RELATO: Bikepacking na Serra da Garganta

Salve, salve!

Há uma semana matei três vontades minhas: experimentar o bikepacking, conhecer a Serra da Garganta e fazer um acampamento selvagem. Junto com amigos e colegas fomos de carro até a cidade de Águas Mornas, a 40 quilômetros de Florianópolis. Assim, pudemos evitar todo o trânsito chato para atravessar São José e Palhoça. Já começamos a pedalar subindo forte, por um caminho de terra que corta um bom trecho da BR-282 e já nos deixa perto da entrada para a estrada de São Bonifácio.

Apesar de curta, esta subida foi uma boa amostra de que o dia não seria fácil. Já no meio dela estava bem ofegante, controlando o ritmo para chegar ao final. Logo em seguida seguimos por um trecho bom de asfalto com pouco movimento e uma suave subida. A medida certa para retomar o fôlego para a segunda subida do dia, a do Rio Miguel. Ali foram mais sete quilômetros variando entre a última e a penúltima marchas disponíveis. Ao menos é uma estrada bem construída, com inclinação constante, e com muita mata em volta.

De volta ao asfalto, pegamos a estrada para Anitápolis, onde mais uma subida nos aguardava. Apesar de mais curta, com apenas dois quilômetros, esta era bastante inclinada, chegando a atingir 18 graus em seu trecho final. Atingimos ali o ponto mais alto do dia, com 983 metros. Nesta região,  a mata atlântica já começa a se encontrar com alguns campos de altitude e as araucárias aparecem por todos os lados. E lá também começamos uma longa descida, entrando pelo vale do Rio Branco.

Foram nada menos que 16 quilômetros morro abaixo, com uma parada rápida para comer um lanche e esquentar o corpo após tanto tempo parado sobre a bike. De volta à cota dos 580 metros de altitude, iniciamos a subida da Serra da Garganta propriamente dita. A estrada começa boa, com alguma manutenção feita pelos proprietários de sítios e pequenas fazendas da região. O piso, na maior parte do tempo, é calçado por pedras de rio. Conforme fomos subindo, a estrada foi se tornando mais fechada, com o menor uso as pedras passaram a ter limo.

Ali começou o que para muitos seria uma roubada: pedalar uma bike pesada em longas subidas de piso escorregadio. Por outro lado, pude bater bons papos, curtir a natureza e meditar em momentos de silêncio. Nem vi passar a uma hora que levamos para chegar na clareira onde acampamos. Ajudou muito a preparação física que venho fazendo para a travessia dos Pirineus, que faremos em maio de 2018. Não senti absolutamente nenhuma dor ou câimbra nos músculos.

Uma vez encerrado o pedal, não havia tempo para a contemplação. Era a hora de montar as barracas, tomar banho de rio e preparar as coisas para a noite que já se aproximava. Como estava bastante frio, fizemos também uma fogueira com alguns galhos secos que encontramos na área. Tomamos o cuidado de criar uma cama de pedra para a fogueira. E ela nos permitiu cozinharmos nossa janta com tranquilidade, enquanto a temperatura se aproximava de zero. O Daniel ainda nos surpreendeu com bifes de contrafilé, linguiça, queijo coalho, batata e cebola. Como disse o Luciano, tivemos uma noite na churrascaria. Boas risadas e alguns vinhos depois, fomos dormir sob uma enorme lua cheia.

O domingo amanheceu preguiçoso, com o Luciano tocando em seu celular a música que se tornaria a trilha da viagem: No duermas más, da banda argentina Sumo. Aos poucos fomos tomando o café da manhã, desmontando as barracas e empacotando tudo de volta. Partimos sem pressa, tirando fotos e filmando a todo o momento. O roteiro do dia previa um trecho inicial bem acidentado, seguido de longas descidas e uma subida curta, mas forte, perto do fim.

Rapidamente chegamos ao marco da batalha da garganta, onde em 1930 soldados gaúchos e catarinenses se enfrentaram em um episódio sangrento. Segundo registros, oito combatentes perderam a vida ali. Hoje o que resta é uma cruz de madeira e duas placas. Curioso notar que em uma delas a frase “Tropas do RS vencem legalistas catarinenses” teve parte apagada, ficando “Tropas legalistas catarinenses”.

 

A partir de lá, começamos a descer a serra pelo outro lado, com vários rios atravessando a estrada de terra. Com valas, limo e pedras, a descida foi um bom teste para as técnicas de controle da bicicleta. Também ali, pude perceber que este tipo de descida, que se faz “de pé” na bicicleta, exige um treinamento físico específico, com exercícios isométricos. Já comecei, inclusive, a trabalhar nisso com a Suzana, minha educadora física para o projeto dos Pirineus.

De volta à descida, em pouco tempo começamos a ver sítios e rapidamente chegamos ao asfalto da estrada que liga São Bonifácio à BR-282. Paramos na comunidade de Teresópolis para um lanche mais reforçado, quase um almoço. Com um pouco de preguiça, partimos para encarar a subida final, que tem cerca de um quilômetro e trechos com inclinação de até 21%. Mas, depois de tanta subida, esta acabou sendo superada sem maiores traumas. Bastou então descermos de volta até a casa do Vinícius e da Naiara, onde havíamos deixado os carros.

Na volta para Floripa, me lembrava das minhas primeiras viagens de bicicleta, ainda na década de 1980. Do alto de nossos 14 anos, eu, o meu irmão Eduardo e colegas da rua pedalávamos de São José dos Campos para o distrito de São Francisco Xavier, onde subíamos a Serra da Mantiqueira para acampar no meio do mato. Resguardadas as diferenças de idade e equipamentos utilizados, esta viagem foi uma agradável volta ao tempo em que os termos cicloturismo e bikepacking ainda não haviam sido forjados. Mas já se viajava para curtir os amigos e a natureza. E, independentemente do nome, é bom poder refazer estes programas hoje. Que venham os próximos!

RELATO: De Floripa ao Farol de Santa Marta

Salve, salve!

Qual é a receita para um bom feriado prolongado? Estar em boa companhia? Fazer um belo passeio? Praticar atividade física? Nesta nossa viagem de Páscoa tivemos estes três elementos em abundância. A companhia foi dos já conhecidos e agora ainda mais amigos Camile Mansur, Henrique Bente e Marcelo Castro. Três pessoas que souberam curtir o caminho, pedalar em parceira e rir dos imprevistos.

(Foto: Henrique Bente)

A beleza do roteiro confirmou toda a expectativa. O litoral Sul de Santa Catarina segue como uma região de amplas e preservadas paisagens. Mesmo a variação climática, com sol, chuva, calor e frio, não estragou o visual.

(Foto: Marcelo Castro)

A atividade física também foi intensa. No primeiro dia, o morro do Siriú, todo em estrada de terra, foi o maior desafio para o grupo, que já se aproximava dos 70 km rodados. Já os mais de 90 quilômetros do segundo dia foram vencidos com muita bravura. Teve perna travando de câimbra e teve exaustão, mas todos soubemos valorizar a parceria, concluindo o trajeto juntos e em segurança.

Em resumo, mais do que atender clientes, esta foi uma viagem das mais prazeirosas das que já fiz pelo Pedal Nativo.

Seguem dados desta viagem:

Floripa – Farol de Santa Marta

Quatro ciclistas;
Sem carro de apoio;
Dois pernoites em campings: Siriú, em Garopaba, e Cardoso, em Laguna;
Dois dias de pedal;
Travessia de barco para a praia do Sonho;
Travessia de balsa do Canal da Lagoa do Imaruí;
Trajeto com 162 km;
715 metros de subida acumulada;
Nenhum pneu furado ou problema mecânico

(Foto: Henrique Bente)

Esta foi a terceira viagem de nossa programação anual de feriados. A próxima de vários dias será em setembro, com o Vale Europeu. Mas antes disso vamos seguir com passeios de um e até dois dias. Quer ficar por dentro de todas as nossas postagens?  Inscreva-se para receber nossos boletins mensais.

RELATO: Pedalando de Urubici a Floripa

Salve, salve!

O que era uma antiga vontade minha virou realidade no carnaval deste ano. E o melhor: juntei parceiros para pedalarmos de Urubici, na serra, para Floripa. No total, fizemos 215 quilômetros em cinco dias de muitas subidas e descidas. Ao contrário do que pode parecer à princípio, é um caminho com muitas subidas duras, com quase quatro mil metros de subida acumulada. Em conjunto com o sol forte de verão, os morros se tornaram um grande desafio para mim e para o Artur, o Artur Filho, o Carlos, a Mary, a Nataly, o Roberto e a Salete.

O roteiro foi dividido em cinco dias. No domingo, dia 26 de fevereiro, fomos de van para Urubici. Acampamos por lá e saímos logo após o café da manhã. No caminho deste primeiro dia, o principal destaque foi a Serra do Corvo Branco. Bem menos conhecida que a Serra do Rio do Rastro, a do Corvo Branco chama a atenção pelo enorme corte feito para atravessar as rochas mais altas.

Terminamos o dia em Grão Pará, acampando na propriedade da Dona Nida. Lá funcionava uma pousada, uma das únicas da região, mas o fechamento formal da Serra do Corvo Branco (para seu asfaltamento, em 2014) fez o movimento diminuir muito na região. Mesmo com a pousada desativada, ela concordou em nos receber e preparou uma deliciosa janta para os viajantes.

No segundo dia partimos já com uma grande subida em mente: a Boa Vista, que nos levaria de volta a casa dos 700 metros de altura. Esta subida, no entanto, não foi a maior dificuldade do dia. Ela foi vencida por volta das 10:30h, após alguns trechos empurrando as bikes. O problema foi o calor que veio com a nova descida. E como tínhamos várias outras pequenas subidas no trecho, o pedal se transformou numa experiência não muito agradável. O termômetro do GPS chegou a registrar 47 graus no começo da tarde.

Minutos antes de uma baita chuva chegamos à Pousada Doce Encanto, em Santa Rosa de Lima, nosso destino do dia. Ali fomos recebidos com mais fartura alimentar. Almoço às 14:30h, lanche às 17h e janta às 20h.

Por uma felicidade do destino, o dia seguinte amanheceu nublado, com uma chuva fraca que ia e vinha. Perfeito para pedalarmos sem grandes sofrimentos pelo trecho que inclui uma subida de 8 quilômetros (e uma descida de 6 quilômetros) e termina em Anitápolis. Chegamos cedo e bem dispostos, o que nos ajudou a enfrentar a busca por um lugar para almoçar. O único restaurante aberto na cidade naquele dia fechou às 13h e ficamos sem nem uma lanchonete para nos atender. Porém, a dona do Hotel Weiss, onde nos hospedamos, conversou com o restaurante vizinho, que só abre a noite, e conseguiu que ele nos atendesse fora do horário.

O quarto dia de pedal tinha a grande subida até Rancho Queimado como destaque. Porém, o tempo ainda fresco, apesar de ensolarado, e o asfalto em ótimas condições transformaram este desafio em um ótimo passeio. Para completar, ainda paramos na cachoeira que fica à beira da estrada, já na descida de Rancho Queimado para Angelina. Nada mal. Nada mal, mesmo!

Partimos para o quinto e último dia com uma forte neblina na religiosa Angelina. Já sabíamos que isso significava um forte sol logo na sequencia e tratamos de subir os morros iniciais sem perder muito tempo, já que o restante do trajeto tinha muito mais descidas que subidas. Mesmo assim o calor pegou forte. Ao chegar em São Pedro de Alcântara, com 35 graus nos termômetros, decidimos antecipar o almoço e pararmos por um tempo até o calor aliviar. Lá pelas 14h o tempo fechou e nós partimos de uma vez. Meia hora depois, nova parada. Esta, para fugirmos do temporal com raios que nos pegou de cheio. Mas tudo bem, concluímos na sequencia, chegando ao mar por volta das 16h,

E assim encerramos o viagem de Urubici a Floripa. Foram 215 quilômetros com quase 4.000 metros de subida acumulada. Passamos por estradas de terra e asfalto, tomamos chuva e sentimos muito calor, mas todos aguentaram bem. Parabéns ao Artur, ao Artur Filho, ao Carlos, à Mary, à Nataly, ao Roberto e à Salete!

Gostou? Vem com a gente para a próxima, que será no feriado de aniversário de Floripa. Ou conheça o nosso calendário para 2107.

Valeu!

 

Pedal, remo e caminhada por Bariloche

Salve, salve!

Neste fim de ano realizei um sonho há muito sonhado: pedalar na região de Bariloche, na Argentina. Se ainda não foi a cicloviagem pelos lagos andinos, conseguimos, eu e a Letícia, fazer vários passeios pela cidade. Seja de bike, de caiaque ou por trilha. Nos dias que passamos por lá pudemos confirmar a beleza da região, que está na ponta norte da Patagônia e é marcada pelos Andes a leste e por uma região árida a oeste. Abaixo, um pequeno relato de nossas aventuras por lá.

Dia 1

Muito cansados da viagem, acordamos bem tarde no primeiro dia. Montei as bikes e fomos da Estancia del Carmen ao supermercado, no Centro da cidade. Não é um trajeto curto: foram 20 quilômetros só de ida. Passamos pela Secretaria de Turismo e pegamos vários panfletos, incluindo sobre a “Semana de Turismo de la Aventura”. Compras feitas (incluindo cuia e erva de chimarrão), matamos um litro de suco de laranja e saímos daquele centro agitado.

Dia 2

Acordamos decididos a tomar sol e, talvez, entrar na água do Lago Gutierrez, que ficava próximo ao nosso hotel. Com o clima muito seco, a região tem grande variação térmica. O dia começa com 6 graus e atinge sua maior temperatura, perto dos 30 graus, por volta das 17h. Como saímos do hotel às 11h, ainda estava frio. Pra passar o tempo, fomos dar uma volta pelo lago.

Sem querer, descobrimos uma das sedes do parque nacional Nahuel Huapi. Na casa do guardaparque conseguimos informações e mapas sobre passeios. Nos apresentaram três trilhas para caminhada, com duração de 15 minutos , 2h ou 5 horas. Também nos apresentaram uma trilha de bike, que começava na parte alta e tinha sete quilômetros de extensão.

Naquele primeiro dia fizemos a pequena caminhada de 15 min, até a Cachoeira dos Duendes. Bacana, mas é uma pena que os fumantes não respeitam a proibição exposta nas placas. Na volta, o calor ainda não tinha chegado e decidimos deixar o banho para outro dia.

De volta ao hotel, acertei um passeio de caiaque para o dia seguinte. O roteiro, com pouco mais de duas horas, percorreria uma distância de seis quilômetros. Como a operadora Cuadrante Sur integrava a semana de turismo de aventura, iríamos os dois pelo preço de um.

Dia 3

Após uma rápida instrução, embarcamos em um caiaque duplo nas tranquilas águas do lago. Muito atencioso, o guia Pablo nos deu várias informações ao longo da remada. Nos contou a história do Francisco “Perito” Moreno, que no final do século XIX foi contratado pela Argentina para fazer levantamentos que ajudassem a resolver um impasse territorial com o Chile. Resolvida a questão, ele recebeu, como pagamento, 580 quilômetros quadrados de terras na região. No mesmo momento, doou grande parte de volta ao governo, com as condições de que fosse transformada em parque e que este fosse aberto ao público. Nascia em 1905 o parque Nahuel Huapi, o primeiro da Argentina. O nome de Moreno também é recordado de várias formas na Argentina: Glaciar Perito Moreno, a localidade Perito Moreno e o Parque Nacional Perito Moreno; dentro da região da Patagônia na maioria das localidades existe uma rua que leva seu nome, inclusive em Bariloche.

Remamos 3km por belíssimas águas azuis e paramos em uma praia de nudismo. Bem vestidos, tomamos chás e batemos bons papos. Empolgado pelo chá preto, mergulhei nas águas de 12 graus. Gelado na medida para renovar as energias para a volta. Durante o retorno, Pablo nos deu dicas de tudo: de garrafas térmicas para matear nas aventuras a restaurantes para comer carne em Bariloche. Também recomendou bastante o camping do parque. Muito limpo e organizado, com respeito à lei do silêncio após as 22h.

Após a remada, fomos ao centro novamente, sacar pesos e passear. O transito já estava bem mais agitado, com várias “finas educativas”, principalmente por parte dos motoristas da Autobusses Bariloche. Deu pra xingar em vários idiomas. No centro, caminhamos bastante pela Calle Mitre, principal rua de comércio, que está em reforma para se transformar em uma rua compartilhada, com calçadas e via no mesmo nível. Por falta de luz, voltamos ao hotel sem conseguir sacar dinheiro. Chegamos às 21h, ainda com luz natural.

Dia 4

Fomos experimentar um dos restaurantes indicados pelo Pablo. Escolhemos o Ojo de Bife, um corte semelhante ao nosso Contrafilé, mas muito mais macio. Deliciosa mesmo! Como é comum na região, a carne vem sem nenhum acompanhamento. Pedimos batatas fritas e salada completa. Saiu meio caro (620 pesos / R$ 130), mas valeu a pena. Depois sentamos na grama da praça principal, para fazer alguma digestão.

 

Dia 5

Para variar, decidimos fazer a trilha de duas horas do parque. Saímos um tanto cedo, por volta das 10h, e fomos pedalando até a entrada. Deixamos as bikes trancadas em frente ao guardaparque e seguimos para o “sendero”. A trilha começa com muita subida e grandes moscas incomodando, mas depois fica bem bacana. Os cenários se abrem e a vegetação é parecida com a do nosso cerrado.

Avistamos um pica pau, que se entregou pelo barulho que fazia.

Descemos até a Playa Muñoz e fizemos o piquenique. Pouco tempo depois começaram a chegar os adolescentes e as crianças das diversas excursões que estão sempre no parque. O material de divulgação diz que são 10km de ida e volta, mas marcamos 12km no GPS.

[bdotcom_bm bannerid=”4276″]

Dia 6

De volta a ativa, fomos conhecer a trilha de mountain bike do parque. A subida é muito suave, apesar de longa. São sete quilômetros de estrada de terra com quase nehum movimento. A vista é bela e o clima estava agradável. No alto, a base da estação de esqui do Cerro Catedral. No fim de novembro não passava de uma cidade fantasma. Comércio, restaurantes, hotéis e residências: tudo fechado. Tiramos algumas fotos e partimos logo em direção à trilha.

Ela começa ao lado de um dos enormes estacionamentos, ainda fora da área do parque. E este é o seu pior trecho. Pedalamos por em rios geladíssimos e por lamaçais. Pensei seriamente em sugerir à Lê que voltasse pela estrada, mas ela, apesar insegura, continuava a enfrentar tudo aquilo.

Logo chegamos à placa que marcava o início do trecho do parque. Ela indicava que seriam sete quilômetros de diversão, com nível avançado. Mostrava também que deveríamos, obrigatoriamente, usar capacete. Mas eles tinham ficado no Brasil, então fomos sem mesmo, tomando cuidado adicional.

Ela já começa com descidas de terra em zig-zag. Curvas bem feitas, com laterais altas, botaram um sorriso no rosto. De longe, só ouvia a Lê se divertindo também: “Melhor que montanha russa”, disse ao me alcançar.

Um pequeno trecho com variações de subida e descida e chegamos ao alto de um morro de onde víamos o Lago Gutierrez, abaixo, e os picos nevados atrás. Aí veio a parte mais desafiadora, com alguns degraus de pedra e trechos bem travados. Com mais cuidado, mas sempre montado, segui me divertindo muito.

Com menos pedras, mas grande inclinação, veio a parte final da descida, onde deixei rolar de vez. Aguardei a Lê, feliz da vida, em uma pequena praia, que tinha uma árvore enorme tombada. Uma bela escultura da natureza. Após algumas fotos, seguimos para o fim da trilha, com um pequeno deslocamento até a sede do parque.

Chegamos ao hotel imundos de lama, mas realizados.

 

 

Dia 8

O dia era de realizar um desejo da Lê: conhecer o lado de lá. Explicando: pelo caminho que vai ao centro, sempre virávamos à direita ao chegar ao lago Nahuel Huapi. Desta vez, seguimos à esquerda. Sem objetivo definido, sabíamos apenas que lá havia um lugar chamado Llau Llau. Fomos pedalando pelo sobe e desce da costa do lago, curtindo o visual diferente e o transito mais tranquilo. Começamos também a usar o acostamento, de terra ou asfalto, para nos proteger dos Autobusses Bariloche nas subidas mais longas.

Lá pelas tantas, decidimos chegar a “algo” (uma praça ou comunidade) para comermos o lanche e voltarmos. Pouco depois, visualizamos o imponente hotel Llau Llau. Subimos até ele e descemos de volta, um pouco decepcionados por não poder chegar muito perto. Logo em frente há um porto de onde saem grandes barcos que fazem passeios pelo lago. Não são programas baratos, com o mais barato custando 780 pesos por pessoa. Fizemos ali nosso lanche, pensando se voltaríamos pelo mesmo caminho ou seguiríamos em frente, contornando a ponta e reencontrando o caminho original um pouco mais abaixo. Apesar desta volta acrescentar nove quilômetros, tivemos a feliz ideia de percorre-la.

Logo no começo, a estrada se estreita e o transito cai ainda mais. Entramos nos domínios de um parque municipal e a vegetação, que já era bela, se torna ainda mais intensa. Fomos curtindo a vista cada vez mais, com mirantes que nos davam belas vistas dos lagos e picos nevados. Subidas e descidas se alternavam, mas não dávamos bola, tudo estava muito bom.

Até que, ao concluir uma subida eu paro para esperar a Lê e percebo que estou em frente à cervejaria Patagonia. Com a chegada dela, bastou nos olharmos para decidirmos conhecer. Um papo com o porteiro e entramos pedalando, achando que era apenas uma unidade industrial aberta à visitação. No entanto, tratava-se do mais belo bar/restaurante que já estivemos.

Ótima música, decoração rústica, mas aconchegante, e a paisagem mais bela de todo o trajeto. Lagos, ilhas de floresta e picos nevados ao fundo. Após um bom tempo embasbacados decidimos que teríamos que beber uma, ao menos. Seria um pecado sair de lá sem isso, ainda que tivéssemos uma boa pedalada de volta. Tentei experimentar a Porter, que há tempos me desperta curiosidade por ilustrar a minha camisa preferida de pedal, mas estava em falta. Fui “obrigado” a seguir a Lê e pedir uma Wiess. Como já estava tarde, pedimos sanduíches de cordeiro, com ovo e bacon. Pra fechar, batatas rústicas. Se isso não é o paraíso, chegou bem perto.

Fomos voltando sem pressa, vivendo cada uma das subidas e descidas do retorno, que tinha mais de 30 km. O dia seguia belo, mas o cansaço foi batendo. Ao chegar ao mercado, a Lê tocou direto. Fiz as compras e me encontrei com ela no meio da subida. Fomos conversando e pouco depois chegamos à estância. Sem demora, fomos para a piscina. Exausto, dormi às 20h, com o dia ainda claro.

 [bdotcom_bm bannerid=”4276″]

Dia 10

Fomos em busca de um caminho não convencional, que tracei no GPSies. Uma rota de ripio pouco utilizada, que sai do acesso principal ao Cerro Catedral e leva até o Circuito Chico, contornando o lago Moreno Este. O caminho começa com um problema comum a cidades brasileiras: é utilizado para descarte de lixo. Muita coisa que poderia até ser reciclada, como plástico e papel, é jogada na beirada das estradas, juntamente com TVs de tubo e outros eletrodomésticos. Mas logo esta má impressão passa e conseguimos curtir uma estrada com pouquíssimos morros, quase nenhum movimento e belas paisagens.

Uma antiga ponte passa sobre rio que abastece o lago Moreno Este com água azul e gelada vinda da neve. Logo alcançamos as encostas do lago, parando para ver um pouco de suas belas paisagens.

Tocamos até o Circuito Chico, onde uma lanchonete instalada ao lado de um rio cheio de corredeiras oferece lanches e bebidas a preços justos. Na volta, paramos para conhecer a Colonia Suiza. Fundada em 1899, abrigou imigrantes europeus e hoje ainda é referência em comida típica da Suiça. Fomos “obrigados” a comer novamente: salsicha, chucrute, strüdel e chope Ipa.

Aproveitando o dia longo, subimos novamente o Cerro Catedral. Eu desci pela trilha do parque Nahuel Huapi e a Lê pela estrada de terra. Ainda um pouco bobo pelo chope, tomei um tombo besta em uma poça de lama e percebi que deveria maneirar na velocidade.

Encontrando a Lê, subimos de volta à estância e fechamos 60 km, com 1.300 metros de subida acumulada.

 

 

Com este passeio um tanto quanto puxado para quem, como a Lê, estava há mais de seis meses sem pedalar, encerramos as aventuras por Bariloche. A viagem foi além de nossas expectativas, com diversas opções de pedaladas e outros esportes. Vale muito a pena visitar a região, em especial fora da alta temporada de inverno, quando não há muito o que se aventurar além da neve e os fias ficam muito curtos. Tudo isso só reforçou a vontade de percorrer a região em uma viagem como a feita por um grupo de amigos em 2012, o Circuito dos Lagos Andinos.

Nesta viagem também passamos alguns dias em Buenos Aires, pedalando e conhecendo a terra dos portenhos. Mas isso é assunto para um próximo post…

 

Encerrando o assunto Araucárias

Salve, salve!

Foto: Antônio Heil
Foto: Antônio Heil

Os três posts não foram suficientes para encerrar o capítulo Araucárias aqui no Pedal Nativo. Algumas coisinhas ficaram de fora e resolvi reuni-las em um post.

Roteiro – Umas das pendências é o roteiro. As caminhos percorridos foram sendo revelados com o passar dos posts, mas isso não ficou claro para todos. Então, vamos lá.

Total, incluindo o trecho entre Florianópolis e Brusque:
Distância – 371,2 quilômetros
Subida Acumulada – 6.890 metros

Trajetos percorridos

Floripa – Brusque

São Bento do Sul – Corupá

Corupá – Recanto do Noti

Recanto do Noti – Campo Alegre

Campo Alegre – Ponte de Pedra

Ponte de Pedra – Fazenda Evaristo

Fazenda Evaristo – São Bento do Sul

 

Gratidão – Gostaria também de agradecer a todos que, de alguma forma, me ajudaram nesta viagem. Em especial à minha namorada, Letícia, que me apoiou desde o início, ao Felipe Munhoz, que me ajudou a planejar os trechos diários e deu dicas fundamentais sobre o circuito, ao Ivo Leo, que me recebeu como um parente em sua casa, em Brusque, e ainda me levou a Joinville para continuar a jornada e ao Antonio Heil, que me recebeu em sua casa, em Joinville, e me acompanhou nos primeiros dois dias do circuito. Muito obrigado mesmo!

Vídeo – Segue também um vídeo que gravei numa parada para lanche.

Dicas gerais – Pra finalizar, repito as dicas que posso dar sobre o circuito.

  • É possível sim fazer o circuito acampando. Anotei locais para montagem da barraca ao final de cada trecho e posso passar aos interessados. Agora, se eu recomendo? Acho que não. Pela natureza dura dos trechos, com infinitas subidas e estradas com buracos e pedras, quanto mais leve for a bicicleta, mais prazeiroso será o passeio.
  • Leve sempre comida para um dia todo de pedaladas. Os locais para lanche são escassos e podem estar fechados.
  • Sempre ligue antes para reservar locais de pouso e refeição.
  • Os trechos seis, sete e oito têm vários locais sem sinalização do trajeto a seguir. Não me perdi porque tinha o track de GPS me orientando o tempo todo. Recomendo a quem for fazer o roteiro o uso de um aparelho de GPS (não precisa ser um caríssimo, destes de atleta. Um Dakota 20, como o meu, já resolve). Sem GPS, a dica é aprender um pouco de navegação (não é complicado) e utilizar o guia oficial do circuito em conjunto com um ciclocomputador. O guia é entregue gratuitamente na saída e é capaz de levar o cicloturista com tranquilidade por todo o percurso.
  • Informei à atendente da Secretaria de Turismo de São Bento do Sul sobre a inviabilidade do trecho de lama da última parte do trajeto. Recomendo que o ciclista verifique se algo foi feito ou busque uma opção mais segura.
  • Não foi tranquilo para levar a bicicleta no ônibus da Reunidas de São Bento do Sul para Florianópolis. A primeira exigência era de que estivesse encaixotada. Após bastante insistência minha, consegui que aceitassem ela semi-desmontada (pedais sacados e quidão paralelo à roda) e com a relação coberta com pano para não sujar outras bagagens.

 

Acho que era isso sobre as Araucárias. Que venha a próxima!

RELATO: dez dias no Jalapão

10891889_792374944166901_6802254287462235889_n

Antes de ter percorrido boa parte da Chapada Diamantina, a Vivi Mar já havia pedalado em outro santuário brasileiro: o Jalapão. Com o sucesso do seu relato pelo interior da Bahia, resolvi puxar pro Pedal Nativo as fotos e o diário de bordo da expedição por Tocantins. Mais uma vez, obrigado por autorizar a reprodução, Vivi. Você já é de casa.

Banho de rio, sol, chuva, vento, vilarejos, comunidades, cachoeiras, acampamentos, amigos, bicicleta, espírito de equipe, gratidão, receptividade dos moradores, esforço físico extremo com o calor de 45º e paisagens de tirar o fôlego. E foi assim que passamos este final de ano… pedalando 535km pelo deserto do Jalapão no Tocantins em busca do Perrengue Supremo, rsrs.
Local considerado deserto não só pela paisagem, mas também pela ausência de pessoas durante longas distâncias.

10917817_792375830833479_5234666040016246184_n
E foi só lançar a idéia de pedalar pelo Jalapão que alguns amigos se interessaram. Tivemos algumas semanas para programar um roteiro, treinar um pouco (bem pouco, rs) e pensar em cardápios nutritivos, afinal, a idéia era uma cicloviagem auto-suficiente, sem carro de apoio. Iríamos carregar todo o equipamento, fogareiro, barraca, gás, isolante térmico, roupas, agua, e mantimentos para café da manhã, almoço e jantar para todos os dias.

10888413_792374080833654_6647680124229547317_n
Saímos de SP dia 20/12 Vivi, Fábio, Monica e Andre. E em Americana encontramos com os demais integrantes Meire, Bruno e Getulio que veio do Paraná para seguir com a gente.
Fizemos uma parada para pernoite em Padre Bernardo, revezamos os motoristas, e seguimos em frente.

10888825_792375097500219_4358923993046099494_n
No dia seguinte chegamos em Ponte Alta, uma das portas de entrada para o Jalapão. A cidade não correspondeu com nossas expectativas. Apesar de pequena e simpática com moradores amáveis, vários carros disputavam o som do Arrocha mais alto, a cidade não estava muito agradável aos ouvidos. Assim como na estreita ponte os motoqueiros disputavam agilidade. Tratamos de aprontar as bikes, deixamos os carros no estacionamento de uma pousada (gratuitamente) e caímos na estrada iniciando a pedalada no dia seguinte no horário mais indicado, rs, quase meio dia, rs.

Dia 1 – 22/12
Ponte Alta x Lagoa Azul

10429253_792374557500273_1201753157211205664_n
O dia amanheceu nublado para nossa sorte, mas o mormaço permanecia. Iniciamos a pedalada quase ao meio dia.
15km pedalamos sem nenhum esforço chegamos na gruta, o 1º ponto d´agua. Fizemos uma longa parada.
Logo neste início o alforge do André quebrou. Arrebentou a alça (marca Curtlo). Improvisamos com enforca gato.
Choveu e a terra daquele ultimo trecho ficou pegajosa, fizemos esforço de subida em estrada plana, não rendeu a pedalada da tarde.
Nosso ponto de acampamento para hoje era o rio vermelho mas passamos por uma bifurcação a esquerda com a placa “Lagoa Azul a 6,5km” e optamos por não perder os atrativos locais. Conhecemos um morador da Lagoa que disse que sua família não se incomoda de receber visitantes e tocamos pra lá. A lagoa é pequena, não é azul, rs, e não é um bom ponto para se banhar pois é região de brejo. Mas foi um ótimo repouso com céu estrelado. A família nos recebeu muito bem, a estrada de desvio era boa, estava melhor do que a principal e quase toda plana. Acampamos numa antiga escola, tinha banheiro com chuveiro. Não cobraram nada para acampar, mas é bom deixar algum alimento, ou algo para ajudá-los. Fazem óleo e doces de buriti. Pedalamos aproximadamente 47km hoje. Mas a melhor opção é seguir direto até o Rio Vermelho mesmo.

Dia 2 – 23/12
Lagoa Azul x Rio Vermelho x Abrigo Pablo Escobar

10429253_792373960833666_3183884154671813479_n
A pedalada começou com muito mormaço e sol entre as nuvens. Torcemos para chover e tirar aquele abafado. Choveu, mas não o suficiente. A chuva mais forte estava mais adiante.
Passamos pelo Rio Vermelho, e quilômetros depois com algumas subidas pegamos a bifurcação à esquerda, rumo a Cachoeira da Velha.
São 20km de desvio até lá, em uma estradinha reta sem visual, com alguns trechos de areia batida, outros trechos de cascalho solto, e alguns trechos de areia mais úmida que exigia mais força no pedal. Acho que tudo depende da chuva/sol do dia. Nos últimos 10km resolvi apressar a pedalada até o ponto de chegada, e devido as “costelinhas” do caminho, a bike ‘quicou’ demais e quebrou o meu bagageiro.
Chegamos numa fazenda e o morador Guilherme nos atendeu muito bem, e nos recebeu com agua gelada. Aliás, a Monica entregou uma foto ao Guilherme que levou a pedido da Michele e do Artur, casal que fez este roteiro de cicloviagem tempos atras, e numa atitude de gratidão enviaram fotos das pessoas mais que especiais daquela região. No decorrer da viagem foram entregues todas as fotos.
Acampamos gratuitamente na antiga pousada jalapão, que é um abrigo de viajantes desde que proibiram acampamento na cachoeira da Velha. Preparamos nosso jantar especial com carne, costelinha, arroz, feijão e farofa.

Dia 3 – Noite de Natal.
Abrigo x Cachoeira da Velha x Prainha x Prainha Cariocas Seu Antonio

983846_792374264166969_7466105496799615950_n
Acordei e fiz uma gambiarra no meu bagageiro com uma tala com esparadrapo, e enforca gato para dar sustentação.
Pedalamos 9km até a Cachoeira da Velha que é gigante + 1 km até a Prainha. Vale a pena. Ida e volta para a cachoeira 20km+ 20 km para voltar até a bifurcação.
Muito sol, muito muito muito sol. Esse dia conhecemos os 45 graus do jalapão, e como passamos a manhã na cachoeira/prainha saímos oficialmente para pedalar ao meio dia, com o sol fritando os miolos.
Pedalamos o dia todo nos arrastando por trechos de areia fofa, empurrando bicicleta pesada, e outros trechos pedaláveis, com o sol esgotando nossas energias. Já no final da tarde o Guilherme cruzou com a gente no caminho e disse que tinha 2 noticias. Uma ruim e outra boa. A ruim é que depois de terminado este trecho, chegaríamos no rio, e ainda teríamos 9km empurrando a bike até a Prainha, já que a areia estava fofa. Aff. A boa é que ele tinha cervejas geladas no carro e trouxe para nós a pedido da Meire/Bruno. Ufa.
Relaxamos para nos refrescar, e depois aceleramos a pedalada até a bifurcação que desce para a Prainha Cariocas. Foram 9km até lá, alguns trechos pedaláveis no começo, e depois empurrando a bike no escuro. Chegamos por volta de 20hs no local. O Seu Antonio é muito gente boa, bom de papo, uma simpatia de pessoa. O seu camping é super limpo, muito bem estruturado, acampamos na beira do rio. Mas diferentemente dos demais pontos de acampamento, este acampamento foi pago, e bem caro. R$20,00 o camping + 5,00 para visitação da prainha + 5,00 para utilização do espaço quiosque, e 5 reais cada cerveja skolzinha. Um assalto. Como era noite de natal, e não tínhamos como retornar tudo, rs, ficamos por ali mesmo. Banho de rio, e todos prontos para o natal.
Pedalamos hoje 80km.
Para quem está de bike carregada, com peso nos alforges, não indico. Muitos trechos de areia fofa, e não sei se é pior tentar pedalar na marcha levinha e girar girar girar até derrapar… ou empurrar a bike pesada.

Dia 4 – 25/12
Seu Antonio x Rio Novo x Dunas Dona Benita

10628530_792372844167111_4922423461093646385_n
Pedalamos e empurramos os 9km de areia para sair do Seu Antonio até chegar na bifurcação e tocar para o caminho oficial. Mas antes disso… durante este percurso… o bagageiro do Fábio também quebrou. Pedalei rápido alguns km para buscar as chaves com outro integrante do grupo, mas quando voltei, nem tinha parafuso para ser apertado, rs, quebrou/partiu mesmo. Fiz uma outra gambiarra no bageiro dele com enforca gato, mas perdemos muito tempo nisso, até o sol pegar forte.
Pedalamos 22km até Rio Novo quando o sol fritou os miolos. Fizemos uma longa parada ali na comunidade para esperar o sol abaixar um pouco, tomamos banho de rio, agua gelada e uma cervejinha para refrescar. Ali moram algumas famílias, e viajantes são bem vindos. Numa emergencia pode acampar gratuitamente no quintal do bar ou nas casas do vilarejo caso seja preciso.
Assim que o sol baixou pedalamos 13 km até a Dona Benita, uma figura alegre, festeira, de sorriso largo, e muitos causos de onça pra contar. A pedalada a tarde foi agradável, com muito visual da Serra Espirito Santo. Chegamos na Benita as 16:30, em tempo para curtir o por do sol nas dunas, são 10 km de ida e volta para as dunas.
Camping na Benita 15.

Dia 5 – 26/12
Benita x Mateiros

10897928_792373270833735_667262233264641881_n
Saímos da Benita com um superrrrrrrr vento contra, pedalando na reta com esforço de subida. Mas foi super agradável, pois o vento cortou a sensação de calor, que conforme um turista que passou estava na marca dos 40 graus. Visual fantástico da Serra Espirito Santo. Se tivéssemos tempo teríamos feito a trilha para o topo da serra, mirante. As 11:30 chegamos em Mateiros, foram somente 35km aproximadamente. Precisávamos de uma bicicletaria, pois estávamos com 1 bicicleta sem freio, 2 bagageiros quebrados e 1 alforge também. Uma longa parada para fazer estes reparos.
O pastor é o responsável pela bicicletaria, mas não estava. Voltamos mais tarde e nada. Mais tarde e nada. Ele chegou no finalzinho da tarde, e os bagageiros não tinham jeito mesmo. Deu uma ajeitada na bike sem freio, compraram outro VBrake, e reforçamos as gambiarras nos bagageiros.
Iríamos acampar no gramado do posto de gasolina gratuitamente, mas como fizemos hora na cidade para esperar a bicicletaria abrir, almoçamos na dona Rosa que nos ofereceu pouso. Pode montar a barraca de vocês ai em qualquer lugar, são muito bem vindos guerreiros, disse ela. Convite aceito. R$15 Almoço coma a vontade, Cerveja 2,50, Camping Grátis.

Dia 6 – 27/12
Mateiros x Cachoeira Formiga

10891699_792375397500189_1666654681684960393_n
Um amigo disse: Não deixem de conhecer a Cachoeira do Formiga. Levamos a sério e resolvemos acampar lá.
Dia de pedalzinho bem curto. 26km. Daria para esticar de mateiros até lá tranquilamente. Numa comunidade próxima viramos atração, era festa de formatura de 3 moradores, com churrasco e 11 famílias reunidas. Nos receberam com prato de comida, e uma boa prosa, alem de nos apresentar toda a família, e os responsáveis pela festa. Nos despedimos com ar de quero ficar.
Fizemos uma parada no Fervedouro do Ceiça, o ultimo fervedouro, são 10 para entrar. Se tiver fila o tempo de permanência é de 20 minutos. Nunca tinha ido num Fervedouro antes. Gostei, rs.
Não fomos no Fervedouro Buritis devido a dica de um morador que era longe da pista e o caminho de areia muito fofa. 2 km a frente pegamos a direita, e entramos para a direita rumo à cachoeira, e foram 6km de areia, empurrando e pedalando em alguns trechos. Logo chegamos na cachoeira, e acampamos por lá, na Cachoeira do Formiga
25,00 para acampar. Somente a visita 20,00.
Ali eles tem bastante problema com o lixo local, vimos muito lixo jogado na propriedade toda, e muitos visitantes usando detergente na agua do rio, e os próprios moradores lavando louca ou usando sabonete no rio. Mas a cachoeira é fantástica, cor de agua esmeralda, nunca vi nada igual. Vale a pena conhecer.

Dia 7
Formiga x São Felix

10915295_792375954166800_8197804349268889052_n
Voltamos 6km até a pista (por uma outra variante sem areia, rsrsrs, sendo possível voltar pedalando)
Fizemos uma paradinha para almoço no riozinho para esperar o calorão baixar.
Passamos no povoado de prado, mas não desviamos para ir na cachoeira. 20 km após o povoado, chegamos a São Felix, a tempo e curtir o pôr do sol na prainha. A idéia era acampar na prainha, mas o pessoal optou por pernoitar no quintal de um morador, Paulinho, na no centrinho mesmo. Acampamos gratuitamente.
Tem um camping na cidade mas a Irá não estava neste dia. O Paulinho também tem quartos/pousadinha que aluga para viajantes. Neste dia pedalamos 60km.

Dia 8
São Felix x Posto de Fiscalização
Tomamos café da manhã na Tia Rô pães caseiros e descemos 2 km até o Fervedouro do Alecrim 5,00 reais para entrada. Fervedouro maior, sem ninguém, vazio, com maior volume de agua mas com menor pressão de areia. Vale a pena conhecer. Banho de rio depois de 10km de pedalada.
Passamos em 2 riozinhos, e fizemos parada de almoço no ultimo, rio das abelhas, com muitas abelhas que enrroscam no cabelo, não tem prainha e nem sombra. Pedalamos em media 52km hoje.

Chegamos numa prainha deliciosa onde fica o posto de fiscalização. O responsável era o Williams ,que foi super gente boa. Acampamos por lá gratuitamente, e ele ainda preparou um peixe que tinha acabado de pescar. Preparamos nosso arroz, feijão, farofa, e degustamos do peixe fresco preparado e pescado pelo Williams.
A cicloviagem foi dividida em AM e PM, Antes de Mateiros e Pós Mateiros, rs. Depois de mateiros as estradas tem o chão mais firme, de terra batida, e a pedalada começou a render muito mais. Em grupo grande o avanço é mais lento, são mais problemas mecânicos, mais tempo para todos se arrumarem, mas mesmo assim conseguimos pedalar em bons horários nestes últimos dias. Antes de Mateiros tinham mais trechos de areia fofa, lama, e terra não firme que afundava o pneu.

Dia 9
Posto Fiscal x Camping do Camilo x Rio Prainha x Casa Abandonada x Fazenda

10898274_792375564166839_8653638111703268917_n
Saímos no horário de sempre e chegamos as 9 da manhã no Camping do Camilo. O Camilo é camping, restaurante e bar, e tem algumas trilhazinha/riozinhos pela região. São exatos 27km do posto de fiscalização até o bar do Camilo. 23km depois do Camilo, tem um riozão com uma praia deliciosa, tem uma casa antes e uma casa depois da ponte, é um ótimo ponto para parada, mas como ainda era cedo, resolvemos tocar mais a frente. Mais um bagageiro quebrado, dessa vez do Brunão. Mais 15km chegamos no próximo rio e uma casa abandonada, que seria nosso ponto de pernoite mas depois de uma votação resolvemos tocar mais um pouco. Depois desta casa que tem um pé de manga na porta, a próxima rua a esquerda leva até o povoado de Lago do Tocantins, e é um atalho que economiza 20km.

Iríamos arriscar, mas logo no começo já notamos a areia fofa, então preferimos seguir pela estrada principal de cascalho. Meu bagageiro quebrou o outro lado, grrr, desta vez o Fábio e Andre fizeram uma gambiarra com um pedaço de mangueira. E deu super certo. Mais 10km e chegamos numa fazenda em frente a bifurcação Novo Acordo x Lagoa do Tocantins. Acampamos ali, grátis e tomamos banho de canequinha na torneira.

74,3 km pedalamos hoje. O Camilo indicou para ficarmos no Bar do toto em Novo Acordo no inicio do asfalto na beira do rio

Dia 10 – Ano Novo.
Fazenda x Lagoa do Tocantins

10906060_792375010833561_8861374382867997267_n
Nosso Plano inicial era fazer a cicloviagem em roteiro formato ferradura. Começar em ponte alta e terminar em novo acordo. Em Novo Acordo pedalar 120km de volta à Ponte Alta, ou pegar um transporte. Mas soubemos que Novo Acordo é uma cidade maior, que teriam muitos shows, carros de som…rs… então passar o reveillon por lá não nos agradou.
Soubemos que a estrada à esquerda da fazenda chegava no vilarejo de Lagoa do Tocantins, que lá tem o Balneário que podemos acampar, e a cidade era pequena, com fácil acesso para Ponte Alta, onde deixamos nosso nosso veiculo. 28km de pedalada e já chegamos. 2 km dali fica o Balneário, uma espécie de piscinão, com um bar.
Final de tarde do dia 31 o local ficou vazio e silencioso, ufa. Fizemos ali a nossa comemoração de reveillon e final de cicloviagem.
A noite fomos para o Centro e encontramos todas as figuras que nos ajudaram no dia de hoje. O moço do bar, os motoqueiros que fizeram o resgate do veiculo, etc.

Problemas mecânicos:
Bagageiro da Vivi quebrou os 2 lados.
Bagageiro Fábio quebrou todos os parafusos.
Bagageiro Bruno quebrou 2 lados
Alforge Andre
Roda do Andre
Nenhum pneu furado

De volta ao carro, paramos na Chapada dos Veadeiros em Goiás para conhecer.
Vale da Lua 15,00 a entrada
Cachoeiras da fazenda São Bento, Almecegas I e II (8 km de Alto Paraiso) 20,00
Camping de 20 a 30 reais em media.
Ficamos no Catavento mais afastado da cidade.
Na ida para o Tocantins rodamos até Padre Bernardo.
Na volta em Natividade cidade histórica (35,00 pousada July com café), e em Catalão tambem.
Em ponte alta 40/pessoa e deixamos o carro no estacionamento por 10 dias gratuitamente.

Fotos de Vivi, Fábio e Andre. (obs: as fotos não estão em sequência)

RELATO: Circuito das Araucárias – final

Esta é a terceira e última parte do relato de minha viagem pelo Circuito das Araucárias. Chegou agora? Leia a primeira e a segunda partes e também o post complementar.

Ao contrário da receptividade da família da Hariet, a noite da pousada Ponte de Pedra não foi das melhores. Não me adaptei bem ao colchão e tive um bom período de insônia no meio da madrugada. Sorte que o dia seria de apenas 40 quilômetros e pude dormir até um pouco mais tarde para compensar. Após o café, e ainda antes de partir, dei uma nova ajustada na fixação dos alforges. Recuei o da esquerda em uns dois centímetros e mudei a posição do gancho inferior dos dois. Era o ajuste que faltava. Ficaram firmes e meu calcanhar não encostava mais durante o pedal.

SAM_0818

Partir por volta das 10:30h, com um clima mais agradável. A chuva que caiu durante a noite serviu para assentar a poeira da estrada e aumentar a umidade do ar. Até o sol apareceu mais vezes para iluminar um trecho que já apresenta paisagens um pouco diferentes. Neste dia pedalei mais por cristas de morros e ao longo de plantações diversas. Os cenários eram mais amplos. Mas as subidas continuaram. De tempos em tempos a estrada começava a descer até passar por um rio, depois subia tudo de novo.

SAM_0821

Neste dia também eu peguei o primeiro trecho mais fechado do roteiro. Pouco depois de cruzar a BR-280, aparece uma subida de 2 Km em linha reta, onde a estrada vai se tornando uma trilha cercada de eucaliptos. Apesar da lama escorregadia, foi um trecho muito bacana de passar. Logo depois, comecei a descer por outra estradinha abandonada, esta pavimentada com pequenas pedras já arredondadas pelo desgaste. Muito bacana também.

Você está lendo a parte três, confira as partes um e dois, além do post complementar.

SAM_0827

Pouco depois cheguei ao centro relativamente agitado de Rio Negrinho. Era a tarde uma segunda-feira e, pra quem saiu do mato, as coisas estavam meio estressantes por lá. Carimbei o sétimo trecho na loja de conveniência de um posto de gasolina e tratei de ligar logo para a Fazenda Evaristo, onde pretendia acampar neste dia.

SAM_0834

Segui para lá, de acordo com o roteiro traçado ainda em Florianópolis. Porém, quando foi conversar com o proprietário, ele me ofereceu um chalé por um preço muito convidativo e acabei deixando a barraca guardada. Ainda bem, por que choveu forte durante a noite o dia seguinte foi o mais duro de toda a viagem. No chalé, tive tranquilidade para fazer uma janta reforçada, com arroz, feijão e frango, e relaxar assistindo qualquer coisa na TV. Fui dormir cedo.

SAM_0835

Acordei também cedo e o meu café da manhã foi a continuação da janta, junto com um indispensável café. Comecei a pedalar e reparei que a estrada estava bem mais úmida, chegando a acumular lama em algumas partes planas. O primeiro trecho, de 7 Km, foi apenas uma conexão, para encontrar a rota oficial e seguir rumo a São Bento do Sul. Estradinha bonita e tranquila, que poderia tranquilamente pertencer ao circuito.

SAM_0847

SAM_0848

A tranquilidade de encontrar o trajeto oficial durou pouco. Após virar a esquerda em um cruzamento, uma subida forte me fez descer e começar a empurrar a bicicleta. A estrada, no entanto, tinha uma lama grudenta que cobria toda a sua extensão. Ela se acumulou instantaneamente na suspensão e no quadro, impedindo as rodas de girarem. Peguei um graveto no chão e tirei o excesso pra continuar empurrando morro acima. Mas não adiantava. Em três passos as rodas já travavam novamente.  Após brigar com a lama por uns 500 metros, percebi que seria impossível seguir por ali virei a bike para voltar. Até para descer foi difícil, com várias paradas para liberar as rodas. De volta à estrada pedalável, procurei no GPS alguma opção paralela ao morro da lama e havia uma um pouco mais à frente. Confirmei com uns moradores locais e lá fui eu. Mal sabia no que eu estava me metendo.

SAM_0851

DSC_0118

DSC_0119

Apesar de não ter nenhuma marca recente de uso, o caminho começava bem, passando por um bosque de eucaliptos. A estradinha, no entanto, foi se fechando e se transformando em uma trilha. Subidas e descidas se alternavam sem que eu conseguisse pedalar. Era muita lama, buracos e pedras. A estrada desenhada no GPS batia com o trajeto que eu estava fazendo, mas estava ficando preocupado com a situação da trilha, que ameaçava fechar de vez e impedir que eu seguisse. Ao menos que eu seguisse empurrando uma bicicleta que, com a bagagem, passava dos 40 kg. Após mais de uma hora nesta função, o GPS indicou que a minha “estrada” estava perto de cruzar outra estrada. Foi uma esperança em vão, já que a outra “estrada” estava em situação ainda pior, com grandes árvores caídas que impediam a passagem da bike. Já oficialmente preocupado, deixei a bike e segui a pé, passando por sobre as árvores caídas para ver onde esta trilha daria.

SAM_0852

SAM_0853

SAM_0856

SAM_0857

SAM_0858

Sua situação, no entanto, era ainda pior. Muito mato fechando o caminho e grandes valetas de lama. Até pra caminhar estava difícil. Voltei, peguei a bicicleta e segui pela trilha em que eu estava. Para minha alegria, a trilha foi, aos poucos, se transformando novamente em estrada. Ao longo de uma grande subida, claro, com mais de 100 metros de desnível. Após chegar novamente perto dos 1.000 metros de altitude, alcancei uma estrada de verdade, que me levou de volta ao roteiro oficial. Cheguei no km 30, exatamente metade do previsto para o dia, cheio de lama, cansado e de mau humor.

SAM_0860

SAM_0861

Pedalei mais uns quilômetros  e resolvi parar para comer e respirar um pouco. Foi muito bom. Matei o restante da janta e tomei bastante água. Montei na bike e, conforme fui avançando, o ato de pedalar tranquilamente e curtir as descidas foi me colocando no espírito da viagem novamente. Apenas a corrente da bicicleta ainda estava com problemas. Toda a lama da trilha estava secando e ela começava a estralar. Desviei um pouco o trajeto novamente para encontrar um vilarejo e poder lavar toda a relação. Com apenas água e umas gotas de óleo depois ela voltou a funcionar silenciosamente.

SAM_0863

Voltei ao roteiro oficial e não demorou muito para que eu parasse novamente. Cansado e com fome de novo, comi tranquilamente em uma mercearia no bairro Lençol, já em São Bento. Segundo um morador local, o bairro tem este nome pelas geadas que historicamente cobrem a região no inverno. De lanche feito, parti para a “reta final” do trajeto, que, como sempre, tinha várias subidas. Mas a aproximação do Centro da cidade é feita por um caminho muito interessante de estradas de terra e ruas tranquilas, que nos deixam muito perto da praça Getúlio Vargas, onde tudo começou. Sem maiores dificuldades, nem emoções por parte da atendente, peguei o meu diploma de conclusão do Circuito das Araucárias. Mas tudo bem, tudo muito bem. Fiz o roteiro vencendo uma gripe e um grande problema mecânico na bicicleta pelo prazer em pedalar pelas montanhas em estradas tranquila e próximo à natureza. E isso eu tive de sobra. É o que me importa, a minha recompensa.

SAM_0867

Algumas conclusões e dicas:

  • É possível sim fazer o circuito acampando. Anotei locais para montagem da barraca ao final de cada trecho e posso passar aos interessados. Agora, se eu recomendo? Acho que não. Pela natureza dura dos trechos, com infinitas subidas e estradas com buracos e pedras, quanto mais leve for a bicicleta, mais prazeiroso será o passeio.
  • Leve sempre comida para um dia todo de pedaladas. Os locais para lanche são escassos e podem estar fechados.
  • Sempre ligue antes para reservar locais de pouso e refeição.
  • Os trechos seis, sete e oito têm vários locais sem sinalização do trajeto a seguir. Não me perdi porque tinha o track de GPS me orientando o tempo todo. Recomendo a quem for fazer o roteiro o uso de um aparelho de GPS (não precisa ser um caríssimo, destes de atleta. Um Dakota 20, como o meu, já resolve). Sem GPS, a dica é aprender um pouco de navegação (não é complicado) e utilizar o guia oficial do circuito em conjunto com um ciclocomputador. O guia é entregue gratuitamente na saída e é capaz de levar o cicloturista com tranquilidade por todo o percurso.
  • Informei à atendente da Secretaria de Turismo de São Bento do Sul sobre a inviabilidade do trecho de lama da última parte do trajeto. Recomendo que o ciclista verifique se algo foi feito ou busque uma opção mais segura.
  • Não foi tranquilo para levar a bicicleta no ônibus da Reunidas de São Bento do Sul para Florianópolis. A primeira exigência era de que estivesse encaixotada. Após bastante insistência minha, consegui que aceitassem ela semi-desmontada (pedais sacados e quidão paralelo à roda) e com a relação coberta com pano para não sujar outras bagagens.

Dúvidas? Sugestões? Comente abaixo 🙂

Você leu a parte três, confira as partes um e dois, além do post complementar.

Track Ponte de Pedra – Fazenda Evaristo

Track Fazenda Evaristo – São Bento do Sul

Inventário da bagagem no Circuito das Araucárias.

 

RELATO: Circuito das Araucárias – parte 2

Continuação do relato sobre minha viagem pelo Circuito das Araucárias. Leia a primeira parte aqui.

SAM_0706

Apesar da tranquilidade que o som de um riacho próximo passava, a noite não foi tranquila. Um isolante térmico muito fino me deixou em contato próximo demais com a terra e suas pedrinhas. Assim, acordei com muito sono e ainda um tanto de gripe. Desmontei a barraca sem pressa e fiz um café com menos pressa ainda. Acho que bati meu recorde, levando mais de duas horas para guardar tudo e sair pedalando. E olha que o objetivo do dia não era dos menores. Pretendia terminar o trecho quatro e fazer o cinco e o seis.

SAM_0713
Bombom de barraca

Bastou a primeira subida pra ver que não daria. Como ela não era pequena, com uns quatro quilômetros, tive a certeza que o meu organismo não estava para fazer mais força aquele dia. Pedalei até o centrinho de Campo Alegre, que marca o fim do quarto trecho, e estacionei em uma padaria. Dois pastéis e duas fatias de bolo de morango depois, fui buscar hospedagem. Acabei ficando no hotel que carimba o “passaporte” de quem está fazendo o circuito. Lugar de preço relativamente econômico e quartos simples, mas arrumados. E tirei a tarde pra deixar meu corpo trabalhar com a gripe e o cansaço.

SAM_0736

Deu resultado. Acordei no quarto dia com disposição e apetite. Tomei um saboroso café da manhã e parti para os 55 km do dia. Ah, como foi bom voltar a pedalar com energia. Ajudado pelo Pearl Jam no fone de ouvido, nem vi passar o tempo até a Casa Antiga, quinto ponto de carimbo. Pra não perder a disposição, me alonguei enquanto conversava com a anfitriã do local. Em alguns minutos já estava pronto para seguir na montanha russa do dia.

SAM_0766

Não havia nenhuma grande subida, mas uma série de pequenos “tops”, como o pessoal chama, seguidos de pequenas descidas. Tudo dentro do programado, mas que não deixa de impressionar pela repetição ao longo do dia, morro após morro. Estes dois trechos passam por propriedades rurais mais autênticas, de gente que mora e vive do campo. Com menos placas de “NÃO ENTRE – VIGILÂNCIA POR SATÉLITE” e mais porteiras baixas e pessoas que dão bom dia.

SAM_0768

Como o dia estava rendendo bem, resolvi parar em frente de uma bela e vazia casa de campo para tomar um café. Foram quase 40 minutos sem que nenhum carro ou caminhante passasse, o que me permitiu ouvir vários tipos de pássaro enquanto comia meu sanduíche e tomava meu café feito na hora. Momentos especiais, que quem viaja de bicicleta pode curtir.

Você está lendo a parte dois, confira as partes um e três, além do post complementar.

SAM_0785

Mais uns 90 minutos pedalando e cheguei ao ponto final do sexto trecho, a Pousada Ponte de Pedra. Muito bem recomendada por seu clima acolhedor, a pousada me surpreendeu por estar cheia de carros e com mais de 100 pessoas almoçando e conversando lá dentro. Vendo minha cara um tanto perplexa, a mãe da dona da pousada, Sra Hildegard, veio ao meu encontro e insistiu para que eu almoçasse, já que eram 14:30 e eles estavam para desmontar o buffet.

Screen Shot 2016-05-16 at 12.03.30

Comi um prato de boa comida caseira, deixei minhas coisas no quarto em que dormiria e parti para o centro de São Bento do Sul, sacar um dinheiro para o restante da viagem. O caminho de ida e volta ao banco, claro, também é cheio de morros e fez com que a altimetria acumulada do dia chegasse aos 1.530 metros.

Nico e Eloá (Foto: Felipe Munhoz)
Nico e Eloá (Foto: Felipe Munhoz)

Disposto pelo alívio na gripe, tratei de tomar meu banho cedo e buscar minha janta. Enquanto aguardava que a mesa fosse servida, fiquei de brincadeira com os três filhos da Hariet, a dona da pousada: Michael, Nico e Eloá. Após os dois mais velhos começarem a se estranhar, e serem colocados em cantos diferentes do salão, me diverti muito com a pequena de dois anos. Ela tinha curiosidade sobre tudo e adorava dar risada. Jantamos todos – eu, a família da Hariet e alguns convidados deles – em um clima muito leve, de gente em paz.

Você leu a parte dois, confira as partes um e três, além do post complementar.

Track Recanto do Noti – Campo Alegre

Track Campo Alegre – Pousada Ponte de Pedra

Inventário da bagagem no Circuito das Araucárias.

RELATO: Circuito das Araucárias – Parte 1

SAM_0849

As araucárias não têm vida fácil. Vivem em regiões frias e de ar mais rarefeito. Com madeira boa, elas foram devastadas no último século. De sua cobertura original, hoje restam apenas 3%. Mas ainda nesta conjuntura, forma belas paisagens em regiões de difícil acesso. Então, por que seria fácil pedalar por lá e apreciar estes cenários?

Acredito que o melhor adjetivo para resumir o Circuito das Araucárias seja intenso. As paisagens são belíssimas e variadas, as subidas são fortes e estão sempre presentes a sensação de isolamento é constante e a recepção é fantástica em muitos dos lugares.

SAM_0818

 

Já comecei o circuito em condição desconfortável. O plano de ir pedalando de Florianópolis ao ponto de partida, em São Bento do Sul, não tinha dado 100% certo. Ao chegar a Brusque, após 110 km percorridos, percebi que a gripe tinha me pegado de jeito e que havia algo errado no cubo da roda traseira da Godzilla. No dia seguinte, levei a uma bicicletaria no centro da cidade, onde o cubo foi desmontado, limpo e lubrificado. Eu, no entanto, seguia com grande dificuldade para respirar. Achei melhor tirar um dia para descansar, e voltar a pedalar apenas no circuito. Assim, meu anfitrião Léo me deu uma carona até Joinville, onde me juntei ao Antônio, que me acompanhou nos dois primeiros dias das Araucárias.

Você está lendo a parte um, confira as partes dois e três, além do post complementar.

SAM_0644

Quando partimos em direção ao ponto inicial percebi que o cubo seguia com problemas. Com frequência a corrente girava em falso ao pedalar, quase me derrubando. Peguei o guia do trajeto e tocamos direto para uma bicicletaria de São Bento do Sul. Lá, o mecânico desmontou o cubo novamente e me mostrou que os dentes do núcleo estavam muito gastos. Remontou tudo com menos graxa e uma nova mola improvisada, na esperança de que não escapasse mais.

SAM_0654

Assim, partimos em direção a Corupá. Eu ainda gripado e o cubo com uma gambiarra a ser testada. Logo de cara, no entanto, o circuito já mostrou suas belezas, com muita natureza e estradas com pouquíssimo movimento. Matas, rios, aves. Foi a hora que pensei: este é o tipo de passeio que eu gosto!

SAM_0649

Em uma parada do Antônio para tirar fotos, percebi que a gambiarra estava dando problema. Ela foi escapando até que fiquei totalmente sem tração. Após alguns metros, no entanto, ela voltou. Tentando manter a calma, avisei o parceiro, que sugeriu que tocássemos assim mesmo. Afinal, o dia teria muito mais descidas que subidas. E poderíamos procurar uma solução lá em Corupá.

SAM_0677

Assim fomos, pedalando sem forçar nas subidas e buscando aproveitar todo o embalo das descidas. Acabou sendo bom para quem, como eu, ainda estava com dificuldade de respirar. Chegamos à capital catarinense das bananas ainda no começo da tarde, à tempo de procurar uma solução.

P1000141
Foto: Antônio Heil

A troca do cubo já era decisão tomada, só não sabíamos que isso não era tão simples assim. Procuramos por um cubo Alivio ou Deore nas bicicletarias de Corupá, São Bento do Sul e Jaraguá do Sul e nenhuma das mais de 10 lojas tinha à pronta entrega. A única solução possível foi adaptar um cubo Altus de 36 raios no aro de 32 raios da Godzilla.

DSC_0099

Porém, graças à rapidez e à competência do Célio, da Bicicletaria Nelson, a montagem ficou firme e equilibrada. Às 18h eu já estava pedalando para a pousada e pensando na subida de volta para São Bento do Sul, no segundo dia do meu planejamento para o circuito.

SAM_0840

Partimos pouco depois das 8h, após um último ajuste nos raios. O Antônio tava que parecia um guri. Encarava todas as subidas com vigor, dificilmente usando a última marcha da bicicleta. Enquanto o gripado aqui se arrastava morro acima, inventando de tirar fotos para recuperar o fôlego. Confesso também que empurrei em algumas das ladeiras. Estava complicado.

Você está lendo a parte um, confira as partes dois e três, além do post complementar.

P1000136
Foto: Antônio Heil

 

Já sem acompanhar metro a metro a minha programação, entendi que quando chegássemos ao mirante a subida teria acabado. Pois não só tivemos mais subidas, como eu não consegui preparar nossa comida porque começou a chover. Então foi isso. Mais subidas, com fome e sob chuva. Fazer o quê? Baixar a cabeça e pedalar. Fomos até o Recanto do Noti, um pesque e pague alguns quilômetros depois da comunidade de Rio Vermelho, já em São Bento do Sul.

SAM_0703

Após termos que convencer o Sr Noti que não éramos ladrões de peixe, como os últimos campistas que ele tinha recebido, pude fazer nosso almoço e montar minha barraca em um rancho com piso de terra. Ao menos era seco e tinha uma grande mesa com bancos. Almoçamos e o Antônio pôde seguir rumo ao centro de São Bento do Sul, onde pegaria seu carro para voltar a Joinville. Ver este bom parceiro de viagem sumir na estrada foi como uma grande fixa caindo: agora é só comigo.

SAM_0701

Você leu a parte um, confira as partes dois e três, além do post complementar.

Track Floripa – Brusque

Track São Bento do Sul – Corupá

Track Corupá – Recanto do Noti.

Inventário da bagagem no Circuito das Araucárias.