RELATO: Bikepacking na Serra da Garganta

Salve, salve!

Há uma semana matei três vontades minhas: experimentar o bikepacking, conhecer a Serra da Garganta e fazer um acampamento selvagem. Junto com amigos e colegas fomos de carro até a cidade de Águas Mornas, a 40 quilômetros de Florianópolis. Assim, pudemos evitar todo o trânsito chato para atravessar São José e Palhoça. Já começamos a pedalar subindo forte, por um caminho de terra que corta um bom trecho da BR-282 e já nos deixa perto da entrada para a estrada de São Bonifácio.

Apesar de curta, esta subida foi uma boa amostra de que o dia não seria fácil. Já no meio dela estava bem ofegante, controlando o ritmo para chegar ao final. Logo em seguida seguimos por um trecho bom de asfalto com pouco movimento e uma suave subida. A medida certa para retomar o fôlego para a segunda subida do dia, a do Rio Miguel. Ali foram mais sete quilômetros variando entre a última e a penúltima marchas disponíveis. Ao menos é uma estrada bem construída, com inclinação constante, e com muita mata em volta.

De volta ao asfalto, pegamos a estrada para Anitápolis, onde mais uma subida nos aguardava. Apesar de mais curta, com apenas dois quilômetros, esta era bastante inclinada, chegando a atingir 18 graus em seu trecho final. Atingimos ali o ponto mais alto do dia, com 983 metros. Nesta região,  a mata atlântica já começa a se encontrar com alguns campos de altitude e as araucárias aparecem por todos os lados. E lá também começamos uma longa descida, entrando pelo vale do Rio Branco.

Foram nada menos que 16 quilômetros morro abaixo, com uma parada rápida para comer um lanche e esquentar o corpo após tanto tempo parado sobre a bike. De volta à cota dos 580 metros de altitude, iniciamos a subida da Serra da Garganta propriamente dita. A estrada começa boa, com alguma manutenção feita pelos proprietários de sítios e pequenas fazendas da região. O piso, na maior parte do tempo, é calçado por pedras de rio. Conforme fomos subindo, a estrada foi se tornando mais fechada, com o menor uso as pedras passaram a ter limo.

Ali começou o que para muitos seria uma roubada: pedalar uma bike pesada em longas subidas de piso escorregadio. Por outro lado, pude bater bons papos, curtir a natureza e meditar em momentos de silêncio. Nem vi passar a uma hora que levamos para chegar na clareira onde acampamos. Ajudou muito a preparação física que venho fazendo para a travessia dos Pirineus, que faremos em maio de 2018. Não senti absolutamente nenhuma dor ou câimbra nos músculos.

Uma vez encerrado o pedal, não havia tempo para a contemplação. Era a hora de montar as barracas, tomar banho de rio e preparar as coisas para a noite que já se aproximava. Como estava bastante frio, fizemos também uma fogueira com alguns galhos secos que encontramos na área. Tomamos o cuidado de criar uma cama de pedra para a fogueira. E ela nos permitiu cozinharmos nossa janta com tranquilidade, enquanto a temperatura se aproximava de zero. O Daniel ainda nos surpreendeu com bifes de contrafilé, linguiça, queijo coalho, batata e cebola. Como disse o Luciano, tivemos uma noite na churrascaria. Boas risadas e alguns vinhos depois, fomos dormir sob uma enorme lua cheia.

O domingo amanheceu preguiçoso, com o Luciano tocando em seu celular a música que se tornaria a trilha da viagem: No duermas más, da banda argentina Sumo. Aos poucos fomos tomando o café da manhã, desmontando as barracas e empacotando tudo de volta. Partimos sem pressa, tirando fotos e filmando a todo o momento. O roteiro do dia previa um trecho inicial bem acidentado, seguido de longas descidas e uma subida curta, mas forte, perto do fim.

Rapidamente chegamos ao marco da batalha da garganta, onde em 1930 soldados gaúchos e catarinenses se enfrentaram em um episódio sangrento. Segundo registros, oito combatentes perderam a vida ali. Hoje o que resta é uma cruz de madeira e duas placas. Curioso notar que em uma delas a frase “Tropas do RS vencem legalistas catarinenses” teve parte apagada, ficando “Tropas legalistas catarinenses”.

 

A partir de lá, começamos a descer a serra pelo outro lado, com vários rios atravessando a estrada de terra. Com valas, limo e pedras, a descida foi um bom teste para as técnicas de controle da bicicleta. Também ali, pude perceber que este tipo de descida, que se faz “de pé” na bicicleta, exige um treinamento físico específico, com exercícios isométricos. Já comecei, inclusive, a trabalhar nisso com a Suzana, minha educadora física para o projeto dos Pirineus.

De volta à descida, em pouco tempo começamos a ver sítios e rapidamente chegamos ao asfalto da estrada que liga São Bonifácio à BR-282. Paramos na comunidade de Teresópolis para um lanche mais reforçado, quase um almoço. Com um pouco de preguiça, partimos para encarar a subida final, que tem cerca de um quilômetro e trechos com inclinação de até 21%. Mas, depois de tanta subida, esta acabou sendo superada sem maiores traumas. Bastou então descermos de volta até a casa do Vinícius e da Naiara, onde havíamos deixado os carros.

Na volta para Floripa, me lembrava das minhas primeiras viagens de bicicleta, ainda na década de 1980. Do alto de nossos 14 anos, eu, o meu irmão Eduardo e colegas da rua pedalávamos de São José dos Campos para o distrito de São Francisco Xavier, onde subíamos a Serra da Mantiqueira para acampar no meio do mato. Resguardadas as diferenças de idade e equipamentos utilizados, esta viagem foi uma agradável volta ao tempo em que os termos cicloturismo e bikepacking ainda não haviam sido forjados. Mas já se viajava para curtir os amigos e a natureza. E, independentemente do nome, é bom poder refazer estes programas hoje. Que venham os próximos!

14 comentários em “RELATO: Bikepacking na Serra da Garganta

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  • junho 19, 2017 em 6:52 pm
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    Parabéns por esse belíssimo rolê! Ótimo relato, belas fotos! Caraca, subidas para todos os gostos hein parceiro? Mas esse acampamento selvagem com fogueira e churrasco é de dar inveja ao mais aventureiro cicloviajante!
    Mega cicloabraço!

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    • junho 20, 2017 em 9:32 am
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      Sabia que irias gostar da aventura, meu amigo. Bicicleta, camping e natureza, não tem como desagradar. rsrs. Grande abraço!

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  • junho 19, 2017 em 9:26 pm
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    Baita aventura e ótimo relato. Parabéns!!
    To querendo embarcar numa dessa.
    🙂

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    • junho 20, 2017 em 9:33 am
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      Legal que gostou! Haverá outras, é só chegar!

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  • junho 20, 2017 em 11:05 pm
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    Oi, Cicloturista destemido!
    Admirável a aventura e muito bem relatada. É envolvente, dando-me a impressão de que estou vivenciando prazeres das belezas naturais. Estimula a me libertar das amarras do cotidiano. É profundamente terapêutico. Sucesso e grande abraço.

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    • junho 23, 2017 em 1:58 pm
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      Olá, Leo. Muito legal receber a sua mensagem. Vou ver a sua aventura e comento por lá. Abraço e inscreva-se para receber nossas novidades 🙂

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  • junho 21, 2017 em 11:20 pm
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    Fantástica jornada, muita diversão e desafio, contato mais que direto com a natureza, grato por compartilhar!

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    • junho 23, 2017 em 1:59 pm
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      Valeu, Felipe. Quem sabe vc nos acompanha numa próxima? Abração!

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      • junho 23, 2017 em 3:09 pm
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        Farei o possível, seria muito legal Fabio!

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