RELATO: A natureza como escola – parte 1

Elas estão por toda as partes. Cruzamos por elas em vales, descampados, matas e platôs. As cercas, que há alguns anos limitavam as propriedades, perderam a utilidade com a criação do Parque Estadual da Serra do Papagaio. Hoje apenas compõem o cenário durante deslocamentos livres pela enorme área de vida silvestre.

Além de transitar por terras outrora restritas a cada um de seus donos, minha participação no programa Fundamentos da Educação ao Ar Livre, da Outward Bound Brasil (OBB), me levou a aprender sobre educação experiencial* e a romper barreiras internas e ampliar meu autoconhecimento. É sobre estas experiências que este e os próximos textos tratam.


Cheguei à base da OBB, em Campos do Jordão, em cima da hora. Havia dormido na casa do meu pai, em Taubaté, e nos atrapalhamos no momento da saída. Mas tudo bem, o grupo estava se preparando para a primeira atividade do curso: a conferência dos itens pessoais que cada um havia separado para passar 14 dias na natureza. Não era algo muito complicado, já que havíamos recebido uma lista com itens obrigatórios e opcionais. Porém, o minimalismo desta relação nos levou a querer levar mais coisas.

Segunda bermuda, quarta cueca, espuma de barba, shampoo e condicionador. Estes e outros tantos itens foram convidados a ficarem na base. A explicação era de que precisaríamos de espaço livre nas mochilas para carregarmos outros itens pessoais, como saco de dormir, e alguns coletivos, como barracas e alimentação.

Feita a limpa, fomos conhecer o cardápio. Pizza, estrogonofe, carne seca, arroz, feijão, legumes, tabule, frutas secas, pão sírio, pão de queijo, bolo de chocolate. Passaríamos bem longe do Miojo-com-enlatados que muitos acreditam ser a única comida possível em acampamentos.

As barracas eram quatro. Uma para os dois instrutores e três para os nove alunos. Nos dividimos em equipes meio no susto, sem saber absolutamente nada um do outro, e dividimos as partes das barracas. Afinal, já estava na hora de entrarmos na van para o deslocamento até a Serra do Papagaio, que fica no sul de Minas Gerais, não muito distante do Pico das Agulhas Negras (este já no Rio de Janeiro).

Após três horas de viagem, a van nos deixou na fazenda da dona Marieta, localidade do Ribeirão, em Pouso Alto. Como já estávamos no fim da tarde, caminhamos apenas o suficiente para encontrarmos um lugar plano para montarmos as barracas.

Hora de nos apresentarmos “oficialmente” ao grupo. Mas nada de “meu nome é Fábio, tenho 43 e sou jornalista”. Somos convidados a falarmos quem somos. Em muitos anos de atividades em grupos, esta foi a primeira vez que vi este pedido. Mas achei bacana. Afinal, quem estava ali para formar um grupo e conviver por 14 dias era a pessoa, com suas qualidades e defeitos. E aí teve “sou tímido”, “gosto de descobrir a verdade das coisas” e, de minha parte, “gosto de lidar com coisas novas”.

Fomos então às primeiras aulas. Coisa bem básica para quem vai passar dias na natureza: uma gota de purificador a cada 500 ml de água, louça limpa com o mínimo de sabão e sem o uso de esponja, carregar conosco todo o lixo, inclusive borra de café. Para mim, no entanto, a parte mais complicada foi aprender a fazer o “número 2” causando o mínimo impacto no ambiente.

Já tinha experiência em fazer cocô no mato, usando uma pazinha para cavar um buraco e enterrar as fezes. Mas para me limpar havia usado papel higiênico, que também se degrada, mas de forma mais lenta. Só que um grupo de 11 pessoas durante 14 dias causa um impacto consideravelmente maior na natureza, e a OBB optou por uma técnica de limpeza que usa folhas ou gravetos, em associação com um pingo de sabonete líquido.

E aí é que a coisa pegou. Durante os primeiros dois dias este foi um momento psicologicamente complicado para mim. Sempre ficava com a impressão que não tinha feito certo. Porém, com o passar do tempo isso foi se tornando natural e hoje tendo a manter isso nas próximas incursões na natureza. Pra quem quiser saber mais, o Blog da Escalada tem um ótimo artigo sobre o assunto.

Bom, a primeira noite foi relativamente tranquila. Dormi aliviado ao perceber que o isolante inflável, que havia se furado aqui em casa, estava segurando bem o ar após ter sido remendado. Apenas o latido constante de cães um canil nas proximidades incomodou um pouco. Mas sabia que seria o último sinal de “civilização” que veria em um bom tempo. Então nem atrapalhou tanto assim.

A preparação do café da manhã foi marcada para as 7h. Um bom indicador que, apesar de estarmos na natureza, não se tratava de férias. Conseguimos finalizar os preparativos e partirmos às 9h. Seria um dia relativamente curto, mas com muita subida. Era preciso “ganhar” a serra. E assim fomos, subindo, parando, nos acostumando com o peso nas costas, subindo, colocando esparadrapo no pé e curtindo o visual.

Em algumas horas chegamos ao Pico da Bandeira, com 1.930 metros. E poucas coisas são mais empolgantes que alcançar um pico após uma caminhada dura em um dia de céu aberto. Montanha! Ainda na empolgação da subida, começamos a montar acampamento. Logo percebemos que o descampado estava com o solo todo revirado. Segundo os instrutores, quem faz isso é o javali. Este animal, que não tem origem brasileira, se tornou uma praga em diversos estados, principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

Bastante agressivo, ele anda em grupos e gosta de comer tubérculos, como batata, cenoura e cebola. Também há registros de ataques a outros animais e a humanos. Não vimos nenhum durante a expedição, mas encontramos solo revirado em mais alguns lugares. De qualquer forma, a dica é subir em árvores para fugir de um ataque.

Dormimos no cume e a única bandeira que avistamos foi a “blupita”. Trata-se de uma flamula branca com a borda azul, utilizada por navios. Seu nome é um aportuguesamento de “Blue Peter”, pronunciado com sotaque britânico. Ela indica que a embarcação está pronta para sair. Mesmo significado da expressão Outward Bound, que dá nome à OBB. A bandeira foi carregada a cada dia por um de nós. Sempre presa na mochila, à vista de todos.

Sem cachorros, nem javalis, por perto, tivemos uma ótima noite de sono. Bom para nos prepararmos para as diversas atividades dos dias que viriam. Mas isso é assunto para a segunda parte do relato. Confira aqui.

* O termo educação experiencial começou a ser utilizado a partir das experiências educacionais de Kurt Hahn, fundador da Outward Bound, quando ao treinar jovens no manejo de veleiros para lapidar-lhes o caráter, fez a diferenciação entre o que seria o treinamento pelo mar (aprendizado de vida proporcionado pela experiência de velejar) contrapondo-o ao treinamento para o mar (aprendizado operacional das tarefas necessárias para velejar).

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