RELATO: A natureza como escola – parte 3

Esta é a terceira parte do relato da minha experiência no programa de Fundamentos da Educação ao Ar Livre, da Outward Bound Brasil, que participei em agosto de 2017. Se você está chegando agora, confira a primeira e a segunda partes.

A liderança de equipes era um assunto complicado para mim. Tive algumas experiências boas e algumas ruins nesta posição ao longo dos anos, e andava evitando assumir novos encargos. Mas como o espírito do programa da OBB é o crescimento, decidi me candidatar a líder do grupo no quito dia. Eu tinha um assunto pessoal para trabalhar neste dia: a comunicação com os colegas.

Todo o peso da gravata de líder. Fotos: João Teodósio e Fábio Almeida.

E a comunicação já foi fundamental para que, apesar de termos nos atrasado com as primeiras aulas do dia, eu fizesse um acordo com os colegas para mantermos a programação para o banho de rio. Era algo que estávamos precisando. Não só pelo cheiro, mas também para espairecermos os conflitos.

E foi muito bom! Um rio com pequenas quedas e várias piscinas naturais só para nós. Água gelada na medida, para um dia que já estava quente desde cedo.

Bem mais leves, partimos para a caminhada perto do meio-dia. Curta e com bastante descida, a rota do dia foi boa para treinarmos um pouco de navegação. Com a turma caminhando sem muita distração, terminamos o deslocamento às 15:59h, um minuto antes da meta.

Ainda bem, pois esta era noite de pizza! Sim, fizemos pizza em um acampamento selvagem. Uma verdadeira linha de produção foi montada, com parte do grupo preparando a massa, outros cortando os ingredientes e os demais assando tudo em uma Fry-Bake e uma frigideira normal. Foi bastante trabalho, mas elas ficaram deliciosas e em quantidade para empanturrar a todos.

Com palavras gentis dos colegas sobre a minha liderança, terminei o dia aliviado. A comunicação, na base do “o combinado não sai caro”, funcionou muito bem. Percebi que, tomando cuidado com as minhas já conhecidas falhas, dá sim para fazer um trabalho bacana de liderança.

**

Vamos ou ficamos? O dia começou com a dúvida se o reabastecimento chegaria a tempo para fazermos a caminhada prevista. Esta incerteza deu esperança para alguns, que, já cansados dos dias anteriores imaginavam se ao longo do curso teríamos um dia sem deslocamento.

Mas o reabastecimento chegou, a comida foi redistribuída e nós partimos para a caminhada do dia. A perspectiva era de uma rota dura, com bastante subida e um longo trecho sem trilha demarcada no mapa.

Em pouco tempo vencemos o primeiro morro. Uma paradinha na sombra e logo partimos para o segundo. Já sem trilhas no mapa, a navegação do grupo começou sob a responsabilidade do líder Oliver. Aos poucos, no entanto, outros começaram a debater as opções e participar das decisões.

“Brilhante”, foi como o Helder, um instrutores, viria a definir a nossa navegação naquele dia. Porém, não bastava apenas definir caminhos. Com as mochilas mais pesadas do que nunca, alguns sentiram dificuldades com o passar dos morros.

O ritmo foi lento e, como começamos tarde, chegamos ao destino com os últimos raios de sol. Neste momento o grupo foi tomado por um mix de emoções. O João corria pelos campos, a Bianca abraçava a todos e o Oliver criava uma força-tarefa para buscar água.

Já no escuro, e com a mediação do Helder, percebemos que já chegamos com água suficiente para o nosso consumo naquela noite. Pôde prevalecer, então, a sensação da conquista. Aliviados, montamos as barracas e fizemos uma “reunião” de 10 pessoas dentro de uma única tenda para 4. Até o Michel, também nosso instrutor, se jogou, contagiado por nossa energia.

Como disse a Patrícia, em uma música criada na hora, foi um “dia lindo pra viver. Aqui na serra do papagaio eu só tenho a agradecer”.

Ainda com tempo bastante aberto, no sétimo dia fizemos uma longa caminhada pela crista de duas serras. Apesar da belíssima vista, foi uma caminhada muito dura, seja pelo sol constante, seja pela longa distância, seja pelas mochilas cheias.

Sem muita filosofia, nos esforçamos em manter o ritmo e cumprirmos o deslocamento do dia. Neste esforço, cometemos duas imprudências: almoçamos expostos ao sol, sem conseguirmos relaxar, e fomos em direção a um grande erro de navegação, que iria nos custar horas para desfazer. Foi um dos poucos momentos em que os instrutores precisaram interferir mais fortemente.

Bom, etapa vencida, fomos para o alto de um pequeno morro para a aula que falava muito sobre tudo que o grupo vinha passando e ainda iria a passar: fundamentos da educação experiencial. Muito bacana entender um pouco do funcionamento do curso que estávamos passando e ter contato com outras ferramentas disponíveis.

Pena para o Helder, que deu a aula, pois estávamos exaustos e, atrás dele um pôr do sol fantástico se exibia lentamente. Montanhas douradas ao longe e um balé de andorinhas. Não foi fácil para ele competir.

**

Na manhã do oitavo dia um pico de tensão eclodiu no grupo. Um dos integrantes não saiu da barraca para ajudar na preparação do café. Assim como não tinha participado dos trabalhos da janta no dia anterior. E como vinha se desviando de lavar a louça em todas as refeições.

Vários foram à barraca conversar com ele. Tentar ouvir suas razões e argumentar sobre a importância do trabalho de cada um para o grupo. Mas não houve mudança. Outro, já não tão paciente, foi lá “resolver” a questão. Provocar para ser respondido. Mas nem assim.

Aos poucos o grupo foi deixando este caso de lado e seguindo com a arrumação para o café da manhã. Aos poucos o episódio foi sendo processado. Mais tarde, ficou assim registrado no diário do grupo.

“Hoje abri o saco de dormir de um colega. Ali dentro, um corpo. O frágil corpo de um homem. Qual o próximo passo? Me contive, retrocedi. Vamos buscar outro caminho. Em grupo. Andar junto. Viver junto. É um compromisso que assumimos em 11 pessoas. Nenhum problema é só individual.”

Bom, a caminhada foi mais uma vez dura. Começamos com uma forte subida, sem trilha demarcada. Mas pelo menos eu estava descansado. Na noite anterior caí na barraca logo após cumprir minhas obrigações com o grupo, dormindo uns 40 minutos mais cedo que o restante dos colegas.

Com esta disposição para caminhar, e confiança na minha navegação, fui seguindo o dia à frente do grupo. Era eles chegarem e eu já partia para o próximo trecho. Apesar de energizado, eu não queria muito papo. O caminhar contemplativo estava muito bom e a falação dos demais estava atrapalhando isso.

Cheguei a comentar com o Helder que sentia a necessidade de um momento de introspecção para processar tudo que vinha passando desde o começo do curso. Ainda não podendo comentar sobre o nosso próximo, ele apenas consentiu.

Mal sabia eu que, nos próximos dias, eu iria dormir em bivaque, encarar uma temperatura baixíssima com chuva e vento, e ter que navegar por horas sem qualquer referência visual. Mas estes são assuntos para a quarta e última parte do relato. Confira agora!

3 comentários em “RELATO: A natureza como escola – parte 3

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *