RELATO: Tabuleiro 360 graus

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Quem é você pra querer planejar as coisas? Você quer sair no sábado, logo após as 8h. Mas tem uma semana infernal e vai dormir na sexta sem uma meia separada e com ajustes mecânicos a se fazer nas bicicletas. E pensa: “tranquilo, amanhã eu corro com tudo isso e até umas 10h, no máximo 11h, estou montando na bicicleta”. Mas dá 11h, 12h, 13h e as coisas só ficam prontas às 14h. Aí vem a difícil decisão de abortar o pedal naquele dia. Afinal, seriam 100km e nenhuma disposição de pegar a BR-101 a noite. Mas é uma decisão difícil, porque a viagem é longa e estava muito bem dividida entre os quatro dias do feriado de Tiradentes. Junto comigo estava a minha namorada, Letícia. E pensamos: dane-se o atraso, vamos pra ver no que vai dar. E deu boa, deu muito boa.

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Então fomos dormir com tudo pronto e partimos no domingo de manhã. Aquele transito nervoso rumo ao Sul da Ilha, que eu ainda tento entender o porque de tanta pressa em uma manhã de domingo, meio de feriadão. Mas foi passar o Campeche que as coisas se acalmaram. Menos carros, menos casas, nenhum prédio, mais natureza. Fomos tocando em bom ritmo até um pouco depois do Ribeirão, onde paramos para um caldo de cana com vista para o Cambirela, que pertence à Serra do Tabuleiro. E ela, a serra, é mote desta viagem. O objetivo é contorná-la, em uma volta de aproximadamente 290 km por Florianópolis, Palhoça, Paulo Lopes, Garopaba, Imbituba, Imaruí, São Martinho, São Bonifácio, Águas Mornas, Santo Amaro da Imperatriz, Palhoça, São José e Florianópolis novamente.

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Rumamos então em direção ao extremo Sul da ilha, até o número 20.000 da gloriosa Rodovia Baldicero Filomeno. De lá, após alguma demora, pegamos o único barquinho que operava neste dia e atravessamos para a praia do Sonho, já em Palhoça. Tinhamos levado de casa uns sanduíches de pão integral com pasta de amendoim, que comemos logo ao chegar na praia. Incrível a energia que eles fornecem pra quem está pedalando o dia todo com a bike pesada.

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Contornamos toda a praia da Pinheira, já com o Tabuleiro ao fundo constantemente. Chegamos até o Rio da Madre, repetindo até aqui o trajeto que havia feito com a Ada Cordeiro em janeiro. Mas para este dia a programação era diferente. Cortaríamos longos trechos de terra por alguns quilômetros de asfalto no acostamento da BR-101. A quantidade de caminhões na estrada e, principalmente, no Túnel do Morro Agudo, tornam a viagem mais estressante, sem dúvida, mas o acostamento da rodovia poupou ao menos 20 quilômetros e a subida do morro do Siriú. E ainda conseguimos parar no Engenho Lanches. Esta simpática lanchonete aumentou muito de tamanho nos últimos anos, mas ainda considero um lugar bacana para dar uma parada todas as vezes que vou para o Sul do Estado. Nesta parada percebi que meu joelho direito estava um pouco inflamado. Tinha dificuldade de esticá-lo todo e, ao pisar, sentida um pouco de dor. Nada demais, no entanto. Fiz algum alongamento e tocamos. De lá foram mais uns 6 km de asfalto quase plano e com vento empurrando. Resultado: velocidades acima de 30 km/h sem fazer muito esforço.

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Curioso foi que, ao chegar no camping, pensaram que éramos gringos e começaram a falar em espanhol com a gente. Não adiantava responder em português que continuavam arranhando o espanhol. Até que uma hora eu perguntei o que significava uma expressão que o cara que cuidava do jardim utilizou e ele virou a chave para o português. Bom, fomos logo escolher o local para montar a barraca. A liberdade era total, já que não havia ninguém acampado, apenas hóspedes nos quartos que eles também oferecem. Barraca montada, tomamos uma cervejinha e nos alongamos mais um pouco. O joelho continuava esquisito. Com o cansaço, jantamos cedo e partimos para dentro da barraca. A chuva que caiu durante a noite, longe de preocupar, serviu para embalar o sono.

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Para o segundo dia estavam previstos apenas 65 quilômetros, com uma subida um pouco mais forte. Aproveitamos bem a barraca e acabamos começando a pedalar perto das 10h. O joelho estava um pouco melhor. Ainda inchado, mas sem dor. Fomos girando sem forçar, aproveitando o vento que continuava a empurrar no acostamento da BR-101. Rapidamente chegamos ao acesso para Imaruí, deixando o trânsito mais pesado para trás e virando a bússola para o Oeste. O tempo também começava a virar. Muito vento, céu carregado e chuva nos esperavam em Iamaruí, onde paramos rapidamente para mais um sanduíche de pão integral com pasta de amendoim. Aproveitamos para empacotar tudo que não poderia se molhar e subimos nas bikes para o que imaginávamos que seriam alguns quilômetros de chuva e subida. Coisa de mais duas horas, eu pensava. Na saída, uma pradinha para usar o banheiro de um posto. No papo com o frentista, falei qual era o nosso destino do dia. Ele, com muita espontaneidade, falou: “Vocês vão até lá, é? É muito longe. Ah, não vai não”. hehehehe

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Bom, desnecessário dizer que fomos. Mas era realmente longe. Uns 15 quilômetros além do previsto pelo GPS que até agora não entendi de onde apareceram. Fora que a chuva apertou, a terra virou lama, o frio chegou, as subidas apareceram e o joelho resolveu inflamar com vontade. Fomos pedalando em um ritmo cada vez mais lento, vencendo uma subida após a outra sem muita conversa mais. No final da última e maior subida, já tive dificuldade em apoiar o pé direito no chão. Neste cenário decidimos por procurar uma pousada por um bom banho e uma boa e seca cama. A pousada do Recanto da Natureza é até simpática, mas os preços, no meu ponto de vista, não combinam com o quarto pouco limpo e com as refeições fracas. Mas era o que se tinha para o momento.

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E foi ali que resolvi encerrar esta viagem. O próximo dia seria o mais pesado da viagem, com aproximadamente 1.500 metros de subida acumulada, e o joelho estava grande e dolorido, não sentindo muito o efeito do relaxante muscular que eu havia levado. Acionamos o pai da Lê, que no dia seguinte estaria não muito longe, em Anitápolis. Carona garantida, tratamos de jantar e botar o pé pra cima.

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A terça-feira amanheceu com o tempo melhor, ameaçando sol. Tomamos o café da manhã sem nenhuma pressa. Acomodamos as bagagens de volta nas bikes e fomos para o ponto de encontro com nossa carona, o café colonial Fluss Haus.  Foram apenas cinco quilômetros de pedal, mas que renderam muitas fotos. Sem dúvida, uma belíssima região, bem ao Sul da Serra do Tabuleiro. E pra encerrar com chave de ouro, comemos bem à vontade os pratos da culinária alemã, como o joelho de porco (eisbein) e o repolho refogado (chucrute).

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Não fizemos o trajeto completo e saí de lá com um joelho inflamado. Mas quer saber? A viagem foi maravilhosa por vários motivos. Boa companhia, belas paisagens, aventura de um roteiro não-convencional e algumas boas risadas pelo caminho. Que os planos sigam furando assim!

Obs 1: Semanas antes de irmos de bike, fizemos o trajeto de moto. Confira as fotos deste cenário em um dia de muito sol clicando aqui.

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