Dica: como limpar caramanholas e bolsas de hidratação

Salve, salve!

Tomar água em recipiente sujo ninguém merece, né? Mas isso acaba acontecendo se as caramanholas e as mochilas de hidratação não foram limpadas corretamente. E não adianta passar esponja com sabão, porque em locais de difícil acesso, como bicos e tubos, o fungo vai se criar. A dica é deixar as peças de molho em uma solução com água sanitária. Qual proporção? Por quanto tempo? Confira um passo-a-passo no vídeo abaixo.

Ainda sobre o tema, descobri há pouco tempo que existe um perigo grande em se hidratar acima do necessário. Isso dilui a quantidade de sódio no organismo e pode causar uma série de problemas. Confira neste texto bem detalhado do Camelbak Training Club. Ele fala para corredores de maratona, mas as dicas servem perfeitamente para cicloturistas e suas longas jornadas.

Uma das primeiras coisas que pensamos quando começamos a nos exercitar é a hidratação. Trazemos nossas garrafas d’água, bebemos água em bebedouros e sabemos que precisamos continuar a nos hidratar quando praticamos exercícios no calor ou quando suamos, mantendo a temperatura do organismo baixa e maximizando nossa performance. Ficamos tão focados em uma questão que acabamos esquecendo outra: a hidratação acima do necessário (hiponatremia), que realmente acontece e precisa ser encarada com seriedade. A hiponatremia está crescendo por conta do aumento da popularidade dos eventos esportivos de resistência. Vamos começar, então, com os sinais e sintomas causados por uma ingestão excessiva de líquidos.

Sinais e Sintomas:

Náusea
Vômitos
Dor de cabeça
Tonturas
Espasmos musculares
Desorientação / Confusão
Perda da coordenação
Fadiga
Perda de apetite
Fraqueza muscular
Exaustão física
Convulsões
Formigamento
Coma
Parada cardíaca ou respiratória

Estrago que o sol e o excesso de água causaram em mim em uma viagem de 2015. Foram dois dias de cama para ficar bom.

Causa:
Sob o ponto de vista científico, a hiponatremia é uma condição que ocorre quando o nível do sódio no sangue está abaixo do normal. Sua causa mais comum é a ingestão excessiva de água durante a prática de esportes de resistência, quando o consumo de água ultrapassa a capacidade do organismo de eliminá-la. Para as pessoas que têm um “suor salgado”, a hiponatremia também pode ser causada por uma grande perda de sódio através da transpiração. Beber uma quantidade excessiva de água ou perder uma grande quantidade de sódio no suor provoca a diluição da concentração de sódio circulando no organismo, fazendo com que o nível da água no organismo aumente e inche. O inchaço é o que pode causar uma série de problemas médicos.

Quem Está Exposto ao Risco?
Atletas de atividades de resistência precisam dar uma atenção especial à hiponatremia, especialmente aqueles com pouca experiência, cujo ritmo é mais lento e acabam fazendo as provas em mais tempo. Provas mais longas causam um maior consumo de água e maior perda de sódio, aumentando os riscos da hiponatremia.

Como Evitar a Hiponatremia:
É importante destacar que beber água é muito importante, porém chega um ponto em que se pode estar causando mais prejuízo do que benefícios. Um teste simples é: continue com seus exercícios cotidianos e se pese antes e depois da atividade. Se você terminou o exercício com um peso maior do que começou, pode-se concluir que está consumindo mais água do que necessário e potencialmente se colocando em risco. Na Maratona de Boston de 2002, por exemplo, dentre os corredores que tiveram hiponatremia, 73% ganharam peso durante a maratona. Se começar a sentir alguns dos sinais e sintomas da hiponatremia, tente urinar para que a taxa de água no seu organismo volte ao normal. Nesse ponto, uma bebida rica em eletrólitos não irá ajudar, pois a quantidade de sódio nessas bebidas esportivas é relativamente baixa comparada ao volume líquido, então será contra-produtivo.

Conhecer os sinais, sintomas e os riscos associados à hiponatremia é o primeiro passo para a melhoria na segurança em maratonas.

 

Festival de férias 2018: cinco viagens de bike inspiradoras

Salve, salve!

Verão bombando, alguns com tempo livre e outros buscando apenas um relax entre turnos de trabalho. Que tal assistir alguns vídeos inspiradores de viagens de bicicleta? Então lá vai a minha seleção para estas férias!

*Observação: Acredito tenha sido uma bobeada minha, mas não encontrei nenhum filme novo realmente bacana em português. Então, neste ano, a seleção está toda em inglês. Tem alguma dica de aventura em português para passar? Mande aí nos comentários.

 

CyclingAbout The Americas – O site do Daren é reconhecido pelo enorme quantidade de informação sobre cicloturismo. Testes, comparativos, catálogos comentados, o que não falta lá é informação. Mas desta vez ele partiu para uma aventura maior: vai cruzar a América de Sul a Norte. Logo no primeiro episódio, os fores ventos da Terra do Fogo e as belas paisagens de Torres del Paine. Vale assistir e acompanhar os próximos!

Dois amigos, 7.500 quilômetros e uma missão: recolher o lixo! Leave It Better documenta a cicloviagem de Seth Orme e Abby Taylor pelos Estados Unidos, da Geórgia ao estado de Washington. Em cada região, sozinhos ou com um grupo, Orme e Taylor limpavam lixo, totalizando mais de 950 quilos ao longo da viagem. Para curtir e refletir.

O que uma bike de Cyclocross, feita por uma fabricante de bicicletas fixas, faz em uma dura prova de mountain bike pelos Alpes? Entre espanto geral dos mais de 1200 competidores, a participação de Stefan “Fish” Vis durante os sete dias de prova mostrou que sim, é possível subir 19.000 metros de estradas de terra sem suspensão e com guidão drop. Sobrando no plano e sofrendo nas descidas, Fish conta como foi a aventura.

Treinar navegação, curtir as paisagens e rir do tombo dos parceiros. Este é o tom do bikepacking que cruzou o Parque Nacional de Snowdonia, na Inglaterra. A viagem faz parte da preparação do grupo para enfrentar a Cordilheira dos Andes, conde passarão por Peru, Bolivia, Chile e Argentina.

Muito frio, reflexões sobre a vida e citação de Jack London. O premiado The Frozen Road traz tudo isso em maio a belas paisagens e uma trilha sonora bem ajustada. Boa forma de encerrar esta pequena seleção.

Quer mais? Confira outras edições do Festival de Férias.

Review: Acampamento em rede

Review: Acampamento em rede

Salve, salve!

É praticamente impossível conhecer um brasileiro que nunca tenha deitado em uma rede. Esta invenção indígena está presente em todos os cantos do país, independentemente da origem de seus colonizadores. Mas e passar uma noite na rede, em meio à natureza?Pouquíssimos já tiveram esta experiência.

Que é possível nós já sabíamos, graças ao ótimo podcast que fizemos com o Palmieri, fabricante das redes Kampa. Mas faltava ainda passar uma noite efetivamente acampado em rede. E eu tive esta oportunidade há pouco, acompanhando meu filho em um evento escoteiro. Confira abaixo a avaliação desta experiência, e deixe o seu comentário!

Circuito das Araucárias em novembro

Circuito das Araucárias em novembro

Um roteiro intenso, com paisagens belíssimas, subidas fortes e uma agradável sensação de isolamento. O Circuito das Araucárias, no norte de Santa Catarina, é o nosso programa para o feriado de finados. Desta vez contaremos com carro de apoio durante o trajeto. Assim, poderemos enfrentar as subidas e curtir as descidas sem peso na bicicleta.

Fotos: Fábio Almeida, Ana Cristina Santos e Felipe Munhoz

Mas… Você conhece bem o Circuito das Araucárias? Eu pedalei por lá no ano passado e produzi um relato bem completo sobre a experiência. Se você gosta de bicicleta e gosta de montanha, tenho certeza que irá nos acompanhar agora em novembro.

Confira a programação:
Quarta-feira, 01 de novembro, 18:30h: deslocamento de van Florianópolis – São Bento do Sul
Pernoite no Filadelfia Park Hotel
Quinta-feira, 02 de novembro, pedal até Corupá
Pernoite na Pousada Parque das Aves
Sexta-feira, 03 de novembro, pedal até Campo Alegre
Pernoite na Pousada Ponte de Pedra
Sábado, 04 de novembro, pedal até Rio Negrinho
Pernoite na Pousada João de Barro
Domingo, 05 de novembro, pedal até São Bento do Sul
18h, deslocamento de van São Bento do Sul – Florianópolis

O que está incluído:
Guia experiente
Auxílio mecânico básico
Hospedagens com café da manhã
Van para deslocamento e apoio

Valores:
R$ 1.200 no cartão de crédito, em até 3 vezes pelo Mercado Pago.
R$ 1.095 em dinheiro, à vista.
Fabio Barbosa Almeida
Banco Santander 033
Ag 4287 CC 01078046-7

Dúvidas, esclarecimentos? Por favor, entre em contato.
fabio@pedalnativo.com.br
Tel/WhatsApp (48) 99157-0838

O Circuito das Araucárias integra a nossa agenda anual de viagens de bicicleta. Em 2017 já fomos de Urubici a Florianópolis, de Florianópolis ao Farol de Santa Marta e de Florianópolis à Serra da Garganta. E tem muito mais a caminho. Quer ficar por dentro das novidades? Assine o nosso boletim e recebe e-mails mensais com as atualizações do Pedal Nativo.

RELATO: a natureza como escola – parte final

Esta é a quarta e última parte do relato da minha experiência no programa de Fundamentos da Educação ao Ar Livre (Feal), da Outward Bound Brasil (OBB), que participei em agosto de 2017. Confira a primeira, a segunda e a terceira partes.

Acordamos no nono dia sabendo que não haveria deslocamento. Tivemos duas ou três atividades logo pela manhã e fomos liberados para o banho no rio. Aí a “rádio corredor” já cantou a letra de que teríamos a experiência do solo. Mas o que era isso?

Fotos: Fábio almeida e João Teodósio

 

Basicamente, teríamos momentos para refletirmos sobre os aprendizados do Feal e, de alguma forma, conectá-los a nossas vidas. Para isso, iríamos nos afastar do grupo e buscar algum local interessante para o pernoite. Havia regras bem claras sobre o que poderia ou não ser levado.

Pois é. Não teríamos barraca, iriamos “bivacar” nesta noite. Esta é uma experiência que há tempos eu tinha vontade de ter, mas sempre faltou coragem. Naquele momento, no entanto, eu já estava muito a vontade na natureza. Nem mesmo as várias fezes de onça que vimos ao longo dos dias anteriores me preocupavam. Tinha a convicção que elas evitariam qualquer encontro.

Sem muita dificuldade, encontrei um morro para chamar de meu. Um degrau de pedra seria minha casa nas próximas horas. Como cheguei no fim da tarde, tratei de montar o abrigo rapidamente, para aproveitar a luz natural. Para isso, prendi a minha tarp em um arbusto, de um lado, e no bastão de caminhada, do outro.

Parece simples, mas não é muito, não. A parte de esticar a tarp envolveu enrolar as cordinhas em pedras pesadas, encher a mochila de pedras e amarrar a cordinha em raízes. Apesar da apreensão de fazer algo tão importante pela primeira vez, achei bastante divertido.

 

Montei o modelo inferior esquerdo, que permite observar as estrelas

 

A noite me pegou neste misto de preocupação e satisfação. Um pouco cansado, e sem muito mais o que fazer, peguei no sono logo. Acho que não era nem 19h.

Acordei no meio da noite. O vento tinha acalmado e as nuvens, sumido. Acima de mim, um maravilhoso céu estrelado. Ambiente perfeito para o que seria a materialização desta experiência: escrever uma carta para mim mesmo.

E ela começou com “Fabiolândia, agosto de 2017”. Mandei vários recados para este cara. Sem pressa alguma, fui analisando sucessos e fracassos da minha vida, lembrando de quem está comigo na batalha e refletindo sobre meus anseios.

Pra quem não gosta de escrever a mão, até que as três páginas foram preenchidas com facilidade. Processo concluído, peguei no sono novamente sem grande dificuldade.

**

O décimo dia amanheceu e pouco tempo depois ouvi o longo apito que indicava a hora de voltarmos para o acampamento. A carta foi entregue aos instrutores e nos será enviada pelo correio, em algum momento próximo.

Com a turma menos falante, comemos um belo café da manhã, desmontamos tudo e partimos para o deslocamento do dia. Iriamos caminhar bastante, com uma navegação relativamente simples.

Porém, dois problemas atrasaram o dia. Primeiro, chegamos a uma longa área alagada, que exigiu vários “scouts” para encontrarmos uma rota alternativa. Mais pra frente, com pressa, erramos a navegação. Isso nos custou uma hora de iluminação natural em um dia bastante nublado. Com a chuva querendo se instalar, acabamos montando acampamento bem antes do objetivo do dia.

O local escolhido não era o ideal. Cheio de pequenas árvores e longe da água. No entanto, não demos muita bola. Com a divisão da turma em equipes, conseguimos fazer a janta com agilidade e nos liberarmos para descansar para o dia seguinte, que teria bastante caminhada.

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Partimos cedo para o 11° dia, que teria, além da caminhada “normal”, a subida ao Pico Santo Agostinho, ou do Garrafão, que fica a 2.359 metros sobre o nível do mar. Saímos do acampamento com chuva e fomos caminhando com a navegação bem clara em nossas cabeças. Sem maiores dificuldades, chegamos rapidamente à parte baixa, que não pertence ao parque e tem várias pequenas fazendas.

Os instrutores nos presentearam com um delicioso queijo parmesão fresco, comprado em uma casa próxima ao começo da subida para o pico. Paramos para um lanche bem calórico e iniciamos a subida.

Eu estava particularmente ansioso com este desafio. Picos me fascinam e assustam na mesma proporção. No começo da subida tratei mais uma vez de subir na frente, encarando a parede inicial com toda a energia que tinha no momento.

Com a chuva se instalando de vez, segui caminhando forte. O grupo foi ficando para trás, com paradas para descansar, arrumar bagagens e afins. Comigo na frente foram o Oliver e o Dan. Conforme íamos ganhando altitude o vento ficava mais forte e a chuva, mais constante. Percebemos que já não era uma boa pararmos para esperar o grupo. Com o corpo molhado, era parar e começar a tremer.

 

Subimos então direto ao pico, chegando lá sob forte chuva. A temperatura estava pouco acima de zero e tratamos de montar um abrigo da chuva e colher água enquanto esperávamos os demais. Em aproximadamente 20 minutos eles começaram a aparecer. Percebemos, no entanto, que havíamos parado no lugar o errado. O ponto de acampamento era cerca de 200 metros à frente.

Rapidamente nos mudamos para o local correto e iniciamos uma linha de produção. Uma grande tenda foi armada e sob ela as barracas eram montadas secas. Com as quatro armadas, corremos para colocarmos roupas quentes e secas.

Na natureza nada se perde.

E aí surgiu um problema para mim. Com a calça molhada do dia anterior, tinha caminhado neste dia com a segunda calça. E isso era tudo que eu tinha de calças. Até tentei usar a segunda pele com uma bermuda por cima. Mas o frio e a umidade estavam demais. Entrei na barraca para não mais sair neste dia.

A equipe soube compreender e me levaram a janta. Perdi, no entanto, a importante conversa sobre o espírito de equipena subida. Soube que algumas roupas sujas foram lavadas e eu também tinha umas peças. rsrsrs.

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Sem chuva nem vento. O 12° dia amanheceu tranquilo. O frio havia diminuído e eu consegui sair da barraca. Fizemos o café da manhã e a primeira aula do dia foi bem no alto, com a vista para todo o vale do Garrafão, 700 metros abaixo. Mais uma vez, não foi fácil manter a atenção só na exposição. E olha que o assunto era bem interessante: como foi construído o conceito “Não Deixe Rastros”, ou “Leave No Trace”.

E, quando achávamos que o bivaque e a subida sob chuva e frio tinham sido os grandes desafios do Feal, soubemos que havia mais um. E dos grandes. Os instrutores iriam se afastar e grupo deveria se autogerir até o dia seguinte. Isso incluiria navegação, definição de local de acampamento, alimentação e tudo mais, até nos encontrarmos com a van e os instrutores novamente.

Na bastasse isso, uma nuvem chegou, reduzindo a visibilidade a 10 ou 15 metros. Assim, partimos bastante apreensivos com a navegação. As referências visíveis eram poucas e muito parecidas entre si. Pouco tempo depois passamos reto por um ponto onde deveríamos virar à direita.

Mal dá pra ver, mas os pelinhos do dedo estavam congelados

Este erro banal custou várias idas e vindas do grupo em meio a um cenário cinza, frio e com chuva intermitente. Com a moral ameaçando cair, tratamos de manter a objetividade e entender de uma vez onde estávamos no mapa. Após quase duas horas de idas e vindas, reencontramos o caminho e fomos descendo rapidamente. Quando finalmente saímos de dentro da nuvem a sensação foi de alívio geral.

Chegamos no fim da tarde ao “Curralzinho”, que tinha sido nosso local de acampamento na terceira noite do Feal. Fizemos quase uma festa por estarmos em um lugar seguro, sem chuva e pela pizza que jantaríamos naquela noite. Deu bastante orgulho do grupo.

**

Para o 13° dia tratei de me candidatar à liderança pela segunda vez. Já imaginava que seria um dia descomplicado para esta função. Bastava cuidar da navegação, que era um tanto quanto simples, e manter um bom ritmo de caminhada, pois ainda estávamos a 14 quilômetros do ponto de resgate.

E, mais uma vez, deu pra perceber o amadurecimento do grupo. Fomos caminhando em um astral leve. Soubemos alternar momentos de contemplação com piadas e músicas. Não nos perdemos em momento algum e iniciamos a grande descida até a van. Foram mais de 10 quilômetros perdendo altitude e utilizando tudo que os joelhos tinham a oferecer.

Sem maiores ocorrências, chegamos ao ponto de encontro com apenas 2:30 horas de atraso. Digo apenas porque a névoa do dia anterior tinha nos levado a acampar bem antes do que o ideal, e este último dia de expedição tinha ficado muito grande.

Hora de todos se abraçarem e se parabenizarem pelo sucesso no Feal. Curiosamente, achei esta festa menor que a da véspera. Acredito que sabíamos que o maior desafio desta etapa autônoma tinha sido mesmo a navegação dentro da nuvem.

A chegada da van. Até o camarada do do banco ficou feliz.

Em pouco tempo a van chegou e partimos de volta a Campos do Jordão. Estávamos tão cheirosos que a tentativa de ligar o ar condicionado foi abortada rapidamente. Era impossível fecharmos as janelas.

**

Após um banho de chuveiro e uma estranha noite em uma cama, na base da OBB, acordei para o 14° e último dia. Nossa missão era pintarmos um grande muro da base. Para isso faríamos uma mistura de argila com cola branca, algo que eu nunca tinha ouvido falar.

Após umas duas horas, e um tanto sujos de novo, encerramos nossa derradeira missão. Fizemos uma bela macarronada, compramos algumas cervejas no mercado próximo e pudemos, enfim, relaxar.

No meio da tarde caminhei até o portal da cidade para encontrar meu pai. Havia uma pequena multidão por lá. Todos saiam correndo dos carros e ônibus, tiravam selfies e voltavam para suas capsulas. Estranho. Ainda bem que meu pai chegou logo e tomamos o rumo de Taubaté.

Do papo sempre bom com ele, comecei um grande momento de reflexão sobre tudo que tinha passado nas últimas semanas. Caminhada e acampamento na natureza são coisas muito boas. Mas o Feal tinha sido muito mais que isso. Pude fazer uma grande viagem dentro de mim mesmo. Me questionei e me afirmei em vários momentos. Presenciei momentos péssimos e fantásticos de outras pessoas. Fiz fortes elos com vários dos que participaram. E, como sempre acontece com coisas boas, me pergunto quando será a próxima.

Gostou deste relato? Assine nosso boletim e receba informações sobre novas viagens. Quer fazer um Feal? Procure o pessoal da OBB!

 

RELATO: Shimano Fest 2017

Salve, salve!

Ir à Shimano Fest era um sonho antigo, desde os tempos em que ela era realizada em Mogi das Cruzes. Neste ano, com a proximidade dela com a Brasil Cycle Fair, eu e a Lê nos programamos para vir a São Paulo e visitar as duas feiras. Nosso objetivo principal é a busca de parcerias e patrocínio para o Pedal Nativo e nosso projeto Transpirineus 2018. E, neste sentido, fizemos bons contatos com importantes empresas do setor. É algo a ser trabalhado nos próximos meses.

Mas o objetivo deste post é outro. Vou mostrar o que mais nos chamou a atenção na Shimano Fest 2017. A primeira coisa que gostamos foi a diversidade de marcas expostas. Sem pressa, fomos conhecer o que Caloi/GT/Cannondale, Soul/BMC, Sense, Oggi, Audax, Focus, e outras, tinham a mostrar.

MTB elétrica no estande da Shimano

E as bikes com assistência elétrica estavam em vários estandes. Aonde não havia era porque o protótipo não tinha ficado pronto. Mas nada de urbana, o que mais vimos foram mountain bikes mesmo. A posição do motor é central, junto ao pé de vela, e não no cubo dianteiro ou traseiro. A explicação é que assim o peso do conjunto fica mais centralizado, facilitando uma pedalada mais esportiva.

Corratec elétrica que experimentamos no exigente circuito do evento: bem divertida!

Outra tendência que percebemos é a chegada das bikes Gravel. Pra quem não conhece, é uma espécie de bicicleta de estrada capaz de rodar em terrenos mais acidentados. Para isso, ela tem um pneu mais largo e a posição do ciclista não é tão projetada para a frente. Está sendo vista como uma opção para quem não tem os melhores asfaltos para pedalar, mas não quer perder tanto desempenho quanto em uma mountain bike.

Lê dando uma volta com o protótipo de Gravel da Soul

Mas e o cicloturismo? Apesar de estar presente em pequeno número, havia algumas coisas interessantes. No pequeno estande da Ortlieb chamava a atenção uma bela Trek da década de 1990 com o quadro de carbono. Ela estava equipada com bolsas de selim e guidão para bikepacking. A bolsa de quadro, por variar muito de tamanho entre as bicicletas, não estava sendo exposta.

Já tinha ouvido falar desta bike, feita em 1993 com componentes de fibra de carbono no seu quadro. Mas ao vivo foi a primeira vez <3

A mineira NorthPak estava presente, com seus conjuntos para bikepaking e acessórios feitos em cordura. Ela era apresentada pelo Jander Avila, que não conhecíamos. Além de ajudar no desenvolvimento da marca, ele promove passeios de bicicleta. Outro operador presente era o Pirenaica, que promove viagens com bicicletas de estrada na Europa.

Batendo um papo com o Guilherme Cavallari e o Kiko, da Deuter/Sea to Summit/Camelback.

O Guilherme Cavallari também estava lá, promovendo seus guias de cicloturismo e bikepacking. É sempre uma boa referência pra quem busca informação de qualidade. Também não se nega a dar dicas específicas. Falando em “celebridades”, pudemos conhecer o Edu Capivara, do excelente Pedaleria, e o Brou Bruto Drews, uma figura. Trocamos uma ideia ainda com o Eduardo Gasperini, do programa Vamos Pedalar, da TV Cultura.

Conhecendo ao vivo aquele que está sempre no nosso Youtube

E da Shimano Fest foi isso. Em mais alguns dias começa a Brasil Cycle Fair, e nós estaremos lá também. Até!

 

RELATO: A natureza como escola – parte 3

RELATO: A natureza como escola – parte 3

Esta é a terceira parte do relato da minha experiência no programa de Fundamentos da Educação ao Ar Livre, da Outward Bound Brasil, que participei em agosto de 2017. Se você está chegando agora, confira a primeira e a segunda partes.

A liderança de equipes era um assunto complicado para mim. Tive algumas experiências boas e algumas ruins nesta posição ao longo dos anos, e andava evitando assumir novos encargos. Mas como o espírito do programa da OBB é o crescimento, decidi me candidatar a líder do grupo no quito dia. Eu tinha um assunto pessoal para trabalhar neste dia: a comunicação com os colegas.

Todo o peso da gravata de líder. Fotos: João Teodósio e Fábio Almeida.

E a comunicação já foi fundamental para que, apesar de termos nos atrasado com as primeiras aulas do dia, eu fizesse um acordo com os colegas para mantermos a programação para o banho de rio. Era algo que estávamos precisando. Não só pelo cheiro, mas também para espairecermos os conflitos.

E foi muito bom! Um rio com pequenas quedas e várias piscinas naturais só para nós. Água gelada na medida, para um dia que já estava quente desde cedo.

Bem mais leves, partimos para a caminhada perto do meio-dia. Curta e com bastante descida, a rota do dia foi boa para treinarmos um pouco de navegação. Com a turma caminhando sem muita distração, terminamos o deslocamento às 15:59h, um minuto antes da meta.

Ainda bem, pois esta era noite de pizza! Sim, fizemos pizza em um acampamento selvagem. Uma verdadeira linha de produção foi montada, com parte do grupo preparando a massa, outros cortando os ingredientes e os demais assando tudo em uma Fry-Bake e uma frigideira normal. Foi bastante trabalho, mas elas ficaram deliciosas e em quantidade para empanturrar a todos.

Com palavras gentis dos colegas sobre a minha liderança, terminei o dia aliviado. A comunicação, na base do “o combinado não sai caro”, funcionou muito bem. Percebi que, tomando cuidado com as minhas já conhecidas falhas, dá sim para fazer um trabalho bacana de liderança.

**

Vamos ou ficamos? O dia começou com a dúvida se o reabastecimento chegaria a tempo para fazermos a caminhada prevista. Esta incerteza deu esperança para alguns, que, já cansados dos dias anteriores imaginavam se ao longo do curso teríamos um dia sem deslocamento.

Mas o reabastecimento chegou, a comida foi redistribuída e nós partimos para a caminhada do dia. A perspectiva era de uma rota dura, com bastante subida e um longo trecho sem trilha demarcada no mapa.

Em pouco tempo vencemos o primeiro morro. Uma paradinha na sombra e logo partimos para o segundo. Já sem trilhas no mapa, a navegação do grupo começou sob a responsabilidade do líder Oliver. Aos poucos, no entanto, outros começaram a debater as opções e participar das decisões.

“Brilhante”, foi como o Helder, um dos instrutores, viria a definir a nossa navegação naquele dia. Porém, não bastava apenas definir caminhos. Com as mochilas mais pesadas do que nunca, alguns sentiram dificuldades com o passar dos morros.

O ritmo foi lento e, como começamos tarde, chegamos ao destino com os últimos raios de sol. Neste momento o grupo foi tomado por um mix de emoções. O João corria pelos campos, a Bianca abraçava a todos e o Oliver criava uma força-tarefa para buscar água.

Já no escuro, e com a mediação do Helder, percebemos que já chegamos com água suficiente para o nosso consumo naquela noite. Pôde prevalecer, então, a sensação da conquista. Aliviados, montamos as barracas e fizemos uma “reunião” de 10 pessoas dentro de uma única tenda para 4. Até o Michel, também nosso instrutor, se jogou, contagiado por nossa energia.

Como disse a Patrícia, em uma música criada na hora, foi um “dia lindo pra viver. Aqui na serra do papagaio eu só tenho a agradecer”.

Ainda com tempo bastante aberto, no sétimo dia fizemos uma longa caminhada pela crista de duas serras. Apesar da belíssima vista, foi uma caminhada muito dura, seja pelo sol constante, seja pela longa distância, seja pelas mochilas cheias.

Sem muita filosofia, nos esforçamos em manter o ritmo e cumprirmos o deslocamento do dia. Neste esforço, cometemos duas imprudências: almoçamos expostos ao sol, sem conseguirmos relaxar, e fomos em direção a um grande erro de navegação, que iria nos custar horas para desfazer. Foi um dos poucos momentos em que os instrutores precisaram interferir mais fortemente.

Bom, etapa vencida, fomos para o alto de um pequeno morro para a aula que falava muito sobre tudo que o grupo vinha passando e ainda iria a passar: fundamentos da educação experiencial. Muito bacana entender um pouco do funcionamento do curso que estávamos passando e ter contato com outras ferramentas disponíveis.

Pena para o Helder, que deu a aula, pois estávamos exaustos e, atrás dele um pôr do sol fantástico se exibia lentamente. Montanhas douradas ao longe e um balé de andorinhas. Não foi fácil para ele competir.

**

Na manhã do oitavo dia um pico de tensão eclodiu no grupo. Um dos integrantes não saiu da barraca para ajudar na preparação do café. Assim como não tinha participado dos trabalhos da janta no dia anterior. E como vinha se desviando de lavar a louça em todas as refeições.

Vários foram à barraca conversar com ele. Tentar ouvir suas razões e argumentar sobre a importância do trabalho de cada um para o grupo. Mas não houve mudança. Outro, já não tão paciente, foi lá “resolver” a questão. Provocar para ser respondido. Mas nem assim.

Aos poucos o grupo foi deixando este caso de lado e seguindo com a arrumação para o café da manhã. Aos poucos o episódio foi sendo processado. Mais tarde, ficou assim registrado no diário do grupo.

“Hoje abri o saco de dormir de um colega. Ali dentro, um corpo. O frágil corpo de um homem. Qual o próximo passo? Me contive, retrocedi. Vamos buscar outro caminho. Em grupo. Andar junto. Viver junto. É um compromisso que assumimos em 11 pessoas. Nenhum problema é só individual.”

Bom, a caminhada foi mais uma vez dura. Começamos com uma forte subida, sem trilha demarcada. Mas pelo menos eu estava descansado. Na noite anterior caí na barraca logo após cumprir minhas obrigações com o grupo, dormindo uns 40 minutos mais cedo que o restante dos colegas.

Com esta disposição para caminhar, e confiança na minha navegação, fui seguindo o dia à frente do grupo. Era eles chegarem e eu já partia para o próximo trecho. Apesar de energizado, eu não queria muito papo. O caminhar contemplativo estava muito bom e a falação dos demais estava atrapalhando isso.

Cheguei a comentar com o Helder que sentia a necessidade de um momento de introspecção para processar tudo que vinha passando desde o começo do curso. Ainda não podendo comentar sobre o nosso próximo, ele apenas consentiu.

Mal sabia eu que, nos próximos dias, eu iria dormir em bivaque, encarar uma temperatura baixíssima com chuva e vento, e ter que navegar por horas sem qualquer referência visual. Mas estes são assuntos para a quarta e última parte do relato. Confira agora!

RELATO: Serra da Garganta em quatro dias

Salve, salve!

Neste feriado de 7 de setembro fomos revisitar a Serra da Garganta, em uma viagem de quatro dias a partir de Floripa. Atendendo ao nosso pedido, o amigo Juliano Goularti fez o relato da viagem. Confira!

“Quinta feira, feriado da independência, 9h. Primeiro dia: Saímos do posto de saúde da Trindade, Florianópolis/SC, com destino a cidade de Águas Mornas/SC (Grande Florianópolis). O percurso de 52,2km com ganho de elevação de 452m, desconsiderando a atenção redobrada em função do trânsito pesado, o trajeto não apresenta dificuldades. A parte mais tensa foi cruzar a parte central de São Amaro da Imperatriz pela BR-282 que não dispõe de acostamento.

Pedalamos em ritmo leve, média de 17,1Km/h, com uma parada para descanso em Palhoça. Hidratamos-nos e repomos as calorias. Reposta as energias, seguimos viagem até nosso destino final. Demos ainda uma pequena parada na prefeitura de Águas Mornas para uma fotografia. Chegamos ao destino final um pouco depois das 13h. Desconsiderando a parada para descanso, foram 3h e 02min pedalados. Desmontamos parte de nossos equipamentos, papeamos, tomamos um banho de rio e almoçamos uma deliciosa macarronada. À tarde tiramos para montar as barracas, repor as energias e ir até a padaria (8,6km, ida e volta) para comprar comida para o jantar, pão com salame. À noite ficamos ao redor da churrasqueira papeando.

Sexta Feira, 08 de setembro, 10h. Segundo dia, o dia D: Pela manhã, preparamos um café reforçado, levantamos acampamento e despedimos da valorosa acolhida propiciada pelo Vinicius e pela Naiara.

Saímos de Águas Mornas com destino a Serra da Garganta, em Anitápolis/SC. Expectativa de conhecer a Serra da Garganta que foi palco da Revolução de 30 era tamanha. Eu particularmente já tive a oportunidade de fazer alguns cicloturismo, dentro os quais envolvem a Serra do Rio do Rastro, Serra do Corvo Branco, Serra da Rocinha e Serra do Faxinal (todas em Santa Catarina). Até então não conhecia a da Garganta. Fui pesquisar sobre a serra e, principalmente, o conflito entre as forças federais Legalistas e as forças Rebeldes, ou as tropas Revolucionárias gaúchas. Despertou meu espírito de curiosidade e coloquei nos pedais cicloturístico a ser realizado. Para felicidade, o Pedal Nativo criou essa oportunidade.

Do ponto de partida até o ponto de chegada, seriam 42,1Km com uma altimetria acumulada de 1.498m (equivalente a subida da Serra do Rio do Rastro, 1.421m). Seria o dia mais difícil, pelas condições do terreno, peso dos equipamentos, subida íngreme e sol forte. Pedalados 10min, ainda sem esquentar o corpo, logo nos deparamos com uma subida de terra íngreme e longa. O sol forte nos surrou. Mas a vista da paisagem e o contato direto com a natureza recompensavam.

Certos da dignidade da subida, fizemos algumas paradas para hidratação, descanso e para tirar algumas fotos dado a beleza da paisagem natural. Estávamos em quatro pessoas. Cada um possui um ritmo, uns mais fortes e outros mais fracos. Porém prevaleceu a camaradagem, os que estavam à frente sempre esperavam por quem estava atrás. Vencida a primeira parte do trajeto, seguimos pela BR-282 até a entrada de São Bonifácio/SC. Pela SC-435, uma subida longa, seguimos até a comunidade de Rio Novo que da acesso a Serra da Garganta. Percorridos 27,5km, antes de encarar uma nova subida, esta a mais longa e digna, desancamos um pouco e fizemos um lanche reforçado. Confesso que pedalar pela BR-282 é chato e tedioso.

 

Passados 1h de descanso e lanche seguimos o pedal. Logo no começo, depois de uns 7km pedalados, acontece algo inusitado. Sempre procuramos esperar quem possui um ritmo menor para reagrupar. Embora tivesse um momento que esperamos e esperamos por um membro(a)do grupo que não aparecia. Preocupado(a), um de nós voltou (aprox. 1km, o que acaba sendo 2km) desceu serra abaixo para saber o que havia acontecido. Ao final encontramos o(a) membro(a) do grupo conversando com um morado local que ao final acabou presenteando(a) com um pote de mel.

Até o destino final do acampamento passamos por alguns perrengues que nos trouxe experiência para que não seja cometido na próxima cicloviagem. Excesso de peso para uma subida digna como é a Serra da Garganta deve ser evitado. O peso em excesso faz você cansar mais rápido, podendo levar a exaustão, reduz o ritmo do pedal e faz você consumir energia muito mais rápido. Mas prevaleceu novamente a camaradagem, distribuímos o peso o que acabava distribuindo a fadiga para que todos pudessem chegar ao destino final do acampamento selvagem. Se estiver valendo uma dica, é a camaradagem na cicloviagem, que além de reforçar os laços de amizade, permite que todos cheguem ao destino final.

Chegando próximo ao ponto final da subida, estávamos cansados e paramos mais um pouquinho para apreciar a vista e repor o fôlego para encarara os últimos 2,5km de descida e subida, que envolvia passar pelo local da batalha da Revolução de 30, e assim chegar ao local do acampamento. A pergunta que mais rolava era se faltava muito para chegar ao destino final. Parecia aquela cena do segundo filme de Shrek quando o Burro perguntar vezes sem conta “já chegámos?”, quando ele, o Shrek e a Princesa Fiona se deslocam de carro até Bué Bué.

Com uma média de 9,5Km/h e 4h e 27min de pedal (sendo que saímos às 10h e chegamos às 17h e 30min), ao chegar ao local do acampamento, com pouco tempo de sol, tratamos de nos apressar em montar as barracas e deixar os mantimentos prontos para fazer a janta. Ao redor do fogareiro, já que não foi possível fazer uma fogueira, todos nós estávamos exausto. Papeamos, bebemos uma boa pinga para baixar a poeira e brindar a dignidade da subida. Ao redor da comida, rimos muito e apreciamos as estrelas.

Além disso, vale registra que acampados em baixo de um corredor de vento, o que fazia as arvores da floresta se retorcer e produzir um som magistral noite adentro. Tão magistral quanto isso, é perceber que depois das 5h da manhã o som da floresta começa a mudar. Como assim: o som dos animais noturnos começa a dar lugar ao som dos animais diurnos, principalmente dos pássaros. Isso são coisas que somente o acampamento selvagem pode lhe propiciar!

Sábado, 09 de setembro. Terceiro dia: No dia seguinte, preparamos o café reforçado, apreciamos o mel que nosso(a) membro(a) do grupo ganhou do morador local e levantamos acampamento, mas sem antes recolher todo o lixo. Alimentados e com o local limpo, próximo das 10h, montamos em nossas bikes para descer a Serra da Garganta, mas sem antes subir aprox. 150 metros para iniciar a descida.

 

Ao todo, o Pedal Nativo de feriado da independência estava planejado para quatro dias, porém eu somente estaria presente em três. Mas antes disso, seguimos juntos do acampamento até uma lanchonete na comunidade de Teresópolis. Saímos próximo das 10h, fizemos algumas paradas para fotografia e encher as garrafinhas de água. Ao chegarmos ao ponto mais alto fomos contemplados por uma neblina que nos fez sentir a sensação de estar dentro das nuvens. Disse um de nós: “Pedal Nativo nas nuvens”. Depois de algumas fotos, iniciamos a descida até a comunidade de Teresópolis para descanso e lanche. Aqui nos despedimos. Uma parte do grupo seguiu viagem até Águas Mornas, local de acampamento do primeiro dia, e eu segui em direção a Florianópolis. Nesse dia, percorri 86,6km em 5h e 34min com um ganho de elevação de 911m.

Ao final dos três dias de cicloviagem, foram 189,5km pedalados e 2.949 de altitude acumulada. Mas o que ficou é a certeza de retornar a Serra da Garganta, mas agora pelo lado de Anitápolis, e não por Águas Mornas.”

Esta foi mais uma viagem da nossa agenda anual de viagens rápidas. A próxima será para o Circuito das Araucárias, em novembro. Saiba mais aqui.

RELATO: A natureza como escola – parte 2

RELATO: A natureza como escola – parte 2

Esta é a segunda parte do relato da minha experiência no programa de Fundamentos da Educação ao Ar Livre, da Outward Bound Brasil, que participei em agosto de 2017. Confira a primeira parte aqui.

O terceiro dia começou com um belo nascer do sol no Pico da Bandeira. Ainda com a boa sensação da conquista da montanha no dia anterior, curtimos bastante o café da manhã. Tempo de batermos fotos e, nos papos, irmos nos conhecendo melhor.

Quase não percebemos o tempo passando e acabamos nos atrasando um pouco para a primeira aula do dia, que foi sobre navegação por mapa e bússola. Orientação para o norte, escala, curvas de nível. Nada disso era novidade para mim, graças ao curso de guia de turismo que fiz no IFSC.

Fotos: Fábio Almeida e João Teodósio

Mas aprender a utilizar a bússola para a navegação, em conjunto com mapa, era um desejo antigo. E daí tive contato com conceitos como azimute, declinação magnética e outros. O curioso é que, na aula, nada é complicado. São conceitos de lógica bem simples, mas que precisam de bastante prática para serem assimilados. E eu iria perceber isso com clareza em alguns dias.

Neste terceiro dia, no entanto, a ordem era guardarmos tudo nas mochilas após a aula, para partirmos para o próximo ponto de acampamento. Conseguimos sair às 11h. Já um pouco tarde, mas ainda normal para quem está pegando o embalo da viagem.

Foi uma caminhada de muito sol, mas sem maiores esforços físicos. Fomos descendo do pico pelas cristas dos morros, cruzando pequenas matas e curtindo o visual. Ao longo do caminho, os papos foram ficando mais interessantes também. Poder e economia global, estilo de vida saudável e outros tantos assuntos passaram pelas trilhas do dia.

E durante este caminhar relaxado, fui me dando conta de que poderia me abrir mais para o grupo. Ao contrário da cidade, onde a norma, ao menos para mim, era nunca se expor sem necessidade, ali era um ambiente emocionalmente seguro, que funcionaria bem como um laboratório para lidarmos com questões pessoais.

Este assunto seria tratado dois dias depois, quando tivemos uma aula sobre a Janela de Johari. Conceito novo para mim, esta teoria divide o conhecimento sobre nós mesmos em quadrantes. Vale conferir:

Eu público: aquilo que eu conheço de mim mesmo e exponho aos demais.

Eu secreto: características minhas que opto por não mostrar para as pessoas.

Eu cego: os traços meus que são percebidos pelas pessoas que convivo, mas eu mesmo não percebo.

Eu escuro: o setor da minha personalidade que nem eu nem as pessoas com quem convivo já tiveram acesso.

O grande aprendizado desta teoria é a de que a maior exposição de nós mesmos, e a disponibilidade em ouvir o feedback das pessoas, são ações que ampliam o conhecimento sobre nós mesmos. Elas reduzem especialmente as áreas do eu cego e eu escuro.

Não por um acaso, ao conversar com os instrutores após o programa, eles comentaram que notaram diferença no meu comportamento após o terceiro dia. Sentiram que eu, aí sim, agia como um participante engajado no Feal, e não como alguém que estava lá apenas para tirar fotos e escrever um relato.

Bom, “decisão tomada”, seguimos caminhando rumo ao antigo curral que serviria de local de acampamento. Chegamos lá no fim da tarde, com tempo para armarmos rapidamente as barracas e corrermos para apreciar o belo pôr do sol.

Enquanto as meninas tomavam banho no rio, nós fomos ao mirante. De lá pudemos ver o vale da vargem e todas as altas montanhas ao seu redor. Nomeamos até o “morro do gavião”, que parecia uma ave, de costas para nós, voando rumo ao por do sol.

O quarto dia começou com uma novidade em nossas atividades. Cada um de nós teria que fazer uma apresentação sobre um assunto de nossa preferência. E quem abriu a agenda foi o João, que falou sobre sua paixão por andar de skate. O objetivo, no entanto, não era avaliar o conteúdo. Após sua fala, fomos estimulados a dar um retorno sobre a forma como ele apresentou o tema.

Feedback passado, terminamos de fechar as mochilas e começamos a caminhada do dia. Nosso destino era o que viríamos a batizar de Vale da Geada. Neste quarto dia, a liderança do grupo ficou com a Patrícia. Aliás, vale falar disso um pouco.

Todos os dias tínhamos um líder entre os participantes. A ele cabia zelar pela união do grupo, determinar pontos de parada e lanche e cuidar dos horários, entre outras funções. O objetivo era o mesmo das palestras: nos expor para depois obtermos feedback dos colegas. E ele era dado todas as noites, após o jantar.

Bom, este quarto dia foi de bastante caminhada. Estávamos sentindo o esforço de andar com tanto peso nas costas. Progredimos lentamente e terminamos a caminhada perto do horário do pôr do sol.

Foi o tempo assistir a segunda aula do dia, pegar água e montar as barracas. Já era noite e mais uma vez tivemos um jantar saindo tarde. O papo após a janta foi meio complicado, com a tensão entre alguns participantes crescendo. Havia queixas sobre a não participação de alguns nos trabalhos coletivos, como preparar comida e lavar a ouça. Mas o conflito ainda estava velado e fomos dormir perto da meia-noite.

Os próximos dias da nossa jornada você acompanha na terceira parte do relato.

RELATO: A natureza como escola – parte 1

RELATO: A natureza como escola – parte 1

Elas estão por toda as partes. Cruzamos por elas em vales, descampados, matas e platôs. As cercas, que há alguns anos limitavam as propriedades, perderam a utilidade com a criação do Parque Estadual da Serra do Papagaio. Hoje apenas compõem o cenário durante deslocamentos livres pela enorme área de vida silvestre.

Além de transitar por terras outrora restritas a cada um de seus donos, minha participação no programa Fundamentos da Educação ao Ar Livre, da Outward Bound Brasil (OBB), me levou a aprender sobre educação experiencial* e a romper barreiras internas e ampliar meu autoconhecimento. É sobre estas experiências que este e os próximos textos tratam.


Cheguei à base da OBB, em Campos do Jordão, em cima da hora. Havia dormido na casa do meu pai, em Taubaté, e nos atrapalhamos no momento da saída. Mas tudo bem, o grupo estava se preparando para a primeira atividade do curso: a conferência dos itens pessoais que cada um havia separado para passar 14 dias na natureza. Não era algo muito complicado, já que havíamos recebido uma lista com itens obrigatórios e opcionais. Porém, o minimalismo desta relação nos levou a querer levar mais coisas.

Segunda bermuda, quarta cueca, espuma de barba, shampoo e condicionador. Estes e outros tantos itens foram convidados a ficarem na base. A explicação era de que precisaríamos de espaço livre nas mochilas para carregarmos outros itens pessoais, como saco de dormir, e alguns coletivos, como barracas e alimentação.

Feita a limpa, fomos conhecer o cardápio. Pizza, estrogonofe, carne seca, arroz, feijão, legumes, tabule, frutas secas, pão sírio, pão de queijo, bolo de chocolate. Passaríamos bem longe do Miojo-com-enlatados que muitos acreditam ser a única comida possível em acampamentos.

As barracas eram quatro. Uma para os dois instrutores e três para os nove alunos. Nos dividimos em equipes meio no susto, sem saber absolutamente nada um do outro, e dividimos as partes das barracas. Afinal, já estava na hora de entrarmos na van para o deslocamento até a Serra do Papagaio, que fica no sul de Minas Gerais, não muito distante do Pico das Agulhas Negras (este já no Rio de Janeiro).

Após três horas de viagem, a van nos deixou na fazenda da dona Marieta, localidade do Ribeirão, em Pouso Alto. Como já estávamos no fim da tarde, caminhamos apenas o suficiente para encontrarmos um lugar plano para montarmos as barracas.

Hora de nos apresentarmos “oficialmente” ao grupo. Mas nada de “meu nome é Fábio, tenho 43 e sou jornalista”. Somos convidados a falarmos quem somos. Em muitos anos de atividades em grupos, esta foi a primeira vez que vi este pedido. Mas achei bacana. Afinal, quem estava ali para formar um grupo e conviver por 14 dias era a pessoa, com suas qualidades e defeitos. E aí teve “sou tímido”, “gosto de descobrir a verdade das coisas” e, de minha parte, “gosto de lidar com coisas novas”.

Fomos então às primeiras aulas. Coisa bem básica para quem vai passar dias na natureza: uma gota de purificador a cada 500 ml de água, louça limpa com o mínimo de sabão e sem o uso de esponja, carregar conosco todo o lixo, inclusive borra de café. Para mim, no entanto, a parte mais complicada foi aprender a fazer o “número 2” causando o mínimo impacto no ambiente.

Já tinha experiência em fazer cocô no mato, usando uma pazinha para cavar um buraco e enterrar as fezes. Mas para me limpar havia usado papel higiênico, que também se degrada, mas de forma mais lenta. Só que um grupo de 11 pessoas durante 14 dias causa um impacto consideravelmente maior na natureza, e a OBB optou por uma técnica de limpeza que usa folhas ou gravetos, em associação com um pingo de sabonete líquido.

E aí é que a coisa pegou. Durante os primeiros dois dias este foi um momento psicologicamente complicado para mim. Sempre ficava com a impressão que não tinha feito certo. Porém, com o passar do tempo isso foi se tornando natural e hoje tendo a manter isso nas próximas incursões na natureza. Pra quem quiser saber mais, o Blog da Escalada tem um ótimo artigo sobre o assunto.

Bom, a primeira noite foi relativamente tranquila. Dormi aliviado ao perceber que o isolante inflável, que havia se furado aqui em casa, estava segurando bem o ar após ter sido remendado. Apenas o latido constante de cães um canil nas proximidades incomodou um pouco. Mas sabia que seria o último sinal de “civilização” que veria em um bom tempo. Então nem atrapalhou tanto assim.

A preparação do café da manhã foi marcada para as 7h. Um bom indicador que, apesar de estarmos na natureza, não se tratava de férias. Conseguimos finalizar os preparativos e partirmos às 9h. Seria um dia relativamente curto, mas com muita subida. Era preciso “ganhar” a serra. E assim fomos, subindo, parando, nos acostumando com o peso nas costas, subindo, colocando esparadrapo no pé e curtindo o visual.

Em algumas horas chegamos ao Pico da Bandeira, com 1.930 metros. E poucas coisas são mais empolgantes que alcançar um pico após uma caminhada dura em um dia de céu aberto. Montanha! Ainda na empolgação da subida, começamos a montar acampamento. Logo percebemos que o descampado estava com o solo todo revirado. Segundo os instrutores, quem faz isso é o javali. Este animal, que não tem origem brasileira, se tornou uma praga em diversos estados, principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

Bastante agressivo, ele anda em grupos e gosta de comer tubérculos, como batata, cenoura e cebola. Também há registros de ataques a outros animais e a humanos. Não vimos nenhum durante a expedição, mas encontramos solo revirado em mais alguns lugares. De qualquer forma, a dica é subir em árvores para fugir de um ataque.

Dormimos no cume e a única bandeira que avistamos foi a “blupita”. Trata-se de uma flamula branca com a borda azul, utilizada por navios. Seu nome é um aportuguesamento de “Blue Peter”, pronunciado com sotaque britânico. Ela indica que a embarcação está pronta para sair. Mesmo significado da expressão Outward Bound, que dá nome à OBB. A bandeira foi carregada a cada dia por um de nós. Sempre presa na mochila, à vista de todos.

Sem cachorros, nem javalis, por perto, tivemos uma ótima noite de sono. Bom para nos prepararmos para as diversas atividades dos dias que viriam. Mas isso é assunto para a segunda parte do relato. Confira aqui.

* O termo educação experiencial começou a ser utilizado a partir das experiências educacionais de Kurt Hahn, fundador da Outward Bound, quando ao treinar jovens no manejo de veleiros para lapidar-lhes o caráter, fez a diferenciação entre o que seria o treinamento pelo mar (aprendizado de vida proporcionado pela experiência de velejar) contrapondo-o ao treinamento para o mar (aprendizado operacional das tarefas necessárias para velejar).