O ano de 2020 no cicloturismo

2020 foi um ano (complete aqui com o adjetivo que lhe vier à mente). Um ano que foi tudo, menos apenas mais um ano. Apesar de ficarmos muito tempo em casa, foi um ano que nos tirou da nossa zona de conforto. Nessa gincana da reinvenção que nos metemos, as regras são mutantes e a linha de chegada nos escapa o tempo todo. Por isso, chegarmos a dezembro com alguma saúde mental é sim motivo de comemoração.

Aqui no Pedal Nativo não foi diferente. Entre pedaladas de madrugada pela cidade e pequenas viagens para o meio do mato, o ano termina com um saldo surpreendentemente bom. Em números computados pelo Strava, foram 4.609 Km pedalados em 12 meses, um recorde absoluto para este ciclista. Mas, mais importante do que números, foi um ano com nada menos que cinco viagens de bicicleta. Todas curtas, de dois dias, mas que sem dúvida ajudaram a renovar as energias para esse ano-maratona.

A primeira delas foi nos primeiros dias de janeiro. Com a Roberta em viagem para a Europa, aproveitei um fim de semana para revisitar um cantinho especial da Serra do Tabuleiro, na Grande Florianópolis. Pedalar sozinho, sob chuva, e chegar a noite ao local de acampamento foi uma experiência intensa, inesquecível! A manhã seguinte foi de relaxamento após a tormenta.

Pedalar sozinho, sob chuva, e chegar a noite ao local de acampamento foi uma experiência intensa, inesquecível! A manhã seguinte foi de relaxamento após a tormenta.

Esse é um local maravilhoso, mas que está ameaçado por invasões predatórias e não se sabe até quando será possível acessá-lo. Por isso, em maio eu voltei à Serra do Tabuleiro. Desta vez na companhia de um casal de amigos (Instituto Bikepacking) e com tempo bom, em uma viagem bem mais tranquila. Tivemos tempo para cozinhar sem pressa e curtirmos a natureza deste lugar tão incrivelmente preservado e acessível.

Tivemos tempo para cozinhar sem pressa e curtirmos a natureza deste lugar tão incrivelmente preservado e acessível pra quem mora na região.

Essas duas pequenas viagens me atiçaram para o que seria o grande projeto do ano: uma viagem de vários dias pelas serras Catarinense e Gaúcha. Foram meses ajustando equipamentos, traçando rotas e juntando algum dinheiro para passar 11 dias das minhas férias pedalando e acampando entre Urubici (SC) e Cambará do Sul (RS). Tudo pronto, expectativa lá nas nuvens, parti para Uribici em meio à mais forte frente fria do ano.

Na primeira noite de acampamento a temperatura caiu a -4 graus. Frio eu não senti, mas um enorme desconforto em carregar tanto peso por uma região tão dura. Já no segundo dia o desconforto se transformou em dores por todo o corpo e me levou e a abortar a viagem em São Joaquim. Decepção à parte, me serviu como um aprendizado sobre minhas vontades e meus limites físicos. 2020 sendo 2020, né? Minha reflexão pós-desistência:

O estresse é mais ou menos como esta bicicleta carregada. Nós o levamos ao longo da vida. O alimentamos e vamos nos apegando a ele. E assim nos acostumamos a fazer tudo com ele. Achamos que “faz parte” carregar este enorme peso extra em todos os momentos da vida. Achamos que, depois da próxima curva, tudo vai ser mais tranquilo. Que haverá um plano asfaltado e com vento a favor, onde o seu peso passará despercebido e poderemos desfilar o sucesso da nossa vida de perseverança. Porém, nos esquecemos de combinar isso com o mundo.
Este esforço constante que fazemos para carregar o estresse acumulado vai minando as nossas forças. E não há férias que forneçam a solução para um problema tão consistentemente semeado e alimentado. Não há belas paisagens e contato com a natureza que alivie as dores espalhadas por um corpo exaurido. É preciso reconhecer o limite. Parar, rever e mudar o que precisa ser mudado.
Minha viagem de 11 dias pela serra durou 2. Estou de volta em casa, com a missão de melhorar. Não na prática de atividade física ou nos equipamentos. Isso vai muito bem, obrigado. Mas é preciso lidar com os sentimentos, com o dia a dia de emoções que passam por esta mente e por este corpo há 46 anos. Tenho um longo e desafiante trabalho pela frente. Mas afinal, não é disso que a vida é feita?

Ainda com tudo isso na cabeça, combinei com o Felipe, grande parceiro meu de outras viagens (como a do Morro dos Conventos), de irmos à Serra da Garganta. Era preciso virar a página da viagem de férias frustrada e retomar a confiança. E a nova viagem foi perfeita. Toda a subida até o local de acampamento foi feita sem dificuldade alguma, a ponto de chegarmos lá no alto por volta das 13h, quando a previsão mais conservadora era entre 15h e 16h.

Toda a subida até o local de acampamento foi feita sem dificuldade alguma, a ponto de chegarmos lá no alto por volta das 13h, quando a previsão mais conservadora era entre 15h e 16h.

Com tempo de sobra, acabamos mudando o local de acampamento para o marco da batalha de 1930, que vitimou dezenas de soldados e tornou o local relativamente conhecido. Essa serra, aliás, será ainda tema de outros conteúdos que iremos publicar no futuro.

Ciclistas na Serra da Garganta

E após toda essa montanha russa, 2020 ainda reservaria uma quinta cicloviagem, e por um roteiro inédito! Na companhia do Edson (CicloTrekking) e do Mário (Trekking Brasil), coloquei minha velha Caloi 10 da década de 1970 na estrada para um roteiro inédito. Saindo de Garopaba, demos a volta na Lagoa do Imaruí e acampamos no alto de um morro com uma vista espetacular. Tudo com aquela camaradagem de uma turma que já passou dos 40 anos, mas não sossega.

Trocas de bicicleta

De certa forma, 2020 para mim começou em agosto de 2019, quando minha superequipada GT Karakoram foi roubada no bicicletário do meu trabalho. Com suspensão a ar, freios superdimensionados e guidão de titânio, e outras mudanças, eu tinha montado a bike dos meus sonhos. E com ela eu fazia 100% das minhas viagens. Sem exagero algum, estava pronta para dar uma volta ao mundo pelos caminhos mais difíceis. Por isso mesmo, não foi nada fácil aceitar essa perda.

Mas no momento o negócio foi seguir em frente com o que eu tinha em mãos, que no caso era uma Caloi 10 da década de 1970 remontada com inspiração gravel. Mas, apesar de ter escolhido cada componente dela, eu não tinha confiança no seu antigo sistema de direção standard. Por isso mesmo, acabei remontando a minha MTB Merida aro 26. Uma bike simples, mas que já tinha me levado por viagens como a pelo Vale Histórico e Serra da Bocaina e me acompanhado no Audax Floripa 200Km. No começo de 2020 ela estava desmontada, com suas peças “trabalhando” em outro quadro. Após uma ampla revisão, com troca de vários componentes, a Merida voltou à vida e foi minha principal parceira nas viagens de 2020.

Segue sendo uma bike confortável e confiável, mas não chega perto da rolagem que eu tinha com a minha GT. Por isso, resolvi dar uma nova chance à Caloi 10. Foi minha bike escolhida para a viagem pela Lagoa do Imaruí, mesmo com o longo trecho de estrada de terra. E ela passou muito bem pelo teste! A caixa de direção trabalhou direitinho e os pneus 700×38 amorteceram a buraqueira a um nível confortável. E no asfalto ela voou, ignorando os pesados alforges.

Empolgado com o desempenho da Caloi 10, tomei coragem e dei, no fim de 2020, um passo que vinha imaginando há tempos: a compra de uma bike de estrada, ou “speed”. Mesmo com toda a escassez causada pela pandemia, consegui encontrar uma bike que suporte pneus mais largos (até 700×40), tenha furação para fixação de bagagem e uma geometria mais voltada para longos pedais. Tudo isso ainda dentro de um preço pagável. Assim, a Triban RC500 é minha nova parceira de cicloviagens, devendo estrear em breve na função. A Merida e a Caloi 10 seguirão na ativa.

Mais de 4.600 Km pedalados, cinco cicloviagens com acampamento selvagem, ótimas parcerias e uma bike que abre um novo universo de diversão na estrada. Afinal, parece que 2020 não foi tão perdido assim. Na verdade, espero ter mais anos com iniciativa, persistência e conquista como tive em 2020.

*Observação: o objetivo deste post é fazer um resumo do ano de 2020 sob o foco único e exclusivo do cicloturismo, que aliás é o tema do blog como um todo. Assim, presto solidariedade aos muitos que tiveram um ano dificílimo por conta da pandemia, seja por problemas de saúde, seja por questões financeiras.

2 opiniões sobre “O ano de 2020 no cicloturismo

  • dezembro 30, 2020 em 07:08
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    Parabéns Fábio, pelo belo relato. Texto muito bem descrito e com todo o sentimento de quem efetivamente gosta do ciclismo e, principalmente cicloturismo.

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    • dezembro 30, 2020 em 07:30
      Permalink

      Grande Hail, comentários como o seu são um incentivo para continuar escrevendo por aqui.
      E falando em Antônio Hail, venho pedalando na sua rodovia quase todos os dias nessas miniférias.
      Abraço!

      Resposta

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