RELATO: a natureza como escola – parte final

Esta é a quarta e última parte do relato da minha experiência no programa de Fundamentos da Educação ao Ar Livre (Feal), da Outward Bound Brasil (OBB), que participei em agosto de 2017. Confira a primeira, a segunda e a terceira partes.

Acordamos no nono dia sabendo que não haveria deslocamento. Tivemos duas ou três atividades logo pela manhã e fomos liberados para o banho no rio. Aí a “rádio corredor” já cantou a letra de que teríamos a experiência do solo. Mas o que era isso?

Fotos: Fábio almeida e João Teodósio

 

Basicamente, teríamos momentos para refletirmos sobre os aprendizados do Feal e, de alguma forma, conectá-los a nossas vidas. Para isso, iríamos nos afastar do grupo e buscar algum local interessante para o pernoite. Havia regras bem claras sobre o que poderia ou não ser levado.

Pois é. Não teríamos barraca, iriamos “bivacar” nesta noite. Esta é uma experiência que há tempos eu tinha vontade de ter, mas sempre faltou coragem. Naquele momento, no entanto, eu já estava muito a vontade na natureza. Nem mesmo as várias fezes de onça que vimos ao longo dos dias anteriores me preocupavam. Tinha a convicção que elas evitariam qualquer encontro.

Sem muita dificuldade, encontrei um morro para chamar de meu. Um degrau de pedra seria minha casa nas próximas horas. Como cheguei no fim da tarde, tratei de montar o abrigo rapidamente, para aproveitar a luz natural. Para isso, prendi a minha tarp em um arbusto, de um lado, e no bastão de caminhada, do outro.

Parece simples, mas não é muito, não. A parte de esticar a tarp envolveu enrolar as cordinhas em pedras pesadas, encher a mochila de pedras e amarrar a cordinha em raízes. Apesar da apreensão de fazer algo tão importante pela primeira vez, achei bastante divertido.

 

Montei o modelo inferior esquerdo, que permite observar as estrelas

 

A noite me pegou neste misto de preocupação e satisfação. Um pouco cansado, e sem muito mais o que fazer, peguei no sono logo. Acho que não era nem 19h.

Acordei no meio da noite. O vento tinha acalmado e as nuvens, sumido. Acima de mim, um maravilhoso céu estrelado. Ambiente perfeito para o que seria a materialização desta experiência: escrever uma carta para mim mesmo.

E ela começou com “Fabiolândia, agosto de 2017”. Mandei vários recados para este cara. Sem pressa alguma, fui analisando sucessos e fracassos da minha vida, lembrando de quem está comigo na batalha e refletindo sobre meus anseios.

Pra quem não gosta de escrever a mão, até que as três páginas foram preenchidas com facilidade. Processo concluído, peguei no sono novamente sem grande dificuldade.

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O décimo dia amanheceu e pouco tempo depois ouvi o longo apito que indicava a hora de voltarmos para o acampamento. A carta foi entregue aos instrutores e nos será enviada pelo correio, em algum momento próximo.

Com a turma menos falante, comemos um belo café da manhã, desmontamos tudo e partimos para o deslocamento do dia. Iriamos caminhar bastante, com uma navegação relativamente simples.

Porém, dois problemas atrasaram o dia. Primeiro, chegamos a uma longa área alagada, que exigiu vários “scouts” para encontrarmos uma rota alternativa. Mais pra frente, com pressa, erramos a navegação. Isso nos custou uma hora de iluminação natural em um dia bastante nublado. Com a chuva querendo se instalar, acabamos montando acampamento bem antes do objetivo do dia.

O local escolhido não era o ideal. Cheio de pequenas árvores e longe da água. No entanto, não demos muita bola. Com a divisão da turma em equipes, conseguimos fazer a janta com agilidade e nos liberarmos para descansar para o dia seguinte, que teria bastante caminhada.

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Partimos cedo para o 11° dia, que teria, além da caminhada “normal”, a subida ao Pico Santo Agostinho, ou do Garrafão, que fica a 2.359 metros sobre o nível do mar. Saímos do acampamento com chuva e fomos caminhando com a navegação bem clara em nossas cabeças. Sem maiores dificuldades, chegamos rapidamente à parte baixa, que não pertence ao parque e tem várias pequenas fazendas.

Os instrutores nos presentearam com um delicioso queijo parmesão fresco, comprado em uma casa próxima ao começo da subida para o pico. Paramos para um lanche bem calórico e iniciamos a subida.

Eu estava particularmente ansioso com este desafio. Picos me fascinam e assustam na mesma proporção. No começo da subida tratei mais uma vez de subir na frente, encarando a parede inicial com toda a energia que tinha no momento.

Com a chuva se instalando de vez, segui caminhando forte. O grupo foi ficando para trás, com paradas para descansar, arrumar bagagens e afins. Comigo na frente foram o Oliver e o Dan. Conforme íamos ganhando altitude o vento ficava mais forte e a chuva, mais constante. Percebemos que já não era uma boa pararmos para esperar o grupo. Com o corpo molhado, era parar e começar a tremer.

 

Subimos então direto ao pico, chegando lá sob forte chuva. A temperatura estava pouco acima de zero e tratamos de montar um abrigo da chuva e colher água enquanto esperávamos os demais. Em aproximadamente 20 minutos eles começaram a aparecer. Percebemos, no entanto, que havíamos parado no lugar o errado. O ponto de acampamento era cerca de 200 metros à frente.

Rapidamente nos mudamos para o local correto e iniciamos uma linha de produção. Uma grande tenda foi armada e sob ela as barracas eram montadas secas. Com as quatro armadas, corremos para colocarmos roupas quentes e secas.

Na natureza nada se perde.

E aí surgiu um problema para mim. Com a calça molhada do dia anterior, tinha caminhado neste dia com a segunda calça. E isso era tudo que eu tinha de calças. Até tentei usar a segunda pele com uma bermuda por cima. Mas o frio e a umidade estavam demais. Entrei na barraca para não mais sair neste dia.

A equipe soube compreender e me levaram a janta. Perdi, no entanto, a importante conversa sobre o espírito de equipena subida. Soube que algumas roupas sujas foram lavadas e eu também tinha umas peças. rsrsrs.

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Sem chuva nem vento. O 12° dia amanheceu tranquilo. O frio havia diminuído e eu consegui sair da barraca. Fizemos o café da manhã e a primeira aula do dia foi bem no alto, com a vista para todo o vale do Garrafão, 700 metros abaixo. Mais uma vez, não foi fácil manter a atenção só na exposição. E olha que o assunto era bem interessante: como foi construído o conceito “Não Deixe Rastros”, ou “Leave No Trace”.

E, quando achávamos que o bivaque e a subida sob chuva e frio tinham sido os grandes desafios do Feal, soubemos que havia mais um. E dos grandes. Os instrutores iriam se afastar e grupo deveria se autogerir até o dia seguinte. Isso incluiria navegação, definição de local de acampamento, alimentação e tudo mais, até nos encontrarmos com a van e os instrutores novamente.

Na bastasse isso, uma nuvem chegou, reduzindo a visibilidade a 10 ou 15 metros. Assim, partimos bastante apreensivos com a navegação. As referências visíveis eram poucas e muito parecidas entre si. Pouco tempo depois passamos reto por um ponto onde deveríamos virar à direita.

Mal dá pra ver, mas os pelinhos do dedo estavam congelados

Este erro banal custou várias idas e vindas do grupo em meio a um cenário cinza, frio e com chuva intermitente. Com a moral ameaçando cair, tratamos de manter a objetividade e entender de uma vez onde estávamos no mapa. Após quase duas horas de idas e vindas, reencontramos o caminho e fomos descendo rapidamente. Quando finalmente saímos de dentro da nuvem a sensação foi de alívio geral.

Chegamos no fim da tarde ao “Curralzinho”, que tinha sido nosso local de acampamento na terceira noite do Feal. Fizemos quase uma festa por estarmos em um lugar seguro, sem chuva e pela pizza que jantaríamos naquela noite. Deu bastante orgulho do grupo.

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Para o 13° dia tratei de me candidatar à liderança pela segunda vez. Já imaginava que seria um dia descomplicado para esta função. Bastava cuidar da navegação, que era um tanto quanto simples, e manter um bom ritmo de caminhada, pois ainda estávamos a 14 quilômetros do ponto de resgate.

E, mais uma vez, deu pra perceber o amadurecimento do grupo. Fomos caminhando em um astral leve. Soubemos alternar momentos de contemplação com piadas e músicas. Não nos perdemos em momento algum e iniciamos a grande descida até a van. Foram mais de 10 quilômetros perdendo altitude e utilizando tudo que os joelhos tinham a oferecer.

Sem maiores ocorrências, chegamos ao ponto de encontro com apenas 2:30 horas de atraso. Digo apenas porque a névoa do dia anterior tinha nos levado a acampar bem antes do que o ideal, e este último dia de expedição tinha ficado muito grande.

Hora de todos se abraçarem e se parabenizarem pelo sucesso no Feal. Curiosamente, achei esta festa menor que a da véspera. Acredito que sabíamos que o maior desafio desta etapa autônoma tinha sido mesmo a navegação dentro da nuvem.

A chegada da van. Até o camarada do do banco ficou feliz.

Em pouco tempo a van chegou e partimos de volta a Campos do Jordão. Estávamos tão cheirosos que a tentativa de ligar o ar condicionado foi abortada rapidamente. Era impossível fecharmos as janelas.

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Após um banho de chuveiro e uma estranha noite em uma cama, na base da OBB, acordei para o 14° e último dia. Nossa missão era pintarmos um grande muro da base. Para isso faríamos uma mistura de argila com cola branca, algo que eu nunca tinha ouvido falar.

Após umas duas horas, e um tanto sujos de novo, encerramos nossa derradeira missão. Fizemos uma bela macarronada, compramos algumas cervejas no mercado próximo e pudemos, enfim, relaxar.

No meio da tarde caminhei até o portal da cidade para encontrar meu pai. Havia uma pequena multidão por lá. Todos saiam correndo dos carros e ônibus, tiravam selfies e voltavam para suas capsulas. Estranho. Ainda bem que meu pai chegou logo e tomamos o rumo de Taubaté.

Do papo sempre bom com ele, comecei um grande momento de reflexão sobre tudo que tinha passado nas últimas semanas. Caminhada e acampamento na natureza são coisas muito boas. Mas o Feal tinha sido muito mais que isso. Pude fazer uma grande viagem dentro de mim mesmo. Me questionei e me afirmei em vários momentos. Presenciei momentos péssimos e fantásticos de outras pessoas. Fiz fortes elos com vários dos que participaram. E, como sempre acontece com coisas boas, me pergunto quando será a próxima.

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