10 anos de Pedal Nativo

Audax Floripa 2019

Em 2019 o Pedal Nativo completa dez anos de vida. Desde o primeiro post, com uma pedalada pelo norte de Floripa, até o relato sobre a ciloviagem ao Morro dos Conventos foram 226 posts, que geraram 545 comentários. O blog começou com o nome de Náculo, em referência a um boneco que meu filho adorava. Aliás, minha intenção inicial era registrar minhas pedaladas para inspirá-lo quando maior. Em 2011, buscando inspirar mais pessoas, alterei o nome para Pedal Nativo. Na época, eu escrevi:

Pedal Nativo remete ao prazer espontâneo da aventura sobre uma bicicleta. Aquela emoção que guardamos com carinho, das aventuras na infância pelas ruas do bairro. Podemos ficar até alguns anos sem pedalar, mas basta girar o pedal para sentir tudo isso voltando. Afinal, nascemos para isso.

Com esta mudança de filosofia, os conteúdos se expandiram para além dos meus relatos: relatos de viagens de terceiros, entrevistas com grandes viajantes e dicas para iniciantes.

Ao mesmo tempo, organizei concurso e exposições de fotos, participei da criação do primeiro Curso Online de Cicloturismo, dei palestras e desenvolvi e coloquei à venda uma caneca personalizada. Do blog nasceram ainda um canal no YouTube e perfis no Instagram e no Facebook.

Reparou como quase tudo está conjugado na primeira pessoa? Isso é porque este blog é um reflexo do que sou, do que penso e desejo. Mesmo que ele não se chame “blog do Fábio”, sou eu que estou aqui. Daí dá pra chegar a duas conclusões:

Se fosse para viver disso, este blog teria uma configuração diferente. Os textos seriam uma coleção de listas de “os dez mais” e outros conteúdos baseados nas palavras mais buscadas do Google. Mas eu optei por escrever de maneira totalmente livre. E isso custou ao blog pouca atratividade para os anunciantes.

Mas, como disse, o Pedal Nativo é um blog onde me expresso como pessoa. E, por isso mesmo, ele não deve, obrigatoriamente, gerar dinheiro para continuar existindo. Afinal, respeito meu compromisso com a minha natureza. Individualidade essa que respira aliviada sempre que está em contato com o ambiente natural.

Apesar da redução no número de relatos por aqui, sigo fazendo incursões na natureza. Mas não apenas de bicicleta. O trekking, que eu também pratico desde a adolescência, voltou ao meu radar ao fazer o curso da Outward Bound Brasil, em 2017. Com mais algumas boas experiências de caminhada, o Pedal Nativo começou a ficar pequeno para o Fábio.

Mas não mais, neste aniversário de 10 anos o Pedal Nativo vai passar o bastão. Mais uma vez, é uma mudança que contraria algumas “regras” para criadores de conteúdo. Afinal, ainda que sem números fantásticos o Pedal Nativo tem alguma relevância no Google.

Mas as regras deste autor permitem e até endossam. Assim, as aventuras de bicicleta vão continuar (lembre-se do compromisso), mas também irei escrever sobre trekking e outras práticas que me levam à natureza.

Um novo nome, novo endereço, nova logo, novas seções. Mas o mesmo Fábio de sempre escrevendo e ouvindo. Inspirando e sendo inspirado. Vamos em frente que a coisa só melhora!

E fique tranquilo, o Pedal Nativo seguirá no ar. Com todo seu histórico de postagens.

RELATO: a batalha do Morro dos Conventos

Salve, salve!

Neste fim de semana fui conhecer um lugar que há tempos ocupa minha imaginação. O Morro dos Conventos me chamou a atenção desde que vi uma foto de 1958. Ela mostrava um solitário prédio em estilo modernista, construído entre o morro e o mar, sobre a restinga. Bem na filosofia do homem se descobria capaz de dominar a natureza pela tecnologia, nem que isso custasse agressões ao meio-ambiente e à estética. Mas e hoje, como estaria a região? Quem teria vencido a batalha? De propósito, não busquei fotos atuais do morro. Deixei para ver pessoalmente.

Meu parceiro para a viagem foi o Felipe Munhoz, ciclista amigo já de outros carnavais. O Felipe é companhia boa para viagem. Acompanha ritmo forte de pedalada, mas não tem problema nenhum em parar para tirar fotos ou resolver qualquer outra coisa. Não é de falar muito, o que permite boas reflexões ao longo das jornadas. Assim como eu, ele andava querendo fazer uma cicloviagem há tempos. Calhou de estarmos liberados no mesmo fim de semana e partimos.

Selfie na saída. Cuidado com o guidão!

Fomos de carona até o acesso à praia do Sonho, evitando pedalar no famigerado morro dos cavalos e suas pistas cheias de caminhão e sem acostamento. Pegamos a BR-101 e fomos direto pelo acostamento. Logo percebemos que o vento estava a nosso favor, o que nos fez começarmos em ritmo forte, já pedalando na coroa maior. Considero este trecho em especial um dos mais bonitos da BR, por ter longa vista para a Serra do Tabuleiro, à direita.

A viagem seguia se embalando pelo vento quando passei por tachões a aproximadamente 40 km/h e meus dois alforges traseiros foram simplesmente ejetados da bike. O Felipe vinha atrás e começou a sinalizar para os carros e caminhões desviarem de um deles, que tinha ido parar na faixa da direita. Enquanto eu voltava, ele acabou deixando a bike no chão e indo pegar o alforge suicida. Mas foi preciso ainda que eu atravessasse até a faixa da esquerda para resgatar um adaptador plástico do sistema de fixação. Fortes emoções neste começo de viagem, mas nada nem ninguém saiu atropelado.

Marcha pesada e seguimos em direção ao Sul. Sem demora chegamos em Laguna. Na alça de entrada, quase fui ao chão com a derrapada que o pneu traseiro deu. Estava furado e, ao pararmos para trocar a câmara, deu pra ver que o vento seguia aumentando. Corri para concluir a operação o mais rápido possível e sair da “zona de ataque” das lufadas de areia.

Entramos em Laguna pelo acesso principal, passando pelo seu simpático centro. Sempre me pergunto porque esta não é a principal cidade da região. Por ali passava o Tratado de Tordesilhas, criado em 1494, que dividia a América entre Portugal e Espanha. Também é uma das mais antigas vilas de Santa Catarina, tendo sido oficializada em 1676. Além disso, em 1839, foi cenário da batalha que uniu o italiano Giuseppe Garibaldi e a catarinense Ana Maria de Jesus Ribeiro, que viria a ser conhecida como Anita Garibaldi. O casal revolucionário teve participação decisiva na Revolução Farroupilha e no processo de unificação da Itália.

Aula de história vivenciada, comemos um pastel e seguimos para a balsa que atravessa o canal da Lagoa do Imaruí. Durante a travessia, um grupo de botos nadava ao lado da balsa, pena que não deu tempo de fotografar.

E após o desembarque… Olha, o vento acho que estava em torno dos 30 km/h. Bastava aplicar alguma força no pedal que a bicicleta se encarregava de manter o movimento indefinidamente. Pedalávamos na última marcha disponível com mínimo esforço. Ao chegar aos cruzamentos era preciso acionar os freios com força, pois a aceleração do vento continuava empurrando. E assim, voando, chegamos ao trevo que leva diretamente ao Farol de Santa Marta. Seria minha primeira passagem por esta estradinha depois do asfaltamento. Fizeram uma obra bacana. com ciclofaixa bem delimitada e mensagens de preservação. Mas o clima naquela região não é muito amigável e parte da estrada já estava coberta por areia. Ela foi trazida pelo vendo, que neste momento nos atingia lateralmente e desequilibrava a bicicleta o tempo todo.

O acampamento foi montado no Cardoso Surf Camping, onde já tinha ficado em uma cicloviagem de 2017. É um lugar agradável, com boa infraestrutura e atendimento de acordo. O preço, de R$ 35, está bem justo para o que encontramos lá. Uma única ressalva à noite que passei lá é o barulho de carros e motos em exibições de aceleração e som alto nas redondezas. Isso era algo que não existia antes e só posso imaginar que seja uma consequência do asfaltamento do acesso. Antes este público não arriscava suas “maquinas” na estrada arenosa e esburacada.

Para o segundo dia de pedal eu tinha imaginado duas opções de roteiro. Voltar à BR-101 e seus caminhões ou seguirmos por estradinhas secundárias, que correm entre o mar e a BR. Mas o Felipe alertou que muitas destas são de terra/areia, com longos trechos de “costela de vaca” e areia fofa, boa para atolar a bike. Sugeriu que fossemos pela praia mesmo, e assim fizemos. Logo após a Barra do Camacho nós deixamos as ruas e estradas para trás e fizemos da beira da água nosso caminho. O piso não era tão firme quanto eu tinha experimentado na Ilha Comprida, mas era sim possível pedalar em bom ritmo. Seguimos por muitos quilômetros, até que a proximidade de uma tempestade me fez sugerir que buscássemos uma estrada convencional, menos exposta a raios.

Após uns 20 minutos neste desvio a tempestade de desfez e, já no caminho de volta para a areia, passamos pelo Chuveirão de Jaguaruna. Eu nunca tinha ouvido falar e a informação do Felipe é que era um lugar “esquisito”, seja lá o que isso quer dizer. Mas bastou me aproximar para ter certeza que iria me molhar. Ao Felipe, que estava tirando fotos, só avisei: “Está filmando? Eu vou entrar!”. E fui de capacete e tudo para aquele dilúvio refrescante. Que coisa boa!

Ensopado voltei à praia e seguimos pedalando por mais dezenas de quilômetros e muitos balneários desta praia sem fim. Alguns são mais simpáticos, com deques de madeira e turistas aproveitando o domingo, e outros parecem cidades do faroeste, com casas muito precárias e sujeira para todo lado. Ao chegarmos a Barra Velha, ficamos em dúvida se iríamos pelas ruas ou seguíamos pela praia até a pequena balsa que atravessa o Rio Araranguá. O problema é que ela fica um pouco pra dentro do rio, e a viabilidade de se pedalar no trajeto de sete quilômetros entre a foz e o porto da balsa era dúvida. Em um rápido papo com um pescador, ele disse que sim, bastaria irmos bem rente a água.

Resolvemos então seguir na areia, apesar do risco de ter que pedalar de volta até o balneário se a travessia não fosse possível. Àquela altura já estávamos um pouco cansados dos 80 km na areia. Conforme avançamos em direção à foz do Araranguá o movimento de pescadores e banhistas foi diminuindo bastante. De repente a faixa de areia virou à direita e começamos a pedalar em direção à serra. A faixa de areia dura diminuiu pela metade. Troncos e galhos de árvores caídas reduziam um pouco mais o espaço pedalável. Um pouco tenso, fui avançando sem apreciar muito o entorno. Até que de repente cruzo com um ciclista pedalando em sentido contrário. De chinelo e ouvindo rádio, pedalava bem relaxado em direção ao mar. Me senti ridículo com toda aquela preocupação e tratei de aproveitar o gostinho deste final de percurso.

Após mais uns quilômetros na beira do rio chegamos à Ilha, uma comunidade que vive em um pedaço de terra cercado pelo Rio Araranguá e um dos seus afluentes. O nome é tudo isso mesmo: Ilha. De lá, percorremos uma pequena estrada rural até o portinho da balsa. Ao embarcarmos, o capitão perguntou se tínhamos vindo pedalando pela areia. Questionei como ele tinha adivinhado e ele disse que era pelo estado dos nossos tênis e bicicletas.

Aliás, sobre isso. Sei de várias pessoas que nunca colocariam sua bicicleta na areia, por medo de desgastar/enferrujar. Por elas eu lamento. A sensação de liberdade, incluindo o visual e o som das ondas, compensa qualquer possível problema que a pedalada venha a causar na bike. Basta uma boa ducha na bicicleta e um pouco de óleo na corrente para a viagem seguir. Ela, a bicicleta, está aí para nos servir, e não o contrário.

De volta ao relato, foi nesta balsa que tive a primeira visão do Morro dos Conventos. Ela aporta na parte de trás do morro, dando uma vista de perfil dos paredões. Mas ainda não seria neste dia que eu conheceria o morro. Tocamos direto para o Balneário Arroio do Silva, onde acamparíamos. O Camping Morro dos Conventos, último que restava próximo ao morro, foi desativado para se transformar em um condomínio de luxo. Mas os quilômetros adicionais até a cidade vizinha foram recompensados. O pessoal do Camping e Pousada Serra Mar nos recebeu de forma exemplar e nos ofereceu o pernoite em chalé por um preço irrecusável.

Bem descansados, o plano para o dia seguinte era “turistar” pelo morro e pegar o ônibus para Florianópolis no começo da tarde. Seria o momento de ver quem teria levado a melhor na guerra entre a bruta natureza da região e a sede do homem por domina-la.  Então, após limparmos as bicicletas da areia, seguimos com elas descarregadas pelas curiosas ruas do Arroio do Silva. Lá se encontra todos os tipos de pavimento, da terra ao asfalto, passando por lajotas e pedras lascadas. As vezes tudo na mesma rua, em espaço de um quilômetro.

Subimos o Morro dos Conventos por trás. Uma rua bastante arborizada e com belas casas sobe em direção à beira do penhasco, e ao farol da Marinha que está instalado ali. No mirante, a vista é muito ampla, incluindo, bem ao fundo, as encostas da serra, as curvas e a foz do Rio Araranguá, as dunas entre o morro e a praia e… uma pequena vila que se formou em torno do prédio pioneiro, que continua por lá. Há uma dezena de ruas e boas casas de veraneio. A natureza, no entanto, segue ditando condições e espalhando areia com suas dunas móveis. Não deve ser pequeno o trabalho de manutenção no bairro, que ainda tem que lidar com a salinidade trazida pelos sempre fortes ventos. Sei que é uma batalha sem fim e sei também que a humanidade está sempre em crescimento e precisa avançar. Mas acredito que lugares como este deveriam ser poupados, preservados em sua forma natural. Quando a natureza ganha, ganhamos nós também.

Selfie de fim de viagem. Guidão bem seguro.

Com estas reflexões na cabeça, descemos o morro e seguimos de forma objetiva até a pousada. Era preciso ajeitar os alforges e pedalar até a rodoviária, desmontar as bicicletas e guarda-las em um malabike (a do Felipe) em uma caixa (a minha), que eu ainda iria conseguir no comércio. Mas tudo isso deu certo e às 15h embarcamos de volta para Florianópolis. Tempo de reflexão, de processar tudo o que vivi nestes dias de pedalada rumo ao sul. Agradeço ao Felipe, em especial, pela parceria impecável durante todo o tempo. Precisamos fazer outras! Agradeço também aos que de alguma forma ajudaram nesta jornada. Valeu!