E se?

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“Se eu morresse hoje na Paulista, quando aquele motorista de ônibus me fechou intencionalmente, apenas para me dar uma lição, como logo depois ele confessou, seria só mais uma morte.

Mais uma moça que morreu na Paulista, indo para casa. A terceira provavelmente a ter uma ghost bike, mas certamente só mais uma de muitas que se perderam, entre pedestres, motoristas, ciclistas e motociclistas.

Mais uma, uns 300 metros depois de uma bicicleta branca, outros tantos de outra, igualmente branca desbotada. Vim minutos antes do incidente de um mar de vida, cheia do amor de amigos, cheia de planos, de projetos de trabalho. Por pouco, poderia ter sido morta por um capricho: “dar uma lição”. É isso que o motorista pretendia com a fechada. Bastava um toque leve no meu guidão para me atirar sob toneladas de aço, sem remédio dependendo de como o veículo passasse sobre meu corpo e sobre a frágil estrutura metálica da minha bicicleta.

Para a arrogância e prepotência de quem pretende dar uma lição, seria uma morte branca, limpa. Apenas um tranco, algo como passar por cima de um cachorro na estrada. Algo que te chateia e estraga o dia, mas é, afinal, superável. Porque cachorros não deveriam cruzar estradas, e ciclistas não deveriam andar na faixa “de ônibus”.

Ao menos eu não teria que pendurar mais uma ghost. Não teria que portar luto. Não teria que derramar mais lágrimas. Só passa por isso quem sobrevive, né?

Há mortes que são fatalidades. Essa morte eu não temo. Encaro com a face serena. Mas não posso aceitar sem crispar o rosto a banalidade do mal. O motorista que acha que precisa me ensinar ao custo da minha vida que não estou “na minha faixa”. Que uma regra que sequer está correta e amparada por lei justifica um comportamento doentio e inaceitável. Que tira tudo que temos como humanos.”

Vevê Mambrini

Minha primeira ideia para o post desta semana era falar sobre a bela caminhada que fiz no fim das minhas férias, passando pelo litoral nas Astúrias. Mas encontrei este texto repassado por um amigo no Facebook. Não conheço a Vevê, mas as palavras dela coincidem com minhas reflexões enquanto pedalo por São Paulo. Será que nunca sairemos desta selvageria cínica? Será que a maior cidade do Brasil não consegue ser nada além do que a maior cidade do Brasil?

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