RELATO: A natureza como escola – parte 2

Esta é a segunda parte do relato da minha experiência no programa de Fundamentos da Educação ao Ar Livre, da Outward Bound Brasil, que participei em agosto de 2017. Confira a primeira parte aqui.

O terceiro dia começou com um belo nascer do sol no Pico da Bandeira. Ainda com a boa sensação da conquista da montanha no dia anterior, curtimos bastante o café da manhã. Tempo de batermos fotos e, nos papos, irmos nos conhecendo melhor.

Quase não percebemos o tempo passando e acabamos nos atrasando um pouco para a primeira aula do dia, que foi sobre navegação por mapa e bússola. Orientação para o norte, escala, curvas de nível. Nada disso era novidade para mim, graças ao curso de guia de turismo que fiz no IFSC.

Fotos: Fábio Almeida e João Teodósio

Mas aprender a utilizar a bússola para a navegação, em conjunto com mapa, era um desejo antigo. E daí tive contato com conceitos como azimute, declinação magnética e outros. O curioso é que, na aula, nada é complicado. São conceitos de lógica bem simples, mas que precisam de bastante prática para serem assimilados. E eu iria perceber isso com clareza em alguns dias.

Neste terceiro dia, no entanto, a ordem era guardarmos tudo nas mochilas após a aula, para partirmos para o próximo ponto de acampamento. Conseguimos sair às 11h. Já um pouco tarde, mas ainda normal para quem está pegando o embalo da viagem.

Foi uma caminhada de muito sol, mas sem maiores esforços físicos. Fomos descendo do pico pelas cristas dos morros, cruzando pequenas matas e curtindo o visual. Ao longo do caminho, os papos foram ficando mais interessantes também. Poder e economia global, estilo de vida saudável e outros tantos assuntos passaram pelas trilhas do dia.

E durante este caminhar relaxado, fui me dando conta de que poderia me abrir mais para o grupo. Ao contrário da cidade, onde a norma, ao menos para mim, era nunca se expor sem necessidade, ali era um ambiente emocionalmente seguro, que funcionaria bem como um laboratório para lidarmos com questões pessoais.

Este assunto seria tratado dois dias depois, quando tivemos uma aula sobre a Janela de Johari. Conceito novo para mim, esta teoria divide o conhecimento sobre nós mesmos em quadrantes. Vale conferir:

Eu público: aquilo que eu conheço de mim mesmo e exponho aos demais.

Eu secreto: características minhas que opto por não mostrar para as pessoas.

Eu cego: os traços meus que são percebidos pelas pessoas que convivo, mas eu mesmo não percebo.

Eu escuro: o setor da minha personalidade que nem eu nem as pessoas com quem convivo já tiveram acesso.

O grande aprendizado desta teoria é a de que a maior exposição de nós mesmos, e a disponibilidade em ouvir o feedback das pessoas, são ações que ampliam o conhecimento sobre nós mesmos. Elas reduzem especialmente as áreas do eu cego e eu escuro.

Não por um acaso, ao conversar com os instrutores após o programa, eles comentaram que notaram diferença no meu comportamento após o terceiro dia. Sentiram que eu, aí sim, agia como um participante engajado no Feal, e não como alguém que estava lá apenas para tirar fotos e escrever um relato.

Bom, “decisão tomada”, seguimos caminhando rumo ao antigo curral que serviria de local de acampamento. Chegamos lá no fim da tarde, com tempo para armarmos rapidamente as barracas e corrermos para apreciar o belo pôr do sol.

Enquanto as meninas tomavam banho no rio, nós fomos ao mirante. De lá pudemos ver o vale da vargem e todas as altas montanhas ao seu redor. Nomeamos até o “morro do gavião”, que parecia uma ave, de costas para nós, voando rumo ao por do sol.

O quarto dia começou com uma novidade em nossas atividades. Cada um de nós teria que fazer uma apresentação sobre um assunto de nossa preferência. E quem abriu a agenda foi o João, que falou sobre sua paixão por andar de skate. O objetivo, no entanto, não era avaliar o conteúdo. Após sua fala, fomos estimulados a dar um retorno sobre a forma como ele apresentou o tema.

Feedback passado, terminamos de fechar as mochilas e começamos a caminhada do dia. Nosso destino era o que viríamos a batizar de Vale da Geada. Neste quarto dia, a liderança do grupo ficou com a Patrícia. Aliás, vale falar disso um pouco.

Todos os dias tínhamos um líder entre os participantes. A ele cabia zelar pela união do grupo, determinar pontos de parada e lanche e cuidar dos horários, entre outras funções. O objetivo era o mesmo das palestras: nos expor para depois obtermos feedback dos colegas. E ele era dado todas as noites, após o jantar.

Bom, este quarto dia foi de bastante caminhada. Estávamos sentindo o esforço de andar com tanto peso nas costas. Progredimos lentamente e terminamos a caminhada perto do horário do pôr do sol.

Foi o tempo assistir a segunda aula do dia, pegar água e montar as barracas. Já era noite e mais uma vez tivemos um jantar saindo tarde. O papo após a janta foi meio complicado, com a tensão entre alguns participantes crescendo. Havia queixas sobre a não participação de alguns nos trabalhos coletivos, como preparar comida e lavar a ouça. Mas o conflito ainda estava velado e fomos dormir perto da meia-noite.

Os próximos dias da nossa jornada você acompanha na terceira parte do relato.

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