Acolhidos pela colônia: o relato

Pra quem quer um relato mais convencional, segue um apanhado das minhas anotações ao longo da viagem. Não fiz uma grande revisão nem dei um tratamento estilístico pro texto, mas dá pra ter uma ideia do que foram aqueles dias.

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Chegamos em Leoberto Leal tarde, lá pelas 11h, por causa da fila na BR-282. Decidimos começar pelo caminho maior, mas que tinha menos subida. Menos na extensão, porque a inclinação foi fortíssima para quem tinha começado a pedalar há menos de 10 minutos. Umas empuradas depois e já estamos descendo.

O Ricardo estava tão empolgado com o visual rural que resolveu comprar um lote. Sua blusa, presa no bagageiro, se soltou e travou a roda. Resultado: caiu na minha frente, em uma curva. Como estávamos relativamente devagar e ele finalizou com um rolamento de judô, não se machucou.

A fome bateu e comemos paramos para comer o lanche de queijo com salame que haviamos comprado na beira da estrada. Uma delícia!

Ao passarmos por uma pequena vila, pedimos água a uma senhora que estava pra fora de casa pendurando roupas no varal. Depois de nos servir uma boa duma água gelada, pergunta se lavar roupa era trabalho, portanto pecado. Afinal, era sexta-feira Santa.

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Subidas começam a ficar pesadas, e vai aparecendo um aperto no peito.

Chegamos a Taquaras, com seu posto simpático posto com cara da década de 1930. Perguntamos sobre a pousada Bauer, mas e ela era “lá em Rancho Queimado” . Ou seja, 10 km morro acima. Belo visual, com cachoeira. Mas o rio não era limpo o suficiente.

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Encaramos ainda mais 300 metros de subida acumulada. Ao menos estava servindo para encurtar as do dia seguinte.

Chegamos e fomos recebidos “em casa”. Apesar dos quatro cicloturistas terem virado dois, o sorriso não mudou. Banho e lanche farto, com geleias e bolos.  Depois fomos ver uma sapecada de pinhão, costume indígena de preparar pinhão na brasa. Decidirmos deixar os pinhões para a criançada que acompanhava tudo, mas achei interessante o processo.

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Finalmente consegui encontrar um sofá e relaxar. Foi a chave para sofrer uma câimbra fortíssima no adutor da coxa. Músculo muito difícil de alongar. Após a ajuda de um outro hóspede, consegui ao menos interromper a crise.

Foi quando me dei conta que a dor no peito que senti em todas as subidas do dia era, provavelmente, pressão alta. Tinha esquecido de tomar o remédio para a pressão naquela manhã. Como já me disseram outra vez, mais sorte que juizo.

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Após janta com sopa de galinha e peixe ensopado e frito. Fui para a cama. Bem aquecido e com um relaxante muscular, dormi cedo, antes do chá de arnica que a dona Laura havia me prometido.

Acordamos sem pressa e fizemos um baita café da manhã. Como iriamos ter um dia pesado, comemos sem dó. Na sequência, passei bastante arnica pela minha perna e a dona Laura Bauer vem me contar que é massagista… Olha, após a dedicação dela à minha coxa, fiquei zerado para encarar o segundo dia. É talentosa, com sensibilidade.

Ainda sem o Nando, que estava enrolado pra sair de Floripa, começamos descansados e empolgados com a bela manhã.

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Mais um pouco de subida e chegamos ao ponto mais alto, cruzamos a 282 e começam os condomínios de luxo. Ficamos andando nas alturas por um tempo e paramos para tirar algumas fotos e trocar boas ideias como só uma viagem de bicicleta permite.

Chega a tão esperada descida. De 1.100 para 550 metros, sendo a parte inicial na terra. No asfalto passamos por ciclistas subindo, que acenaram bem. Deveriam estar cansados  e com vontade de descer. rsrsrs.

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Nova e pesada subida, mas vencida de forma cada vez mais tranquila e sem dor no peito. No alto, paramos em uma gruta em homenagem a Santo Expedito. Lugar vazio e de muita paz, onde paramos para descansar.

Mais uma descida e chegamos logo a Anitápolis. Tinha esquecido como era pequena e simpática. A  “lanchonete” não fazia lanches, mas uma cliente nos indicou a outra, no outro lado da praça. Achávamos que estávamos perto da pousada e pedimos xegg e xbacon, com uma cerveja para cada. Porém, vimos o nome da pousada em nossas anotações e descobrimos que teríamos mais 13 quilômetros de estrada de terra, sendo 6 quilômetros de subida, logo de cara. Terminamos de comer, enquanto conversávamos com os caras da mesa ao lado. Tomei um energético e fomos de uma vez. Os 6 km se passaram com mais facilidade que o presvisto. Na subida, em mais um de seus causos, o Ricardo conseguiu bater de frente com uma moto. rsrsrs Ninguém ferido.

Disparou na decida e eu fiquei curtindo. Primeiro, a vista era para os paredões da serra, que imagino que seja de Urubici, depois, a mata atlântica preservada e muito próxima. O celular estava preparado para chuva, mas tirei várias fotos. Em uma curva me empolguei e fiz um vídeo.

Encontrei o Ricardo no fim da descida, sobre uma alta ponte. Logo depois encaramos uma subida curta, mas muito inclinada rumo à pousada. Estradinha mal feita, com pedaços planos e trechos com inclinação absurda. Em apenas uma rampa subimos 30 metros.

Logo chegamos a pousada Encantos da Serra. O Nando já nos aguardava. Dormindo. Acordamos o cidadão e pegamos a dica de uma cachoeira próxima. O Ricardo queira uma que desse para entrar. Eu não estava com esta vontade toda. Estava um pouco frio. O rio era bonito, mas parecia que não renderia uma bela cachoeira. Pouco acima, no entanto, achamos uma legalzinha. Não iria entrar, mas me empolguei com os dois e acabou sendo legal. Voltamos já sob chuva fraca. Nos arrumamos e fomos para a casa principal da pousada. Pedimos um vinho caro e meia boca e uma porção idem. Depois veio a janta, uma panqueca sem graça e uma sopa mais ou menos.

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Dormimos mal. Peguei a cama de casal, a única em que eu cabia. O Ricardo não dormiu nada, por causa do beliche pequeno.

Dia seguinte, arrumamos as coisas e fomos tomar café da manhã. Pagamos a diária mais cara da viagem e pegamos a estrada.

Com a companhia do Nando a dinâmica ficou mais arejada. Fizemos um caminho diferente, indicado pelo dono da pousada, para fugir da subida enorme. Foi uma ótima dica, com terreno muito plano e grandes áreas de mata. Quase nenhum movimento de carro nas estradas, que eram bem pequenas.

Paramos em uma igreja no alto de um pequeno morro. Igreja sem graça e com cemitério sinistro nos fundos. Lápides escuras, local estranho. Não tirei foto, mas deveria.

Nos deparamos com a igreja de Santa Catarina. Estrutura e cuidado impressionam para um vilarejo no meio do nada. Depois descobririamos que era a igreja de alvenaria mais antiga da cidade. Estava quase caindo, quando a Acolhida na Colônia, em associação com uma instituição americana, restaurou tudo. Segundo nos contaram, como para os gringos, a igreja católica é rica e não precisa de dinheiro, a propriedade precisou ser passada para a associação. A restauração deu muito certo e ela será devolvida para a igreja em um ou dois anos. Pena que estava fechada, o interior é pintado à mão.

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A chuva ia e vinha e logo chegamos ao “centro” de Santa Rosa de Lima. Claro, havia mais subida. Um pouco tranquila no começo e mais forte no final. Como estávamos informados, fomos na manha e chegamos à pousada Doce Encanto com alguma dignidade. Na hora do almoço. Nosso quarto ainda não estava pronto. A dona Leda conseguiu toalhas e ofereceu um banheiro para nos livrarmos da lama. Enquanto isso, todos os demais hóspedes acabaram de comer. Acabaram servindo o almoço apenas para nós. E que almoço! Arroz, feijão, farofa, carneiro no forno, sopa, salada, batata com brócolis, abóbora cozida e suco de limão galego. Será que esqueci de algo?

Com a chuva, ficamos de bobeira a tarde. Assistimos à vitória do São Paulo no Brasileirão. Há muito tempo eu não via um jogo inteiro do meu time. Foi legal achar o Fernando, um sãopaulino, pra comentar o jogo.

Papo, descanso e um vinho. Mais barato e melhor que o de Anitápolis. Depois veio o café-janta, com sopa de frango, virado de feijão com ovo frito, pão, salame e queijo, café, leite e suco.

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Como a chuva não parava, marcamos para o tio do Nando sair de Floripa e ir nos pegar logo cedo. Dormimos em meio a muitas risadas com vídeos da internet. Com o calor, tive um pesadelo e acabei dando um chute no ar, que quase acertou o Ricardo na outra cama. Susto grande, seguido de muitas risadas.

Boa noite de sono.

Acordamos cedo, vimos a reforma da casa dos donos da pousada, que passará a ter quatro novos quartos. Muito legal de ver a prosperidade em que eles estão imersos. Toamos mais um belo café e tivemos que descer para a cidade, nossa carona já estava lá.

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Bikes no carro e o resto é história, que fica passando na cabeça enquanto volto pra casa em uma tarde nublada de feriado.

 

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