RELATO: Cicloviagem pelo litoral Norte de São Paulo (3/3)

Salve, salve

Após passar um dia além do previsto em Ilhabela, parti para Ubatuba em uma manhã de muito calor, com a temperatura superando os 30 graus às 9:30h. Sabia que seria um roteiro pesado fisicamente, com cerca de 100 quilômetros e tratei de me proteger como pude. Blusa branca de manga longa, protetor solar e muita água. Muita mesmo, lá pelas 13h já tinha tomado três litros.

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Desconfortos térmicos a parte, foi um dia que começou meio sem graça, com uma área urbana degradada nas margens da BR-101. Muitos caminhões pesados e nenhum acostamento. A coisa começou a melhorar em Caraguatatuba (Caraguá, para os íntimos). Pela primeira vez eu não segui a rota indicada pela prefeitura para quem vai a Ubatuba e resolvi fazer o caminho apontado pelo GPS, passando pelo centro da cidade. Lá descobri uma simpática praça com ares de interior. Parei sob uma enorme árvore para refrescar um pouco e aproveitei para tomar um picolé.

Foi como uma transição para um trecho bem mais agradável que estaria por vir. Dali em diante os caminhões foram diminuindo e o acostamento passou a ser mais comum. Além disso, ia me relembrando de casos e passeios que já fiz na região. Passei a infância e adolescência visitando Caraguá e, principalmente, Ubatuba, onde até tivemos um apartamento.

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Há muito tempo eu não aparecia por lá, e foi muito bom redescobrir a região, que, aliás, não mudou tanto assim. A noite, relaxando na rede do camping em Itamambuca, acabei escrevendo este post no Facebook.

“Talvez hoje eu tenha feito um dos pedais mais difíceis da minha vida. Seja pelo calor, que passou dos 32 graus, seja por ter respirado fumaça e tomado finas de caminhões e ônibus o dia todo, seja pela distância de 102 km ou ainda por pedalar sem companhia.

Tudo se encaminhava para este “marco”, até começar a pedalar por Ubatuba. Como passar pelo Lazaro e não lembrar que, com sua areia branca e água clara, era uma das praias preferidas da minha mãe? Como esquecer das minhas tentativas como surfista na Enseada? E a Grande de tantas festas e carnavais com amigos? Impossível passar pelo Itaguá e não procurar o prédio onde tinhamos um apartamento.

Hoje rodei bastante dentro do bairro, mas não o encontrei e voltei para a avenida. Andei mais um pouco e achei a entrada certa, mas decidi seguir reto. Por mais bonitinho que o prédio possa estar hoje, ele não conseguiria se igualar ao meu porto seguro de tantos verões.

Segui o passeio, atravessando o centro da cidade. Ele não está todo reformado como em São Sebastião e Ilhabela. Está próximo do que sempre foi. Por isso mesmo foi fácil me lembrar das bebedeiras e dos namoros que curti por alí.

Estou agora em um camping de Itamambuca. Fica do lado do Felix, a praia onde, mergulhando, avistei uma arraia passando pouco acima de mim.

Enfim, estou cansado mas estou feliz. Estou em uma de minhas mais gostosas casas.”

Após este dia fantástico e cansativo, tinha que seguir viagem no dia seguinte. O destino era Paraty, já no Rio de Janeiro, a pouco mais de 50 quilômetros. A princípio, o único desafio do trecho era a serrinha da divisa, um braço da Serra do Mar que avança em direção às praias. São oito quilômetros de subida e as melhores vistas de toda a viagem. Neste trecho o movimento da BR-101 é bem menor, a estrada está muito bem conservada, o acostamento é largo e pra todos os lados que se olhe o que se vê é mata atlântica e praias.

Comecei a pedalar um pouco tarde, já sentindo o cansaço acumulado e o excesso de sol. Parei várias vezes para tomar água e me refrescar, chegando a entrar debaixo de uma ducha de roupa, tênis e tudo mais, pra ver se acordava o corpo. Mas foi um dia complicado. Vencida a subida de oito quilômetros eu já não via a hora de encerrar o pedal do dia. Mas pro lado de Paraty não eram apenas descidas, como imaginava. Havia algumas subidas também e o calor estava ainda mais forte, próximo dos 40 graus. Levando muito mais tempo que o normal para um trecho tão pequeno, cheguei à marina onde havia combinado de encontrar o Eduardo, meu irmão que mora em Paraty.

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Nos encontramos e rapidamente seguimos para a casa dele de carro. Lá deixei minha bicicleta, comemos algo e fomos para o mar, para conhecermos o Samba, o barco que ele estava acabando de reformar para operar mergulho na região. Navegamos até a Ilha da Cutia, onde ancoramos para passar a noite. Eu esperava descansar e acordar zerado para o que seria o dia mais difícil da viagem: a subida da serra do mar por estrada de terra. O destino seria Lorena, no interior paulista.

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Mas acordei meio estranho no dia seguinte. Quando desembarquei, a coisa só piorou e achei melhor tirar um dia por lá. Almoçamos e passei a tarde deitado, vendo o enjoo aumentar. Até febre apareceu. Um amigo do meu irmão, que é massoterapeuta, ainda tentou me ajudar, mas o alívio durou pouco. Acordei ainda ruim no dia seguinte, sem condições nem para uma caminhada mais forte. Sem tempo para esperar mais um dia, decidi encerrar por ali a viagem e avisei os amigos assim:

“Bom dia! Acordei hoje sem enjoo nem febre. Porém, ainda com muita fraqueza. Como o roteiro do dia previa 3 mil metros de subida acumulada, achei melhor não forçar a barra pra depois ter que incomodar meus patentes pedindo resgate. Já sem tempo sobrando, decidi encerrar aqui por Paraty a minha viagem de bike. Foram 319 km muito bem aproveitados. Obrigado aos que mandaram mensagens de apoio. Certamente voltarei pra subir este trechinho da Estrada Real. Abraços e beijos!”

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Tava quente?

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Itamambuca

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Pedalada concluída, hora do PF amigo. Este estava bem bom.

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Descanso pras pernas

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Subindo pela contramão, para encontrar sombra.

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Rio ao lado da estrada, com água gelada do alto da serra. Coisas que só cicloturista vê.

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#tamojunto

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Quer estragar um belvedere?

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Faça da sua entrada principal um depósito de veículos apreendidos pela PRF.

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Enfie três transformadores bem na frente da vista a ser apreciada.

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Vista esta que continua maravilhosa.

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A cruz sobre a pedra: cheguei em Paraty.

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Eduardo nos levando para o barco

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A sereia que velou me sono

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Voltando pra Paraty, pra encerrar as pedaladas por lá.

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Trajeto do quarto dia. Clique aqui para baixar o track do GPS

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Trajeto do quinto dia. Clique aqui para baixar o track do GPS

Tá bem encerrado, né?

Perdeu as outras partes da viagem? Leia aqui o relato do primeiro dia e aqui o do segundo e terceiro dias.

Grande abraço e até a próxima, que já está marcada para o Carnaval. 🙂

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