pano para não sujar outras bagagens.

Dúvidas? Sugestões? Comente abaixo 🙂

Você leu a parte três, confira as partes um e dois, além do post complementar.

Track Ponte de Pedra – Fazenda Evaristo

Track Fazenda Evaristo – São Bento do Sul

Inventário da bagagem no Circuito das Araucárias.

 

17 opiniões sobre “RELATO: Circuito das Araucárias – final

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  • maio 21, 2016 em 18:08
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    Ainda bem que não fiz este trecho (que não conheço) contigo, hahaha. O negócio foi bruto. Parabéns Fábio. Abc

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    • maio 22, 2016 em 11:21
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      Olá, parceiro. Terias me ajudado a sair da roubada. rsrsrs. Abraço!

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  • maio 22, 2016 em 18:35
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    Parabéns Fábio pela aventura. Planos, providências, esforços, riscos, e tudo o mais e agora tens o prêmio de mais uma conquista. O seu relato é um prêmio e inspiração para todos nós. Continue assim! Abraço!

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    • maio 23, 2016 em 13:30
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      Obrigado, Nilson. Precisamos pedalar! Abraço

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  • maio 28, 2016 em 08:23
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    Oi amigo ciclista. Também estou “namorando” este circuíto. Teus relatos são muito importantes para orientar inexperientes em cicloviagens como eu. Algumas dúvidas: Foram quatro dias pedalando? Notei que junto com o alforge você tem um “saco” amarelo onde guarda barraca, isolante e saco de dormir correto? Onde compro isso e qual o nome? O gás que usou para cozinhar dura quanto tempo?
    Obrigado e parabéns pela vitória e aventura.

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    • maio 29, 2016 em 12:29
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      Olá, Rubens. O circuito é bem atraente mesmo. Meu namoro foi de uns dois anos. rsrsrs.

      Foram seis dias pedalando pra fazer o circuito, sendo que em um deles eu pedalei 13 km.

      Isso mesmo, eu usei um saco estanque para levar a barraca, o isolante e o saco de dormir. É um cara do RJ que faz de forma meio artesanal, mas é bem resistente. Este que eu levei é de 50 litros. Segue o link do de 30 litros: http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-730464453-saco-estanque-para-moto-aventura-camping-e-pesca-_JM

      Usei menos de um cartucho de gás em toda a viagem, mas acredito que seja pq cozinhei pouco. Na maioria dos locais havia comida boa e a preço razoável.

      Abraço!

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  • maio 28, 2016 em 19:39
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    Parabéns parceiro por mais essa bela cicloviagem! Ótimo relato e belas fotos que só nos incentivam. O pedal foi bastante difícil, principalmente pelos problemas de saúde, mas você venceu com muita garra e brilhantismo. Abraços ao Sr. Heil!

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    • maio 29, 2016 em 12:30
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      Obrigado, mestre! Foi um teste dos bons, com desafio mental também. Espero que possamos pedalar juntos em breve.

      Grande abraço!

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  • junho 21, 2016 em 22:28
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    Gostei de ler o seu relato e parabéns pela sua conquista! Quando li que você esteve na Fazenda Evaristo, eu me lembrei de uma semana maravilhosa que estive nesse lugar. Lá eu e meus colegas do segundo ano do ensino médio (antigo segundo grau) ficamos acampados e tivemos aulas de todas as disciplinas ao ar livre! Vai ser muito bom para mim quando eu tiver a oportunidade de pedalar no Circuito das Araucárias (sei que também vai ser bem difícil o pedal).

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    • junho 22, 2016 em 03:48
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      Aquele lugar é gigante! Fiquei impressionado, especialmente, com o tamanho do ambiente de shows. Quando eu fui ainda estavam instalando uma tirolesa. rsrsrs. Mas veja que, para dormir lá eu saí do roteiro oficial, passando por uma estradinha bem bacana tb.

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  • dezembro 29, 2016 em 21:52
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    Olá Fábio, fantastico seu relato. Dicas valiosas e dão um gostinho do que esperar no circuito. Vou me aventurar agora em janeiro e pretendo acampar ao longo do caminho. Vc poderia por gentileza me enviar as anotações dos lugares que vc mencionou no seu relato. Muito obrigado!! Joachim

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    • dezembro 31, 2016 em 20:30
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      Olá, Joachim! Legal que está se preparando para ir pra lá. Vamos às dicas de local pra acampar:

      Restaurante e Camping Rio Novo, próximo à Rota das Cachoeiras, em Corupa.
      Camping Parque das Aves, já subindo de volta pra São Bento do Sul.
      Recanto do Noti, logo após a comunidade do Rio Vermelho.
      Acampamento em algum lugar na localidade de Bateiras de Cima, entre Campo Alegre e a Ponte de Pedra. Veja dicas aqui.
      Fazenda Evaristo, entre Rio Negrinho e São Bento do Sul, por caminho alternativo ao oficial.

      Depois nos conte como foi!

      Abraço e boa viagem!

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  • julho 20, 2017 em 08:05
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    Aproveitando a perda de sono, ainda que um ano após esta a aventura transmitida por esse belo relato, a gente se sente transportado para um ambiente agreste e rude, porém de beleza divinal. Percebe-se que há algo inexplicável, porém fortemente sedutor, subjacente em cada cenário fotografado. Depois de toda essa vivência, será que a gente não fica diferente? Mas, esse diferente também é inexplicável. Não é mesmo? Grande abraço, Fabio

    Resposta

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