RELATO: dez dias no Jalapão

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Antes de ter percorrido boa parte da Chapada Diamantina, a Vivi Mar já havia pedalado em outro santuário brasileiro: o Jalapão. Com o sucesso do seu relato pelo interior da Bahia, resolvi puxar pro Pedal Nativo as fotos e o diário de bordo da expedição por Tocantins. Mais uma vez, obrigado por autorizar a reprodução, Vivi. Você já é de casa.

Banho de rio, sol, chuva, vento, vilarejos, comunidades, cachoeiras, acampamentos, amigos, bicicleta, espírito de equipe, gratidão, receptividade dos moradores, esforço físico extremo com o calor de 45º e paisagens de tirar o fôlego. E foi assim que passamos este final de ano… pedalando 535km pelo deserto do Jalapão no Tocantins em busca do Perrengue Supremo, rsrs.
Local considerado deserto não só pela paisagem, mas também pela ausência de pessoas durante longas distâncias.

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E foi só lançar a idéia de pedalar pelo Jalapão que alguns amigos se interessaram. Tivemos algumas semanas para programar um roteiro, treinar um pouco (bem pouco, rs) e pensar em cardápios nutritivos, afinal, a idéia era uma cicloviagem auto-suficiente, sem carro de apoio. Iríamos carregar todo o equipamento, fogareiro, barraca, gás, isolante térmico, roupas, agua, e mantimentos para café da manhã, almoço e jantar para todos os dias.

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Saímos de SP dia 20/12 Vivi, Fábio, Monica e Andre. E em Americana encontramos com os demais integrantes Meire, Bruno e Getulio que veio do Paraná para seguir com a gente.
Fizemos uma parada para pernoite em Padre Bernardo, revezamos os motoristas, e seguimos em frente.

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No dia seguinte chegamos em Ponte Alta, uma das portas de entrada para o Jalapão. A cidade não correspondeu com nossas expectativas. Apesar de pequena e simpática com moradores amáveis, vários carros disputavam o som do Arrocha mais alto, a cidade não estava muito agradável aos ouvidos. Assim como na estreita ponte os motoqueiros disputavam agilidade. Tratamos de aprontar as bikes, deixamos os carros no estacionamento de uma pousada (gratuitamente) e caímos na estrada iniciando a pedalada no dia seguinte no horário mais indicado, rs, quase meio dia, rs.

Dia 1 – 22/12
Ponte Alta x Lagoa Azul

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O dia amanheceu nublado para nossa sorte, mas o mormaço permanecia. Iniciamos a pedalada quase ao meio dia.
15km pedalamos sem nenhum esforço chegamos na gruta, o 1º ponto d´agua. Fizemos uma longa parada.
Logo neste início o alforge do André quebrou. Arrebentou a alça (marca Curtlo). Improvisamos com enforca gato.
Choveu e a terra daquele ultimo trecho ficou pegajosa, fizemos esforço de subida em estrada plana, não rendeu a pedalada da tarde.
Nosso ponto de acampamento para hoje era o rio vermelho mas passamos por uma bifurcação a esquerda com a placa “Lagoa Azul a 6,5km” e optamos por não perder os atrativos locais. Conhecemos um morador da Lagoa que disse que sua família não se incomoda de receber visitantes e tocamos pra lá. A lagoa é pequena, não é azul, rs, e não é um bom ponto para se banhar pois é região de brejo. Mas foi um ótimo repouso com céu estrelado. A família nos recebeu muito bem, a estrada de desvio era boa, estava melhor do que a principal e quase toda plana. Acampamos numa antiga escola, tinha banheiro com chuveiro. Não cobraram nada para acampar, mas é bom deixar algum alimento, ou algo para ajudá-los. Fazem óleo e doces de buriti. Pedalamos aproximadamente 47km hoje. Mas a melhor opção é seguir direto até o Rio Vermelho mesmo.

Dia 2 – 23/12
Lagoa Azul x Rio Vermelho x Abrigo Pablo Escobar

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A pedalada começou com muito mormaço e sol entre as nuvens. Torcemos para chover e tirar aquele abafado. Choveu, mas não o suficiente. A chuva mais forte estava mais adiante.
Passamos pelo Rio Vermelho, e quilômetros depois com algumas subidas pegamos a bifurcação à esquerda, rumo a Cachoeira da Velha.
São 20km de desvio até lá, em uma estradinha reta sem visual, com alguns trechos de areia batida, outros trechos de cascalho solto, e alguns trechos de areia mais úmida que exigia mais força no pedal. Acho que tudo depende da chuva/sol do dia. Nos últimos 10km resolvi apressar a pedalada até o ponto de chegada, e devido as “costelinhas” do caminho, a bike ‘quicou’ demais e quebrou o meu bagageiro.
Chegamos numa fazenda e o morador Guilherme nos atendeu muito bem, e nos recebeu com agua gelada. Aliás, a Monica entregou uma foto ao Guilherme que levou a pedido da Michele e do Artur, casal que fez este roteiro de cicloviagem tempos atras, e numa atitude de gratidão enviaram fotos das pessoas mais que especiais daquela região. No decorrer da viagem foram entregues todas as fotos.
Acampamos gratuitamente na antiga pousada jalapão, que é um abrigo de viajantes desde que proibiram acampamento na cachoeira da Velha. Preparamos nosso jantar especial com carne, costelinha, arroz, feijão e farofa.

Dia 3 – Noite de Natal.
Abrigo x Cachoeira da Velha x Prainha x Prainha Cariocas Seu Antonio

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Acordei e fiz uma gambiarra no meu bagageiro com uma tala com esparadrapo, e enforca gato para dar sustentação.
Pedalamos 9km até a Cachoeira da Velha que é gigante + 1 km até a Prainha. Vale a pena. Ida e volta para a cachoeira 20km+ 20 km para voltar até a bifurcação.
Muito sol, muito muito muito sol. Esse dia conhecemos os 45 graus do jalapão, e como passamos a manhã na cachoeira/prainha saímos oficialmente para pedalar ao meio dia, com o sol fritando os miolos.
Pedalamos o dia todo nos arrastando por trechos de areia fofa, empurrando bicicleta pesada, e outros trechos pedaláveis, com o sol esgotando nossas energias. Já no final da tarde o Guilherme cruzou com a gente no caminho e disse que tinha 2 noticias. Uma ruim e outra boa. A ruim é que depois de terminado este trecho, chegaríamos no rio, e ainda teríamos 9km empurrando a bike até a Prainha, já que a areia estava fofa. Aff. A boa é que ele tinha cervejas geladas no carro e trouxe para nós a pedido da Meire/Bruno. Ufa.
Relaxamos para nos refrescar, e depois aceleramos a pedalada até a bifurcação que desce para a Prainha Cariocas. Foram 9km até lá, alguns trechos pedaláveis no começo, e depois empurrando a bike no escuro. Chegamos por volta de 20hs no local. O Seu Antonio é muito gente boa, bom de papo, uma simpatia de pessoa. O seu camping é super limpo, muito bem estruturado, acampamos na beira do rio. Mas diferentemente dos demais pontos de acampamento, este acampamento foi pago, e bem caro. R$20,00 o camping + 5,00 para visitação da prainha + 5,00 para utilização do espaço quiosque, e 5 reais cada cerveja skolzinha. Um assalto. Como era noite de natal, e não tínhamos como retornar tudo, rs, ficamos por ali mesmo. Banho de rio, e todos prontos para o natal.
Pedalamos hoje 80km.
Para quem está de bike carregada, com peso nos alforges, não indico. Muitos trechos de areia fofa, e não sei se é pior tentar pedalar na marcha levinha e girar girar girar até derrapar… ou empurrar a bike pesada.

Dia 4 – 25/12
Seu Antonio x Rio Novo x Dunas Dona Benita

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Pedalamos e empurramos os 9km de areia para sair do Seu Antonio até chegar na bifurcação e tocar para o caminho oficial. Mas antes disso… durante este percurso… o bagageiro do Fábio também quebrou. Pedalei rápido alguns km para buscar as chaves com outro integrante do grupo, mas quando voltei, nem tinha parafuso para ser apertado, rs, quebrou/partiu mesmo. Fiz uma outra gambiarra no bageiro dele com enforca gato, mas perdemos muito tempo nisso, até o sol pegar forte.
Pedalamos 22km até Rio Novo quando o sol fritou os miolos. Fizemos uma longa parada ali na comunidade para esperar o sol abaixar um pouco, tomamos banho de rio, agua gelada e uma cervejinha para refrescar. Ali moram algumas famílias, e viajantes são bem vindos. Numa emergencia pode acampar gratuitamente no quintal do bar ou nas casas do vilarejo caso seja preciso.
Assim que o sol baixou pedalamos 13 km até a Dona Benita, uma figura alegre, festeira, de sorriso largo, e muitos causos de onça pra contar. A pedalada a tarde foi agradável, com muito visual da Serra Espirito Santo. Chegamos na Benita as 16:30, em tempo para curtir o por do sol nas dunas, são 10 km de ida e volta para as dunas.
Camping na Benita 15.

Dia 5 – 26/12
Benita x Mateiros

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Saímos da Benita com um superrrrrrrr vento contra, pedalando na reta com esforço de subida. Mas foi super agradável, pois o vento cortou a sensação de calor, que conforme um turista que passou estava na marca dos 40 graus. Visual fantástico da Serra Espirito Santo. Se tivéssemos tempo teríamos feito a trilha para o topo da serra, mirante. As 11:30 chegamos em Mateiros, foram somente 35km aproximadamente. Precisávamos de uma bicicletaria, pois estávamos com 1 bicicleta sem freio, 2 bagageiros quebrados e 1 alforge também. Uma longa parada para fazer estes reparos.
O pastor é o responsável pela bicicletaria, mas não estava. Voltamos mais tarde e nada. Mais tarde e nada. Ele chegou no finalzinho da tarde, e os bagageiros não tinham jeito mesmo. Deu uma ajeitada na bike sem freio, compraram outro VBrake, e reforçamos as gambiarras nos bagageiros.
Iríamos acampar no gramado do posto de gasolina gratuitamente, mas como fizemos hora na cidade para esperar a bicicletaria abrir, almoçamos na dona Rosa que nos ofereceu pouso. Pode montar a barraca de vocês ai em qualquer lugar, são muito bem vindos guerreiros, disse ela. Convite aceito. R$15 Almoço coma a vontade, Cerveja 2,50, Camping Grátis.

Dia 6 – 27/12
Mateiros x Cachoeira Formiga

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Um amigo disse: Não deixem de conhecer a Cachoeira do Formiga. Levamos a sério e resolvemos acampar lá.
Dia de pedalzinho bem curto. 26km. Daria para esticar de mateiros até lá tranquilamente. Numa comunidade próxima viramos atração, era festa de formatura de 3 moradores, com churrasco e 11 famílias reunidas. Nos receberam com prato de comida, e uma boa prosa, alem de nos apresentar toda a família, e os responsáveis pela festa. Nos despedimos com ar de quero ficar.
Fizemos uma parada no Fervedouro do Ceiça, o ultimo fervedouro, são 10 para entrar. Se tiver fila o tempo de permanência é de 20 minutos. Nunca tinha ido num Fervedouro antes. Gostei, rs.
Não fomos no Fervedouro Buritis devido a dica de um morador que era longe da pista e o caminho de areia muito fofa. 2 km a frente pegamos a direita, e entramos para a direita rumo à cachoeira, e foram 6km de areia, empurrando e pedalando em alguns trechos. Logo chegamos na cachoeira, e acampamos por lá, na Cachoeira do Formiga
25,00 para acampar. Somente a visita 20,00.
Ali eles tem bastante problema com o lixo local, vimos muito lixo jogado na propriedade toda, e muitos visitantes usando detergente na agua do rio, e os próprios moradores lavando louca ou usando sabonete no rio. Mas a cachoeira é fantástica, cor de agua esmeralda, nunca vi nada igual. Vale a pena conhecer.

Dia 7
Formiga x São Felix

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Voltamos 6km até a pista (por uma outra variante sem areia, rsrsrs, sendo possível voltar pedalando)
Fizemos uma paradinha para almoço no riozinho para esperar o calorão baixar.
Passamos no povoado de prado, mas não desviamos para ir na cachoeira. 20 km após o povoado, chegamos a São Felix, a tempo e curtir o pôr do sol na prainha. A idéia era acampar na prainha, mas o pessoal optou por pernoitar no quintal de um morador, Paulinho, na no centrinho mesmo. Acampamos gratuitamente.
Tem um camping na cidade mas a Irá não estava neste dia. O Paulinho também tem quartos/pousadinha que aluga para viajantes. Neste dia pedalamos 60km.

Dia 8
São Felix x Posto de Fiscalização
Tomamos café da manhã na Tia Rô pães caseiros e descemos 2 km até o Fervedouro do Alecrim 5,00 reais para entrada. Fervedouro maior, sem ninguém, vazio, com maior volume de agua mas com menor pressão de areia. Vale a pena conhecer. Banho de rio depois de 10km de pedalada.
Passamos em 2 riozinhos, e fizemos parada de almoço no ultimo, rio das abelhas, com muitas abelhas que enrroscam no cabelo, não tem prainha e nem sombra. Pedalamos em media 52km hoje.

Chegamos numa prainha deliciosa onde fica o posto de fiscalização. O responsável era o Williams ,que foi super gente boa. Acampamos por lá gratuitamente, e ele ainda preparou um peixe que tinha acabado de pescar. Preparamos nosso arroz, feijão, farofa, e degustamos do peixe fresco preparado e pescado pelo Williams.
A cicloviagem foi dividida em AM e PM, Antes de Mateiros e Pós Mateiros, rs. Depois de mateiros as estradas tem o chão mais firme, de terra batida, e a pedalada começou a render muito mais. Em grupo grande o avanço é mais lento, são mais problemas mecânicos, mais tempo para todos se arrumarem, mas mesmo assim conseguimos pedalar em bons horários nestes últimos dias. Antes de Mateiros tinham mais trechos de areia fofa, lama, e terra não firme que afundava o pneu.

Dia 9
Posto Fiscal x Camping do Camilo x Rio Prainha x Casa Abandonada x Fazenda

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Saímos no horário de sempre e chegamos as 9 da manhã no Camping do Camilo. O Camilo é camping, restaurante e bar, e tem algumas trilhazinha/riozinhos pela região. São exatos 27km do posto de fiscalização até o bar do Camilo. 23km depois do Camilo, tem um riozão com uma praia deliciosa, tem uma casa antes e uma casa depois da ponte, é um ótimo ponto para parada, mas como ainda era cedo, resolvemos tocar mais a frente. Mais um bagageiro quebrado, dessa vez do Brunão. Mais 15km chegamos no próximo rio e uma casa abandonada, que seria nosso ponto de pernoite mas depois de uma votação resolvemos tocar mais um pouco. Depois desta casa que tem um pé de manga na porta, a próxima rua a esquerda leva até o povoado de Lago do Tocantins, e é um atalho que economiza 20km.

Iríamos arriscar, mas logo no começo já notamos a areia fofa, então preferimos seguir pela estrada principal de cascalho. Meu bagageiro quebrou o outro lado, grrr, desta vez o Fábio e Andre fizeram uma gambiarra com um pedaço de mangueira. E deu super certo. Mais 10km e chegamos numa fazenda em frente a bifurcação Novo Acordo x Lagoa do Tocantins. Acampamos ali, grátis e tomamos banho de canequinha na torneira.

74,3 km pedalamos hoje. O Camilo indicou para ficarmos no Bar do toto em Novo Acordo no inicio do asfalto na beira do rio

Dia 10 – Ano Novo.
Fazenda x Lagoa do Tocantins

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Nosso Plano inicial era fazer a cicloviagem em roteiro formato ferradura. Começar em ponte alta e terminar em novo acordo. Em Novo Acordo pedalar 120km de volta à Ponte Alta, ou pegar um transporte. Mas soubemos que Novo Acordo é uma cidade maior, que teriam muitos shows, carros de som…rs… então passar o reveillon por lá não nos agradou.
Soubemos que a estrada à esquerda da fazenda chegava no vilarejo de Lagoa do Tocantins, que lá tem o Balneário que podemos acampar, e a cidade era pequena, com fácil acesso para Ponte Alta, onde deixamos nosso nosso veiculo. 28km de pedalada e já chegamos. 2 km dali fica o Balneário, uma espécie de piscinão, com um bar.
Final de tarde do dia 31 o local ficou vazio e silencioso, ufa. Fizemos ali a nossa comemoração de reveillon e final de cicloviagem.
A noite fomos para o Centro e encontramos todas as figuras que nos ajudaram no dia de hoje. O moço do bar, os motoqueiros que fizeram o resgate do veiculo, etc.

Problemas mecânicos:
Bagageiro da Vivi quebrou os 2 lados.
Bagageiro Fábio quebrou todos os parafusos.
Bagageiro Bruno quebrou 2 lados
Alforge Andre
Roda do Andre
Nenhum pneu furado

De volta ao carro, paramos na Chapada dos Veadeiros em Goiás para conhecer.
Vale da Lua 15,00 a entrada
Cachoeiras da fazenda São Bento, Almecegas I e II (8 km de Alto Paraiso) 20,00
Camping de 20 a 30 reais em media.
Ficamos no Catavento mais afastado da cidade.
Na ida para o Tocantins rodamos até Padre Bernardo.
Na volta em Natividade cidade histórica (35,00 pousada July com café), e em Catalão tambem.
Em ponte alta 40/pessoa e deixamos o carro no estacionamento por 10 dias gratuitamente.

Fotos de Vivi, Fábio e Andre. (obs: as fotos não estão em sequência)

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