Além da viagem: Ricardo e o expresso austral

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Em 38 dias ele percorreu 5.134 km, saindo de Florianópolis (SC) e chegando a Ushuaia, no extremo sul do continente.  E isso era apenas o começo. O engenheiro Ricardo Mühle fez, entre 2008 e 2009, mais de 12 mil quilômetros em uma viagem por Brasil, Argentina e Chile. Montado em uma bicicleta desenvolvida por ele mesmo, Ricardo fazia mais de 200 km por dia com alguma frequência. No primeiro dia, por exemplo, foram 232 km. No segundo, seriam 110, mas com a ajuda do vento, percorreu 199 km. “Fiz os 80 km [adicionais] com média pra lá dos 30 km/h.  Em alguns trechos metendo 45 por hora….hahahaha!!!”, escreveu em seu relato no blog “Confins Austrais“. Mas o vento não seria tão generoso em toda a viagem, e o ciclista chegou a completar trecho com media de 8 km/h.

Abaixo estas e outras histórias desta acelerada aventura pelo sul do continente.

IMG_1029Como foi para definir um roteiro tão longo, com tantas estradas de terra e até algumas trilhas? A que fontes você recorreu? Quais foram as dificuldades?
Bom, a princípio tinha uma coisa em mente, sair de Floripa ir até Ushuaia e voltar. Desde a primeira vez que decidi fazer esta viagem e tracei um roteiro preliminar, até o roteiro definitivo (planejado), as mudanças foram poucas. Em mãos eu tinha 3 livros que minha mãe havia me dado alguns anos antes. Um era sobre a Patagônia, outro sobre a famosa Ruta 40 na Argentina (estes dois muito ricos em fotos belíssimas) e por fim um sobre a história de Ushuaia.

Para montagem do roteiro me utilizei de várias informações de sites e blogs de viajantes dos mais variados tipos. O roteiro que acabou sendo realizado obviamente foi um pouco diferente daquele que foi traçado no aconchego do meu lar, sentado na minha escrivaninha! Durante a viagem tu vais cruzando com viajantes que vem em sentido contrário e a troca de informações e às vezes o fato de ver uma fotografia de determinado lugar faz com que alguma coisa acabe sendo alterada na hora. As maiores mudanças aconteceram na perna de retorno. Voltei andando mais pelo lado chileno do que havia planejado, talvez por estar um pouco cansado das paisagens secas do lado argentino. Acabei me metendo em trilhas pesadíssimas que não estavam no meu script, mas que valeram muito a pena pelas paisagens ao redor.

Na fase de planejamento usava com bastante frequência o Google Earth para observar as estradas do trajeto, se eram pavimentadas ou não, se haviam pontos de apoio, etc.

Você já trabalhou como mecânico de bicicleta. Em que isso lhe ajuda na preparação e durante a viagem?
Trabalhei por 6 meses no final dos anos 90 na Bike Tech de Florianópolis. Na verdade isso pouco agregou ao que eu já sabia sobre manutenção de bikes, pois desde muito pequeno já comecei a “fuçar” nas bikes que eu tive. Para uma viagem desse porte acho fundamental que se saiba um pouco mais do que o básico, afinal em certos trechos a ajuda mais próxima pode estar a centenas de quilômetros. Obviamente que o fato de não ter um conhecimento de mecânica mais avançado, não vai tornar uma viagem desse tipo impossível, mas convenhamos que seja chato ficar dependendo de outros pessoas devido a problemas banais na bici. 

IMG_0636Sua bicicleta era única, feita “do zero”, mas com características de speed (selim mais alto que o guidão, que, por sinal, era de speed, e pneus mais finos).  Isto certamente lhe possibilitou percorrer distâncias em boa velocidade. Mas e o conforto ao longo dos dias?
Realmente, minha bike era uma híbrida. Se hoje eu fosse fazer uma viagem igual ou maior, usaria exatamente o mesmo set-up, as mudanças seriam em pequenos detalhes. O fato de ter um quadro de MTB é que ele te possibilita o uso de uma gama variada de pneus. Na verdade eu usei pneus semi-slick até chegar a Ushuaia, na verdade um pouquinho mais, já no retorno, em Punta Arenas. Essa foi a melhor opção, pois 97% do trajeto de “descida” foram em estrada asfaltada. Depois os troquei por pneus de MTB, pois no retorno havia longos trechos de estrada de chão. Em relação ao conforto, a minha posição na bike até que era bem agressiva, mais ou menos como a de uma bike speed. Na verdade tentei replicar as mesmas medidas de distâncias e alturas da minha speed nesta híbrida, por considera-la extremamente confortável. Quanto ao guidon, um de speed é muito melhor do que um guidon flat de MTB, pois ele te proporciona várias posições para as mãos, algo importante para longas distâncias. Não tive problema nenhum de dores devido à postura na bike, seja nas costas, joelhos ou braços.


SunplusVocê construiu os próprios bagageiros e tentou adaptar painéis solares para carregamento de baterias. O que mais você desenvolveu para a viagem e pode compartilhar para outros viajantes?
Na verdade construí meus próprios bagageiros por realmente gostar de fazer esse tipo de coisa. O outro motivo foi por não haver no mercado nada que me agradasse e atendesse as minhas necessidades. Eu queria bons bagageiros em aço que aguentassem o tranco. Pode observar que meu bagageiro traseiro é do tamanho certo para que a barraca fique devidamente acomodada. Outro ponto importante foram os suportes para as garrafas de água cada uma de 1,5 ou 2 litros. Duas no bagageiro traseiro, e duas no dianteiro, fora as duas caramanholas normais de quadro. Acredite, para pedalar pela Patagônia argentina é bom ter muita água de reserva! Ah claro, não poderia deixar de comentar o ponto alto dos meus bagageiros, a cestinha dianteira….rsrsrs. Extremamente funcional! Ali ficavam as coisas que sempre deveriam estar ao alcance das mãos durante o dia, evitando assim o abre e fecha dos alforges. Os painéis solares no final acabei não levando, pois estavam subdimensionados. Na verdade não fizeram falta, pois foi muito raro não chegar a um lugar que disponibilizasse energia para recarga das baterias da máquina fotográfica a cada dia. A recarga diária nem era algo necessário também.

Cheguei a fazer um circuito eletrônico para recarregar as baterias da máquina e de um barbeador elétrico usando o dínamo da bici….rsrs Estas são algumas das coisa que não usei uma vez sequer!

DSC03798Como foi a preparação física para fazer distâncias tão grandes com bagagens?
Não fiz nada específico, do tipo treinar com a bike carregada alguns dias. Eu remava diariamente e por vezes fazia uns pedais longos, tanto de MTB como de speed, mas não com distância tão grandes, algo como 60/70 km, porém bem intensos. O primeiro grande “treino” com a bici carregada foi justamente o primeiro dia de viagem!

O vento, a partir de um certo ponto da viagem, se tornou um fator muito importante, fale um pouco sobre isso.
O vento é um capítulo a parte em uma viagem dessas, pela sua importância. A região patagônica é famosa pela intensidade dos ventos durante o verão. Vento soprando com velocidades superiores a 60 Km/h durante o dia inteiro é bastante comum. Alguém que não esteja fisicamente bem preparado para aguentar ficar mais de 10 horas sobre a bike, pedalando contra o vento, tem de se planejar bem para evitar ficar sem alimento durante determinados trajetos. Quando planejando a viagem no aconchego do meu lar, eu não tinha a real dimensão do que é pedalar por 11 horas para cobrir 100 Km, distância que cubro facilmente em não mais do que 5 horas sem vento!

O engraçado é que muitas vezes em que me encontrava na situação de estar pedalando com velocidades na casa da unidade, por conta do vento contra absurdo, me pegava rindo de alguma situação engraçada que me vinha à mente. Não adianta ficar praguejando, pois no meio de uma viagem destas só há uma opção, ir em frente. Sentar no acostamento e ficar resmungando não acumula quilometragem no velocímetro!

IMG_0660Apesar do ritmo acelerado, você conseguiu belas imagens da viagem toda, em especial do trecho entre El Chalten e Pucón. Qual a importância, para um cicloturista, de parar e observar o entorno de seu trajeto?
Isso depende de como cada pessoa gosta de contemplar as paisagens. Pessoalmente acho que a velocidade que se imprime em uma bicicleta é a ideal para contemplar a vista ao redor. Não fosse o fato de ter de parar para tirar fotos e comer, acho que em muitos dias eu nem teria parado, pois as paisagens para os confins Austrais são muito amplas, somadas a uma velocidade de 20 ou 30 km/h…..é tempo suficiente para curtir tudo!


Gosta de subidas?
É o meu prato favorito, tanto de bici como correndo a pé! Não é a toa que em 2011 voltei ao Paso Libertadores (divisa Chile/Argentina) e subi-o correndo. Todos os anos, em Dezembro, junto os amigos pra subir correndo a Serra do Rio do Rastro.

IMG_0001Como enfrentou o ”tédio“ das grandes distâncias perto do final, no norte da Argentina?
Acho que o sentimento que mais me marcou no fim da viagem foi o de querer chegar em casa. O engraçado é que quando eu cheguei em casa, já bateu saudade daquela minha “rotina” de viajante que já estava tão natural.

Que outras viagens você já fez ou gostaria de fazer?
Um ano antes, fiz uma pequena viagem de 3 dias com mais 3 amigos pelo interior de Santa Catarina, com carro de apoio. Acho que foi ela que me impulsionou a fazer uma trip grande, assim que eu me formei. Essa viagem foi como que minha festa de formatura!

Tenho pretensão sim de fazer outras viagens, mas acho que pra considerar essa nova viagem como em um nível acima, tenho de dar um upgrade na preparação dela. Isso passa por utilizar uma bicicleta de fabricação própria. Vendo o caminho que ainda tenho de trilhar para tornar isso possível, acredito que vá levar algum tempo ainda até o próximo grande Tour.

Eu tenho uma idéia que é o de fazer uma viagem passando por todas as “piores” subidas que estão geralmente presentes no Tour de France, Giro d’ Italia e na Vuelta a España.

Ah sim, já ia esquecendo, no momento meu hobby “remunerado” é a Mühle Composites.

Um comentário em “Além da viagem: Ricardo e o expresso austral

  • março 3, 2013 em 6:52 am
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    Muito show a entrevista. O cara pedala muito forte. Apenas me intriga o fato da maioria dos cicloturistas brasileiros se lançarem pelos países sul americanos, antes mesmo de pedalarem pelos quatro cantos do Brasil. De onde vem essa atração pelo sul do continente?

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    • março 4, 2013 em 9:32 am
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      O Brasil é maravilhoso, Waldson. Sempre teremos algo mais a descobrir por aqui. Mas não vejo impedimento para explorar outras paisagens. As fotos da viagem dele mostram isso. Abraço!

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  • março 3, 2013 em 10:21 pm
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    Parabéns amigo. Gostaria eu de ter esta disponibilidade. Adorei a questão de fabricar seus próprios bagageiros. Vejo que es de Sp. Vamos um dia pedalar no Domingo ou qualquer outro dia para conversarmos. vjtorroni@gmail.com

    Abraços

    Vanderlei Torroni

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    • março 4, 2013 em 9:33 am
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      Obrigado, Vanderlei. Vamos combinar, sim. Este próximo domingo eu estarei por aqui. Abs

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