Podcast: A grande viagem de Ada Cordeiro

Sua primeira cicloviagem foi pela Serra do Cipó, em Minas Gerais. Mordida pelo mosquito, ela fez na sequência a Estrada Real e o Caminho de Santiago. E foi lá na Espanha que decidiu fazer uma viagem mais longa. Juntou dinheiro por um ano e meio, treinou, comprou equipamentos e pediu licença do trabalho. Partiu para um ano de América do Sul. Só que a viagem está tão boa que ela já conta 19 meses de estrada.

Conversei com a Ada logo após sua entrada definitiva no Brasil, na cidade de Belém. Além dos preparativos, conversamos sobre sua rotina de estrada e sobre seus aprendizados nesta aventura.

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“Me perguntam se eu tenho medo. Respondo que tenho, mas completo assim: olha só pra você. Você é uma pessoa boa. Todos os dias tem mais pessoas boas que se aproximam de mim do que pessoas ruins.

Por isso eu agradeço tanto. É algo que mudou a minha vida”.

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Entrevista – Guilherme Cavallari

Guilherme Cavallari tem uma biografia diferente da convencional. Entre outras coisas, já desceu o Nilo em um veleiro, trabalhou como bike courier em Berlin, limpou chaminés nos EUA, criou uma editora para publicar seus livros e… pedalou por 6.000 quilômetros em uma aventura pelo extremo sul da América.

“Às vezes, a rotina é pedalar e pedalar e nada mais. Nesses casos, os dias se resumem a pontos de partida e a pontos de chegada, separados apenas por muito esforço. (…) A cada chegada não sobra tempo para comemorações, a prioridade é descansar. Tudo que a mente quer é silêncio e poder saborear a paz do corpo esgotado. Não sobra energia para ansiedade ou frustrações e o sorriso quase imperceptível, que aparece involuntário no rosto, é de pura satisfação pelo dia bem trabalhado. Dá até para confundir com a sensação de felicidade”, escreveu Cavallari.

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A expedição Transpatagônia durou 6 meses e foi realizada de forma solo e autônoma, percorrendo toda extensão da Patagônia e da Terra do Fogo entre 2012 e 2013. Dois dos resultados desta viagem são o livro e o filme Transpatagônia. Outra consequência é a sua mudança de São Paulo, capital, para uma fazenda em Gonçalves, encravada na Serra da Mantiqueira. E foi lá, no Refúgio Kalapalo, que Cavallari foi entrevistado por Eliana Garcia, Fábio Almeida e Rodrigo Telles, em parceria entre Pedal Nativo e o Clube de Cicloturismo do Brasil.

A entrevista será publicada por etapas, sempre nesta página.

Apresentação

Parte 1 – Esporte e cicloturismo de aventura

Parte 2 – A busca pela natureza

Parte 3 – Ponto de ruptura – A saída da cidade grande para morar junto à natureza

Nelson Neto, cicloturismo e a América Latina

Nelson Neto, cicloturismo e a América Latina

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O historiador Nelson Neto é o primeiro cicloturista a participar da série de entrevistas do Pedal Nativo com grandes viajantes. Entre 2012 e 2013, Nelson percorreu sozinho 21 mil quilômetros pelas estradas da América Latina. Saindo de Foz do Iguaçu, ele seguiu para o noroeste, tendo passado por Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela. Sua jornada foi marcada por rotas pouco conhecidas, viajando por estradas de terra e passando por pequenas cidades que não constam nos grandes mapas. Com orçamento reduzido, ele acampou com frequência, fazendo sua própria comida em várias ocasiões. Confira abaixo os principais trechos da entrevista com Nelson Neto.

Recepção ao cicloturista durante as viagens

Viagem de baixo custo

O que é cicloturismo

Travessia do Salar de Uyuni

Viagem pela América Latina

Emoção de voltar ao Brasil

Orkut?!

Livro a caminho

E então, gostou? Amanhã tem a estreia da segunda entrevista em vídeo. Desta vez, com o ciclista aventureiro Guilherme Cavallari.

Além da viagem: Ricardo e o expresso austral

Além da viagem: Ricardo e o expresso austral

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Em 38 dias ele percorreu 5.134 km, saindo de Florianópolis (SC) e chegando a Ushuaia, no extremo sul do continente.  E isso era apenas o começo. O engenheiro Ricardo Mühle fez, entre 2008 e 2009, mais de 12 mil quilômetros em uma viagem por Brasil, Argentina e Chile. Montado em uma bicicleta desenvolvida por ele mesmo, Ricardo fazia mais de 200 km por dia com alguma frequência. No primeiro dia, por exemplo, foram 232 km. No segundo, seriam 110, mas com a ajuda do vento, percorreu 199 km. “Fiz os 80 km [adicionais] com média pra lá dos 30 km/h.  Em alguns trechos metendo 45 por hora….hahahaha!!!”, escreveu em seu relato no blog “Confins Austrais“. Mas o vento não seria tão generoso em toda a viagem, e o ciclista chegou a completar trecho com media de 8 km/h.

Abaixo estas e outras histórias desta acelerada aventura pelo sul do continente.

IMG_1029Como foi para definir um roteiro tão longo, com tantas estradas de terra e até algumas trilhas? A que fontes você recorreu? Quais foram as dificuldades?
Bom, a princípio tinha uma coisa em mente, sair de Floripa ir até Ushuaia e voltar. Desde a primeira vez que decidi fazer esta viagem e tracei um roteiro preliminar, até o roteiro definitivo (planejado), as mudanças foram poucas. Em mãos eu tinha 3 livros que minha mãe havia me dado alguns anos antes. Um era sobre a Patagônia, outro sobre a famosa Ruta 40 na Argentina (estes dois muito ricos em fotos belíssimas) e por fim um sobre a história de Ushuaia.

Para montagem do roteiro me utilizei de várias informações de sites e blogs de viajantes dos mais variados tipos. O roteiro que acabou sendo realizado obviamente foi um pouco diferente daquele que foi traçado no aconchego do meu lar, sentado na minha escrivaninha! Durante a viagem tu vais cruzando com viajantes que vem em sentido contrário e a troca de informações e às vezes o fato de ver uma fotografia de determinado lugar faz com que alguma coisa acabe sendo alterada na hora. As maiores mudanças aconteceram na perna de retorno. Voltei andando mais pelo lado chileno do que havia planejado, talvez por estar um pouco cansado das paisagens secas do lado argentino. Acabei me metendo em trilhas pesadíssimas que não estavam no meu script, mas que valeram muito a pena pelas paisagens ao redor.

Na fase de planejamento usava com bastante frequência o Google Earth para observar as estradas do trajeto, se eram pavimentadas ou não, se haviam pontos de apoio, etc.

Você já trabalhou como mecânico de bicicleta. Em que isso lhe ajuda na preparação e durante a viagem?
Trabalhei por 6 meses no final dos anos 90 na Bike Tech de Florianópolis. Na verdade isso pouco agregou ao que eu já sabia sobre manutenção de bikes, pois desde muito pequeno já comecei a “fuçar” nas bikes que eu tive. Para uma viagem desse porte acho fundamental que se saiba um pouco mais do que o básico, afinal em certos trechos a ajuda mais próxima pode estar a centenas de quilômetros. Obviamente que o fato de não ter um conhecimento de mecânica mais avançado, não vai tornar uma viagem desse tipo impossível, mas convenhamos que seja chato ficar dependendo de outros pessoas devido a problemas banais na bici. 

IMG_0636Sua bicicleta era única, feita “do zero”, mas com características de speed (selim mais alto que o guidão, que, por sinal, era de speed, e pneus mais finos).  Isto certamente lhe possibilitou percorrer distâncias em boa velocidade. Mas e o conforto ao longo dos dias?
Realmente, minha bike era uma híbrida. Se hoje eu fosse fazer uma viagem igual ou maior, usaria exatamente o mesmo set-up, as mudanças seriam em pequenos detalhes. O fato de ter um quadro de MTB é que ele te possibilita o uso de uma gama variada de pneus. Na verdade eu usei pneus semi-slick até chegar a Ushuaia, na verdade um pouquinho mais, já no retorno, em Punta Arenas. Essa foi a melhor opção, pois 97% do trajeto de “descida” foram em estrada asfaltada. Depois os troquei por pneus de MTB, pois no retorno havia longos trechos de estrada de chão. Em relação ao conforto, a minha posição na bike até que era bem agressiva, mais ou menos como a de uma bike speed. Na verdade tentei replicar as mesmas medidas de distâncias e alturas da minha speed nesta híbrida, por considera-la extremamente confortável. Quanto ao guidon, um de speed é muito melhor do que um guidon flat de MTB, pois ele te proporciona várias posições para as mãos, algo importante para longas distâncias. Não tive problema nenhum de dores devido à postura na bike, seja nas costas, joelhos ou braços.


SunplusVocê construiu os próprios bagageiros e tentou adaptar painéis solares para carregamento de baterias. O que mais você desenvolveu para a viagem e pode compartilhar para outros viajantes?
Na verdade construí meus próprios bagageiros por realmente gostar de fazer esse tipo de coisa. O outro motivo foi por não haver no mercado nada que me agradasse e atendesse as minhas necessidades. Eu queria bons bagageiros em aço que aguentassem o tranco. Pode observar que meu bagageiro traseiro é do tamanho certo para que a barraca fique devidamente acomodada. Outro ponto importante foram os suportes para as garrafas de água cada uma de 1,5 ou 2 litros. Duas no bagageiro traseiro, e duas no dianteiro, fora as duas caramanholas normais de quadro. Acredite, para pedalar pela Patagônia argentina é bom ter muita água de reserva! Ah claro, não poderia deixar de comentar o ponto alto dos meus bagageiros, a cestinha dianteira….rsrsrs. Extremamente funcional! Ali ficavam as coisas que sempre deveriam estar ao alcance das mãos durante o dia, evitando assim o abre e fecha dos alforges. Os painéis solares no final acabei não levando, pois estavam subdimensionados. Na verdade não fizeram falta, pois foi muito raro não chegar a um lugar que disponibilizasse energia para recarga das baterias da máquina fotográfica a cada dia. A recarga diária nem era algo necessário também.

Cheguei a fazer um circuito eletrônico para recarregar as baterias da máquina e de um barbeador elétrico usando o dínamo da bici….rsrs Estas são algumas das coisa que não usei uma vez sequer!

DSC03798Como foi a preparação física para fazer distâncias tão grandes com bagagens?
Não fiz nada específico, do tipo treinar com a bike carregada alguns dias. Eu remava diariamente e por vezes fazia uns pedais longos, tanto de MTB como de speed, mas não com distância tão grandes, algo como 60/70 km, porém bem intensos. O primeiro grande “treino” com a bici carregada foi justamente o primeiro dia de viagem!

O vento, a partir de um certo ponto da viagem, se tornou um fator muito importante, fale um pouco sobre isso.
O vento é um capítulo a parte em uma viagem dessas, pela sua importância. A região patagônica é famosa pela intensidade dos ventos durante o verão. Vento soprando com velocidades superiores a 60 Km/h durante o dia inteiro é bastante comum. Alguém que não esteja fisicamente bem preparado para aguentar ficar mais de 10 horas sobre a bike, pedalando contra o vento, tem de se planejar bem para evitar ficar sem alimento durante determinados trajetos. Quando planejando a viagem no aconchego do meu lar, eu não tinha a real dimensão do que é pedalar por 11 horas para cobrir 100 Km, distância que cubro facilmente em não mais do que 5 horas sem vento!

O engraçado é que muitas vezes em que me encontrava na situação de estar pedalando com velocidades na casa da unidade, por conta do vento contra absurdo, me pegava rindo de alguma situação engraçada que me vinha à mente. Não adianta ficar praguejando, pois no meio de uma viagem destas só há uma opção, ir em frente. Sentar no acostamento e ficar resmungando não acumula quilometragem no velocímetro!

IMG_0660Apesar do ritmo acelerado, você conseguiu belas imagens da viagem toda, em especial do trecho entre El Chalten e Pucón. Qual a importância, para um cicloturista, de parar e observar o entorno de seu trajeto?
Isso depende de como cada pessoa gosta de contemplar as paisagens. Pessoalmente acho que a velocidade que se imprime em uma bicicleta é a ideal para contemplar a vista ao redor. Não fosse o fato de ter de parar para tirar fotos e comer, acho que em muitos dias eu nem teria parado, pois as paisagens para os confins Austrais são muito amplas, somadas a uma velocidade de 20 ou 30 km/h…..é tempo suficiente para curtir tudo!


Gosta de subidas?
É o meu prato favorito, tanto de bici como correndo a pé! Não é a toa que em 2011 voltei ao Paso Libertadores (divisa Chile/Argentina) e subi-o correndo. Todos os anos, em Dezembro, junto os amigos pra subir correndo a Serra do Rio do Rastro.

IMG_0001Como enfrentou o ”tédio“ das grandes distâncias perto do final, no norte da Argentina?
Acho que o sentimento que mais me marcou no fim da viagem foi o de querer chegar em casa. O engraçado é que quando eu cheguei em casa, já bateu saudade daquela minha “rotina” de viajante que já estava tão natural.

Que outras viagens você já fez ou gostaria de fazer?
Um ano antes, fiz uma pequena viagem de 3 dias com mais 3 amigos pelo interior de Santa Catarina, com carro de apoio. Acho que foi ela que me impulsionou a fazer uma trip grande, assim que eu me formei. Essa viagem foi como que minha festa de formatura!

Tenho pretensão sim de fazer outras viagens, mas acho que pra considerar essa nova viagem como em um nível acima, tenho de dar um upgrade na preparação dela. Isso passa por utilizar uma bicicleta de fabricação própria. Vendo o caminho que ainda tenho de trilhar para tornar isso possível, acredito que vá levar algum tempo ainda até o próximo grande Tour.

Eu tenho uma idéia que é o de fazer uma viagem passando por todas as “piores” subidas que estão geralmente presentes no Tour de France, Giro d’ Italia e na Vuelta a España.

Ah sim, já ia esquecendo, no momento meu hobby “remunerado” é a Mühle Composites.

Além da viagem: FES e a Transoceânica

Além da viagem: FES e a Transoceânica

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Fábio Eduardo da Silva, ou FES, como é conhecido, é o primeiro personagem da nova série do Pedal Nativo. Morador de Bauru, no interior paulista, o administrador, professor de Física e integrante do Clube de Cicloturismo do Brasil realizou em 2011 um grande sonho: pedalar pelos Andes. De quebra, conheceu a floresta amazônica, sua beleza e destruição. A o dia-a-dia da aventura ele contou em seu blog, “Vivendo pelo olhar da bicicleta“, mas aqui ele fala sobre o planejamento, os aprendizados e um pouco da filosofia de viajar de bicicleta. Confira.

Por Fábio Almeida, com fotos de Fábio Eduardo da Silva

DSCN0531Quais foram os critérios que você usou para definir este roteiro? O que mais te atraiu?
Desde pequeno sempre quis conhecer os Andes. Ficava impressionado com as imagens que via, achava aquilo muito distante de mim, pois durante muito tempo o lugar mais distante que tinha viajado era de Bauru até o litoral paulista, e isso de carro. O tempo foi passando, mas a ideia de conhecer pessoalmente os Andes nunca sumiu. Comecei a viajar de bicicleta ainda adolescente, então um dia pensei: “Vou para os Andes de bicicleta”. Um devaneio, pensei, mas ali nascia parte do sonho. Em 2006 um grande amigo com quem já tinha viajado duas vezes de bicicleta me mostrou um exemplar da antiga e ótima revista “Os Caminhos da Terra”, era a edição de aniversário e na capa a chamada: “Transoceânica: Do Acre ao Pacífico”… Li a reportagem e vi as fotos inúmeras vezes, aí meu amigo provocou: “Vamos pedalar lá?”. Disse: “Vamos sim!!!”. Ali o sonho de menino cresceu e ganhou corpo, amadureceu. Ainda teria a oportunidade de conhecer um pouco da Amazônia, região que também sempre quis conhecer. De 2006 até 2010 eu tentei ir para lá, já tinha estudado o caminho, sabia muito bem o que queria. Mas nunca deu certo, cada ano acontecia algo complicado na vida e o sonho foi ficando engavetado. Existe uma janela nas estações do ano em que é melhor ir para lá, sempre nos meses do final do inverno, e, por incrível que pareça, sempre acontecia algo na vida antes disso… Mas em 2011 decidi que iria de qualquer maneira. Já era hora de tirar o sonho da gaveta e tentar realizá-lo! Comecei a me organizar. Sei que minha viagem começou muito tempo antes, foi quando tive a ideia e o sonho nasceu, mas em 2011 estava decidido a realizar a viagem realmente. Além de conhecer a Amazônia, conhecer e subir os Andes de bicicleta eu ainda teria a oportunidade de ir até Machu Picchu, poderia conhecer bem o Peru, suas pessoas, sua cultura, estar mais perto de outras realidades. Passaria por muitos locais ainda não explorados pelo turismo de massa, poderia viver algo muito engrandecedor pra mim. Tudo isso me motivou e me atraiu.

Você fez alguma preparação física ou alimentar para a viagem?
Nunca fui de academia ou de treinamentos. Sempre gostei de pedalar e correr. Nunca fui sedentário. Mas para esta viagem eu sabia que precisaria de um preparo melhor devido ao clima, altitude e grande bagagem que levaria. Resolvi eu mesmo me organizar com isso, então comecei a correr de leve, pedalar mais e mais, praticar alongamentos e tentar reeducar a respiração. Não fui muito disciplinado, mas consegui melhorar um pouco a forma física. Sentia-me preparado neste sentido. Já com a alimentação, não tive nenhum cuidado especial, continuei no mesmo esquema que sempre fiz. Só venho, faz é tempo, tentando melhorar minha alimentação, no sentido de comer melhor, coisas mais saudáveis.

Em seu relato, você cita bons exemplos do Acre. O que mais te surpreendeu por lá?
Sim! O Acre me surpreendeu demais. Gostei muito do povo de lá. São muito patriotas, gostam e têm orgulho de serem brasileiros. Talvez por terem tido que conquistar a terra onde vivem. São pessoas muito boas, olham no seu olho para falar, e fui muito bem tratado onde quer que estive. Além disso, o poder público do Acre me surpreendeu, pois estão pensando em cidades para as pessoas. Claro que seguem o modelo rodoviarista enraizado na mente brasileira, mas também contemplam outras formas de locomoção e de organizar as cidades.

Como foi pedalar no calor amazônico?
O calor amazônico é algo bem complicado. Bauru é uma cidade quente e estou acostumado a pedalar no calor daqui. Também já estive em Cuiabá e no Pantanal Norte viajando de bicicleta. Lá o calor é intenso também. Mas no Acre, principalmente, tive grandes dificuldades. A temperatura e a sensação de calor eram muito grandes. Tinha que acordar bem cedo e sair pedalando ainda no escurinho. Até umas 10h,10h30 conseguia pedalar, depois disso era bem complicado. Neste horário a temperatura já chegava aos 45ºC, 50ºC facilmente. Então eu parava em alguma boa sombra e ficava lá até umas 15h,16h, quando voltava a pedalar. Num dia que pedalei além deste horário da manhã acabei ficando com a pele queimada por baixo da roupa que usava (sempre uso roupas longas para pedalar, calça e camisa). Depois disso, nunca mais abusei. Além de tudo, ainda tinha que lidar com a água, pois se passa por longos trechos sem ter onde se abastecer. Com isso eu levava uns 7, 8 litros de água comigo e tinha que tomar ela quente mesmo. Acabei acostumando. Por dia em chegava a tomar mais de 10 litros de água e ainda assim, durante a noite, sentia uma sede que não tinha fim. Assustei, mas não fiquei desidratado. É preciso cuidar bem destes quesitos numa viagem pra lá.

DSCN0572E a experiência com a tão famosa floresta, foi a esperada?
Foi e não foi. Eu já sabia que veria bons pedaços desmatados, mas não achei que seria tanto. Pela imagem do satélite da região já é possível perceber, agora vendo isso lá pessoalmente é outra história. Mas também tive a oportunidade de conhecer um pouco do interior da floresta numa comunidade de seringueiros. Lá, fiquei encantado com a floresta. Vi toda a grandeza e especialidade da mata. Mas não só, pude entender também a fragilidade do ecossistema e a importância de deixa-la “mais em pé”. Pude até sentir a diferença de temperatura em regiões devastadas de regiões com a floresta mais preservada. A floresta regula o clima e não deixa o calor ser tão forte. E depois ainda dizem por aí que cortar árvore não aquece o planeta…

Sobre o Peru, o que há de igual, no aspecto cultural, com o Brasil?
Acredito que quase nada. Eles são basicamente descendentes de indígenas, trazem além dos traços físicos a cultura forte deste povo. Aqui nós muitas vezes esquecemos e até negamos esta ascendência. Eles possuem a cultura muito forte, festejam muito. Talvez nisso se pareçam com os brasileiros, mas festejam principalmente a cultura e raízes que possuem, de maneira muito tradicional e bonita. Sempre me encantava com as festas nas cidades, com os trajes típicos, com a conservação da língua Quechua. Eles gostam muito do Brasil e até se contaminam um pouco com nossa cultura no sentido em que querem ser como os brasileiros. Pensam no Brasil como o país mais desenvolvido na América Latina. Infelizmente não sabem bem ainda como as coisas realmente são no Brasil. Sempre que falava que era brasileiro a frase mais falada era: “Brasil! El más grande del mundo”. Em espanhol “más grande” significa maior em tamanho, mas eles aumentam ainda mais este sentido, além de acharem que é o maior país em território do mundo, ainda pensam que o Brasil é um país altamente desenvolvido. Infelizmente a situação que vivem é muito pior. E claro, como todos os latinos, mesmo com todas as dificuldades ainda possuem o sorriso no rosto e otimismo vivo.

E o que há de diferente?
É como falei na questão anterior. O amor à cultura e raízes que possuem. Penso que isso seja o fator mais marcante de diferença. Têm orgulho de serem peruanos como são. Além disso, na questão política e de desenvolvimento, estão em situação bem mais complicada que nosso país. Foi bem triste descobrir que ainda é um país explorado por outros mais fortes.

Como foi pedalar na altitude e no frio? Enfrentou até neve, não?
Pedalar na altitude foi bem complicado e desafiador. Aqui no Brasil não chegamos às grandes altitudes dos Andes, então não sabemos bem como reagiremos, além do que a maior parte de nós vive em baixas altitudes. Procurei ir me aclimatando, ou seja, ir subindo devagar e ficando um tempo parado em alguns vilarejos para o corpo se acostumar gradativamente. Mas acima dos 3.500 metros a coisa complica bastante O ar se torna muito mais rarefeito. Usei a receita de mascar as folhas de coca também. Sem isso, não sei como seria. Inclusive, todos os peruanos que vivem nas grandes altitudes mascam coca, além de tomarem o chá de coca também. E aqui não vamos confundir com a droga cocaína, são coisas bem diferentes. Mas quando atravessei o maior passo de montanha a 4725 metros de altitude senti todos os sintomas do mal da altitude. Fiquei com forte dor de cabeça, ânsia, desorientado, respirando com grande dificuldade e com o raciocínio mais lento. Mas mantive a calma e fui indo bem devagar. Consegui chegar e ficar um tempo apreciando a paisagem única das grandes altitudes. Depois desci. Mas depois de uma semana pedalando acima dos 3.000 metros fiquei bem aclimatado e já não sentia o mal de altitude.

Já o frio foi mais tranquilo. Quando se está com bons equipamentos, o frio não é um grande problema. Basta sempre se manter quente e seco. Mas é preciso ter muita atenção, pois qualquer vacilo com o controle da temperatura as coisas podem se complicar, ainda mais quando se está viajando sozinho e acampando. Cheguei a pegar uma pequena nevasca nas grandes altitudes. No começo nem sabia o que era, mas quando entendi fiquei muito emocionado. Difícil de descrever, mas muito gratificante.

Reparei que, ao contrário de outros viajantes, você não detalha diariamente coisas como distância percorrida, tempo de estrada, dinheiro gasto ou pneus furados. Por quê?
Se me permite a sinceridade, particularmente não considero estas informações tão importantes, pois são coisas intrínsecas do viajar de bicicleta. Só relataria caso algo saísse da “rotina”, como quando comentei sobre ter pedalado mais de 140 km num dia para sair da região dos garimpos no Peru. Viajar de bicicleta pra mim significa estar em contato direto com o ambiente, com as pessoas, com as paisagens, com a natureza. Nossa janela é o todo ao nosso redor, e podemos exercitar todos os nossos sentidos. Realmente vivemos cada espaço percorrido, cada contato humano, cada reflexão pessoal, cada grau de temperatura ou metro de altitude, cada visão espetacular, cada lágrima, cada sentimento mais a flor da pele. Em meu pequeno ponto de vista isso se mostra muito mais importante de tentar ser relatado do que números que pouco servem para este mundo de vivências intensas de quem se permite viver. Claro que tenho estes números, afinal preciso controlar algumas coisas, como as finanças ou mesmo quanto ainda falta de distância até algum ponto que queria chegar, mas, em geral, não dou prioridade para estas informações.

Usa GPS? Por quê?
Esta foi a primeira viagem em que levei um GPS, mas foi só para marcar o caminho. Para viajar e descobrir locais, direção, estradas, eu sempre vou perguntando para os moradores e pessoas locais. Também estudo um pouco do caminho antes e sei as principais distâncias com base em mapas impressos e nas imagens de satélite por computador. Mas não levo computador, pesquiso antes de viajar. Levar o GPS nestaviagem foi interessante, mas é mais um equipamento para se preocupar, ter que carregar pilhas ou baterias, ter cuidado no manuseio e armazenamento das informações. Dá certo trabalho a mais e ainda não sei dizer se é realmente tão importante ou mesmo útil.

DSCN0862Sentiu solidão? Manteve contato com família ou amigos?
Não senti solidão. Por mais que estivesse viajando sozinho eu sempre estava perto de pessoas quando parava num vilarejo, propriedade rural ou cidade. Sempre viajo buscando mais contato humano com quem vive por onde passo. Mas teve momentos em que senti falta de ter alguém conhecido, ou mais próximo, por perto. Por exemplo, quando se chega a um lugar incrível, ou mesmo quando se passa por alguma grande dificuldade. Mas lido bem com isso. Não tenho problemas em viajar sozinho.
Mantive contato com minha família, não diariamente, mas quando era possível. Sempre quando ia passar por locais de difícil comunicação eu avisa minha família que ficaria “x” dias sem me comunicar. Só levei o telefone celular para funcionar como despertador, só ligava de telefones públicos. Já com os amigos não mantive muito contato. Apenas alguns e-mails. Também escrevi alguns relatos do Blog durante a viagem, mas isso se mostrou ser bem complicado, pois não levei um computador, fazia isso em casas de internet pelo caminho. Investia muito tempo nisso e da metade da viagem pra frente deixei de fazer. Preferi conhecer e viver mais onde estava.

Há algum projeto de viagem em preparação? Qual?
Sim! Tenho alguns projetos em mente, sim. Sempre que volto de uma viagem já estou pensando em outra. Quero conhecer a América Latina de bicicleta, nem que isso leve muito tempo e investimento meu. Então penso em viajar por outros países. Talvez subir o continente a partir de Cusco, no Peru (local mais ao norte que cheguei), ou então seguir sentido sul a partir de La Paz, na Bolívia. Nada está definido ainda, mas penso em seguir viajando por nossa linda e rica América Latina.